Terça-feira, 20 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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A web está se tornando uma imensa casa de vidro

Por Carlos Castilho em 31/07/2010 | comentários


A divulgação de 92 mil documentos secretos sobre a guerra no Afeganistão pôs em evidência uma das questões mais complexas e polêmicas entre todas as levantadas pela disseminação do uso da internet como canal de comunicação: qual a linha divisória entre o que pode ou não tornar-se domínio público em matéria de informação.


Esta não é a primeira vez que a imprensa, em especial o jornal norte-americano The New York Times, publica documentos secretos revelando erros graves cometidos pelo Pentágono e pela Casa Branca na condução de aventuras militares dos Estados Unidos noutros países. Em 1971, o consultor Daniel Ellsberg entregou ao mesmo The New York Times um conjunto de documentos com 42 mil páginas mostrando as trapalhadas norte-americanas na guerra do Vietnã.


Na época, Ellsberg, um consultor contratado pelo Pentágono para integrar uma equipe encarregada de fazer uma radiografia da guerra, precisou recorrer a um jornal para publicar os documentos. Quase quarenta anos depois, o soldado raso Bradley Manney usou o site Wikileaks para divulgar um pacote de mensagens, relatórios, gráficos e depoimentos sobre erros cometidos por funcionários e militares norte-americanos no Afeganistão. Da página do Wikileaks, o material pulou para o The New York Times, The Guardian e Der Spiegel, que deram credibilidade a um material publicado origianalmente por um site especializado na divulgar informações que em geral não saem na grande imprensa por causa de seu conteúdo polêmico.


A internet e a web mudaram radicalmente a forma como as informações circulam no mundo moderno. Antes, quase todas as noticias passavam pelo crivo da imprensa antes de chegar ao conhecimento público. Agora, os filtros praticamente desapareceram e as notícias vão direto das fontes aos leitores. O resultado é o aumento da transparência informativa numa escala inédita na história da imprensa. É cada dia mais difícil manter sigilo sobre qualquer tipo de fato, dado ou processo.


A extrema fluidez dos circuitos noticiosos na web complica extraordinariamente a proibição, bloqueio ou filtragem de informações. Mas enquanto a maioria saúda a maior transparência noticiosa como um elemento positivo na vida democrática, crescem também os temores de que esta situação possa levar a um ‘salve-se quem puder‘ em matéria de bombardeio informativo.


Se até agora as iniciativas de regulação e controle estavam concentradas no lado emissor da informação, agora começamos a tomar consciência de que a filtragem passa a ser cada vez mais uma responsabilidade do receptor. Num ambiente de avalancha informativa, são os leitores que passam a ter que fazer a seleção do material. Antes era mais cômodo, porque esta tarefa era delegada aos jornalistas profissionais e especialistas, mas agora eles já não têm mais condições de acompanhar o avassalador fluxo de novas noticias, fatos e dados.


Isto faz com que muitas pessoas se queixem de que a corrupção aumentou, que arbitrariedades as policiais se multiplicam e de que a violação das normas éticas está alcançando limites inimagináveis. Esta sensação é causada não tanto por um aumento da violência e da corrupção em termos asbolutos, mas sim por uma maior transparência e divulgação. A truculência policial não é um fato novo em cidades como Rio e DSão Paulo. O inédito é a frequência com que ela é noticiada.


Cabe agora ao público exercer o seu livre arbítrio na hora se separar o joio do trigo em matéria de informação. É uma responsabilidade adicional e que vai exigir que passemos a desenvolver uma leitura crítica dos fatos e notícias que chegam ao nosso conhecimento. Isto tudo num ambiente de transparência onde a privacidade já não pode mais ser resguardada apenas por leis e códigos. Ela depende de novos hábitos e de novos valores que permitirão a nossa sobrevivência em comunidades que serão muito parecidas a casas com paredes de vidro.

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