Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

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A web está se tornando uma imensa casa de vidro

Por Carlos Castilho em 31/07/2010 | comentários


A divulgação de 92 mil documentos secretos sobre a guerra no Afeganistão pôs em evidência uma das questões mais complexas e polêmicas entre todas as levantadas pela disseminação do uso da internet como canal de comunicação: qual a linha divisória entre o que pode ou não tornar-se domínio público em matéria de informação.


Esta não é a primeira vez que a imprensa, em especial o jornal norte-americano The New York Times, publica documentos secretos revelando erros graves cometidos pelo Pentágono e pela Casa Branca na condução de aventuras militares dos Estados Unidos noutros países. Em 1971, o consultor Daniel Ellsberg entregou ao mesmo The New York Times um conjunto de documentos com 42 mil páginas mostrando as trapalhadas norte-americanas na guerra do Vietnã.


Na época, Ellsberg, um consultor contratado pelo Pentágono para integrar uma equipe encarregada de fazer uma radiografia da guerra, precisou recorrer a um jornal para publicar os documentos. Quase quarenta anos depois, o soldado raso Bradley Manney usou o site Wikileaks para divulgar um pacote de mensagens, relatórios, gráficos e depoimentos sobre erros cometidos por funcionários e militares norte-americanos no Afeganistão. Da página do Wikileaks, o material pulou para o The New York Times, The Guardian e Der Spiegel, que deram credibilidade a um material publicado origianalmente por um site especializado na divulgar informações que em geral não saem na grande imprensa por causa de seu conteúdo polêmico.


A internet e a web mudaram radicalmente a forma como as informações circulam no mundo moderno. Antes, quase todas as noticias passavam pelo crivo da imprensa antes de chegar ao conhecimento público. Agora, os filtros praticamente desapareceram e as notícias vão direto das fontes aos leitores. O resultado é o aumento da transparência informativa numa escala inédita na história da imprensa. É cada dia mais difícil manter sigilo sobre qualquer tipo de fato, dado ou processo.


A extrema fluidez dos circuitos noticiosos na web complica extraordinariamente a proibição, bloqueio ou filtragem de informações. Mas enquanto a maioria saúda a maior transparência noticiosa como um elemento positivo na vida democrática, crescem também os temores de que esta situação possa levar a um ‘salve-se quem puder‘ em matéria de bombardeio informativo.


Se até agora as iniciativas de regulação e controle estavam concentradas no lado emissor da informação, agora começamos a tomar consciência de que a filtragem passa a ser cada vez mais uma responsabilidade do receptor. Num ambiente de avalancha informativa, são os leitores que passam a ter que fazer a seleção do material. Antes era mais cômodo, porque esta tarefa era delegada aos jornalistas profissionais e especialistas, mas agora eles já não têm mais condições de acompanhar o avassalador fluxo de novas noticias, fatos e dados.


Isto faz com que muitas pessoas se queixem de que a corrupção aumentou, que arbitrariedades as policiais se multiplicam e de que a violação das normas éticas está alcançando limites inimagináveis. Esta sensação é causada não tanto por um aumento da violência e da corrupção em termos asbolutos, mas sim por uma maior transparência e divulgação. A truculência policial não é um fato novo em cidades como Rio e DSão Paulo. O inédito é a frequência com que ela é noticiada.


Cabe agora ao público exercer o seu livre arbítrio na hora se separar o joio do trigo em matéria de informação. É uma responsabilidade adicional e que vai exigir que passemos a desenvolver uma leitura crítica dos fatos e notícias que chegam ao nosso conhecimento. Isto tudo num ambiente de transparência onde a privacidade já não pode mais ser resguardada apenas por leis e códigos. Ela depende de novos hábitos e de novos valores que permitirão a nossa sobrevivência em comunidades que serão muito parecidas a casas com paredes de vidro.

Todos os comentários

  1. Comentou em 21/08/2010 ABAIXO A CENSURA ABAIXO A CENSURA

    ABAIXO A CENSURA, SEU JORNALISTA FILHO DA P UTA AUTORITÁRIO DE M ERDA!!!!!!!!!!!

  2. Comentou em 03/08/2010 Jaime Collier Coeli

    Já dispomos de life-styles para o cidadão demonstrar sua capacidade de exercer seu livre-arbitrio, como se optar entre isto ou aquilo pudesse ser considerado o exercicio de liberdade material. Também dispomos de escuta telefonica, garantia de que o cidadão evitará expressar alguma manifestação politicamente incorreta. Em relaçao à palavra escrita, temos a garantia de que o jornalismo e até a literatura se expressa em termos adequados às crenças em vigor. Sem duvida falta (será que falta mesmo?) um dispositivo eletronico que intervenha nas conversas da web, para combater pensamentos negativos (sic) do consumidor compulsorio. Censura já!

  3. Comentou em 02/08/2010 Marciel da Silva Ribeiro

    ‘que deram credibilidade a um material publicado ORIGIANALMENTE
    por um site especializado NA divulgar informações que em geral não
    saem na grande imprensa por causa de seu conteúdo polêmico.’

    WTF?!

  4. Comentou em 02/08/2010 Odracir Silva

    O mais interessante do caso do wikileaks foi a simbiose do wikileaks c/ a ‘midia tradicional’ (ou o oportunismo do wikileaks). Como o caro Castilho bem colocou nao haa um filtro no wikileaks, nem o wikileaks consegue validar muitas de suas noticias. No caso, o site pediu p/ q jornais e revistas c/ boa reputacao checassem as info. Defendo q deve haver transparencia… porem c/ uma certa responsabilidade. Haa a questao de seguranca nacional, onde os americanos reclamam q haa info. q colocam informantes e tropas em perigo. Ee uma questao temerosa, o q me faz lembrar daquela jornalista do NYT q foi presa pq nao quis revelar a sua fonte. Outro exemplo sao os gastos de cartoes feito pela presidencia. Isto realmente deve ser publicado ou q a info. seja passada p/ pessoas q possam vaza-las? Como se ve, caro Castilho, haa um buraco q ee bem mais embaixo sobre a questao do wikileaks…

  5. Comentou em 02/08/2010 Ibsen Marques

    A questão é que a qualidade do livre arbítrio está muito colada à educação que se tem. O Grupo Abril já percebeu isso e, ao adquirir o Anglo sem maiores dificuldades ou questionamentos, procura dar sua dose cavalar de contribuição para que ele (o livre arbítrio) ocorra de maneira o mais diminuta possível. Deter oligopolicamente a informação já era nefasto, mas nada comparável à dominação do binômio educação-informação.

  6. Comentou em 01/08/2010 Remindo Sauim

    Aproveitem em visitem o http://www.wikileaks.org e na seção países
    descobritram nomes como Roseana Sarney e Tasso Jereissat. Não
    percam.

  7. Comentou em 01/08/2010 Jaime Collier Coeli

    Se ‘as noticias passavam pelo crivo da imprensa’ versus ‘aumento da transparencia informativa’ pode ‘levar a um salve-se quem puder’ devo concluir que a ignorancia é a mãe de toda ciência exata e que aquilo que denominamos governabilidade de fato não ultrapassa o estágio do engodo da maioria silenciosa pelos orgãos executivos? As politicas de segurança, em qualquer país têm um elevado custo financeiro. Mesmo antes da internet era comum que informações vazassem, às vezes para alimentar disputas entre facções do governo. As ‘casas com paredes de vidro’ de fato só exibem ‘transparencia’ (remember antiga URSS) quando convém.

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