Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Acusações não provadas – de parte a parte

Por Luiz Weis em 22/11/2006 | comentários

No domingo, o Globo deu em manchete que a ‘Petrobras favorece ONGs ligadas ao PT com patrocínio’ e dedicou ao assunto uma página inteira e a área disponível de três outras – na última delas, a empresa desmente que tenha escolhido por critérios políticos os organismos beneficiados, assegurando que as decisões se guiam por análises técnicas e que fiscaliza os projetos selecionados.

Na segunda, de novo o Globo, e na terça, a Folha publicaram reportagens em que empresas fornecedoras da Petrobrás aparecem como grandes doadoras de candidatos petistas em vários Estados na última eleição.

O que as três matérias passam para o leitor é a idéia de que a Petrobrás favorece organizações não governamentais, empresas e entidades empresariais – no caso, a Associação Brasileira de Engenharia (Abemi) – que tratam bem o PT.

Ou seja, a estatal praticaria o ‘toma lá, dá cá’, ou o ‘dá cá, toma lá’, como se preferir.

Nenhuma das matérias demonstra uma relação de causa e efeito entre o dinheiro gasto pela Petrobras com ONGs e empresas, e o fato de umas terem ligações com o PT e outras doarem dinheiro para o PT.

É possível – quem sabe, altamente possível – que essa relação exista. Mas ela não ficou comprovada.

Ontem, o presidente da Petrobras, o petista José Sérgio Gabrielli, convocou uma entrevista na qual acusou jornalistas de fazer ‘ilações inaceitáveis’.

E elaborou: ‘O que saiu em O Globo e o que saiu na Folha de S.Paulo é uma completa ilação irresponsável tentando associar situações que não são relacionadas com a ação da Petrobrás.’

Se tivesse ficado nisso, nada haveria a criticar no seu comportamento. Mas não: ele não ficou nisso.

Ele acusou os dois jornais de promover ‘uma campanha orquestrada contra a Petrobras’ e de fazer ‘jornalismo marrom’.

Com isso ele pode ser acusado do que acusa as reportagens: de fazer ‘ilações inaceitáveis e irresponsáveis’.

Porque ele não provou nem o que chamou de ‘campanha orquestrada’ – uma variante da expressão ‘complô da mídia’ –, nem que o Globo e a Folha sejam exemplos de imprensa marrom, ‘a que explora o sensacionalsimo, dando larga cobertura a crimes, fatos escabrosos e anomalias sociais’, na definição do Novo Dicionário Aurélio.

Outra coisa que Gabrielli não podia fazer era se dirigir a um dos autores das reportagens, dizendo, segundo o Estado, que ele não é bem-vindo na Petrobras.

A moral da história é que vai de mal a pior o tiroteio entre o PT/governo e a mídia, entre petistas e jornalistas acusados de parceria com a oposição – e por aí.

Como o governo não vai intimidar a mídia, se é isso que pretende, nem a mídia vai derrubar o governo, se é isso que pretende, as agressões servem apenas para degradar, mais e mais, o nível do debate público no Brasil.

Em outras palavras, sobra para os brasileiros que prezam a civilidade, mesmo em caso de conflitos de idéias, acima das ideologias e das preferências políticas.

Da série ‘O asco, o asco’

Reportagem do Estado sobre o ato de desagravo ao ex-comandante do DOI-Codi, coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra – que se diz inocente de torturar presos políticos durante a ditadura e considera ilegítimo o processo aberto contra ele – informa que participaram do evento, em Brasília, ‘mais de 200 oficiais de alta patente da reserva das Forças Armadas, entre eles 70 generais’.

Ali se disseram coisas de dar engulhos:

‘Enquanto assaltantes, sequestradores, terroristas e assassinos permanecem livres sob a justificativa de que lutavam por uma causa, nós que, cumprindo ordens de nossos superiores hierárquicos, lutamos e preservamos a democracia agora estamos ameaçados de ir para a prisão…’ (Ustra).

‘Do que o acusam e quem o acusa? Do crime, como se fosse crime, de defender com risco da própria vida a nossa pátria.’ (ex-senador e coronel Jarbas Passarinho).

Para os chegados há pouco a este mundo: em 1964, um golpe militar derrubou um governante eleito, o presidente João Goulart; o regime que se seguiu e durou até 1985 foi tudo menos democrático: fechou o Congresso, cassou políticos, aposentou professores, censurou a mídia, amordaçou a cultura, prendeu, torturou, matou e condenou arbitrariamente pessoas que, estas sim, ‘defenderam com risco da própria vida a nossa pátria’, além de outras tantas que nem sequer exerceram o direito universalmente reconhecido de resistência à tirania.

No mérito, como dizem os profissionais do direito, Ustra alega que não pode ser processado porque a Lei da Anistia impede a punição de envolvidos em crimes, de parte a parte, naqueles intermináveis anos de treva. Mas a família que o acusa de torturá-la não pede que ele vá para a prisão, ao contrário do que diz. Quer o reconhecimento de um fato – em nome da verdade.

Ustra disse achar que a Lei da Anistia ‘muito em breve será revogada’. Não será, até onde a vista alcança. Mas, na Argentina e no Uruguai, onde a anistia caiu, a gorilada, militar e civil, já começou a pagar pelos seus crimes monstruosos.

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 25/11/2006 severino borba borba

    Li aqui na net mesmo, alguma coisa sobre outros militares daquela epoca que já estão de pijama, mas vivendo numa boa, as fotos os motravam em copacabana e alguns até tinham a identidade preservada.
    De vez em quando , na tv a cabo, vejo alguns documentarios sobre aquela epoca sob a otica dos ‘terroristas’, hoje mesmo estava uma senhora, professora no RIO , e que teria sido trocada pelo embaixador alemao, não peguei o seu nome.
    O fato é que TODOS afirmam ter existido a tortura, e como podemos filtrar destes depoimentos, eles tinham uma causa , um motivo , não se vislumbra uma luta armada, eles estavam inferiorizados diante de todo um aparato militar, destaca-se apenas atos de ‘guerrilha’ com resultados importantes sob o seu ponto de vista mas que em nada abalaram o poder estabelecido. Po ouro lado a repressão foi forte, incisiva, insensivel e definitiva, pois os ‘terrositas’ não venceram, sumiram , literalmente.
    Diante do exposto, acho que a lei de anistia deveria ser revista sim, pois a ‘obediencia a ordens superiores’ resultou em traumas e perdas inesqueciveis para alguns poucos brasileiros ainda vivos e outro tanto que lutam pelo reconhecimento da morte de desaparecidos.
    Só a indenização é muito pouco.

  2. Comentou em 24/11/2006 Marcos Adriano Rodrigues da Silva

    O que mais tem em banca é exemplar encalhado da Veja. De duas uma:ou a revista é malfeita, ou o seu antipetismo, antilulismo ou coisa que o valha, não cola mais.

  3. Comentou em 23/11/2006 Manoel Pinto

    Para os chegados há pouco a este mundo, em 1964…. Que bom, Weis, que aos 71 anos de idade, nos aproximando sempre, cada dia mais de nossa estada terrestre, possamos ter a certeza de que seja qual for o dia, de agora em diante, podermos partir tranquilos, na tranquilidade de que verdades assim estarão sempre sendo levadas às futuras gerações de maneira tão cristalina em apenas pouco mais de seis ou sete linhas, mostrando às futuras gerações, páginas negras de nossa história vividas com muita tristeza e vergonha por nós, pessoas de bem, principalmente quando para que não haja dúvidas em julgamentos ou debates futuro, para que tudo possa, então, ser alcançado em plena e total consciência do fato e da efeméride! Beleza de postagem! Pena, meu nobre que a necessidade não lhe permitiu postar os temas separadamente! Creio que valeria a pena, não? De qualquer forma, uma vez mais, meu parabens. Marcas assim o teu retorno ao Verbo Solto em plena explosão do teu talento e dignidade. Abraços, Manoel Pinto.

  4. Comentou em 23/11/2006 Euclides Rodrigues de Moraes

    Paulo César da Rosa Romão,
    Como você tem a ousadia de afirmar que o Sr. Weis está mentindo sobre as arbitrariedades cometidas pela Ditadura que ocorreu no Brasil?
    As afirmações do Sr. Weis, são corroboradas, por todos que viveram naquele período, eu sou um deles. Tais fatos não são ocultos, mas procura-se exibí-los com orgulho, tanto que, um de meus vizinhos, que fez parte dos torturadores, em conversas, confirma a sua participação, juntamente com outros colegas seus, nesses procedimentos lamentáveis.

  5. Comentou em 23/11/2006 Maria do Carmo

    A coisa funciona assim: a Petrobrás distribui propagandas na Época, Veja, Istoé e Carta Capital. Aí a imprensa “inocente” detona: PETROBRÁS FAVORECE REVISTA CUJO DONO APOIOU LULA.

  6. Comentou em 22/11/2006 aecio castro

    realmente,

    uma pessoa com o passado do lula e do Pt , chegar a público e dizer que, fazer uma aliança com o PMDB, é histórica, vou ter que concordar com os bajuladores de governos , sejam quais forem , realmente há um complô, mas não é contra o (des) governo, é contra a nossa inteligência

    depois dessa notícia, a melhor saída é pedir para descer , e nem vou precisar de para-quedas.

    o ‘complô ‘ não seria ao contrário?

  7. Comentou em 22/11/2006 Paulo César da Rosa Romão Romão

    E eu digo ‘aos chegados à pouco a este mundo’ que, como todo esquerdista que se preze, o Sr. Luiz Weis mente discaradamente sobre a histótia política do país.

  8. Comentou em 22/11/2006 Calypso Escobar

    Naum ha um comentario,mas o assunto eh de estarrecer.Soltem o PCC e prendam os filhos de Hitler,e,salve esta figura q.por menos estardalha;o matou milhares e milhares de idiotas(o povo),judeu e naum judeu,branco, e, negro nem no cinema americano.Meu irmao saiu do Brasil,um estudante de filosofia com anos para viver sem ficar lesado,naum escuta de um ouvido e outros afazeres militares bem piores.Comprei a sodadela em Sao Cristovao para q.sua mae naum o visse de algemas…ora se dependesse de mim,o esp[irito de JOANA D’Arc montaria seu cavalo e faria desaparecer estes putridos assassinos.Meu PC esta sem acentos e pe;o desculpas.Grata Calypso Escobar Nome e email autenticos.

  9. Comentou em 22/11/2006 Eduardo Guimarães

    Luiz, eu fico com uma dúvida. Vá lá que você acha que não existiu complô nenhum da mídia contra Lula. Por sua ótica, então, esse noticiário simultaneamente idêntico, sempre anti-Lula e PT, deve ser porque toda a mídia pensa igual. Certamente as frases iguaizinhas em todos os meios de comunicação quando o assunto é ‘o dossiê contra tucanos’ e outros consensos do gênero, também deve ser devido à convivência entre os jornalistas da grande imprensa. Ao saírem do trabalho devem se encontrar todos e passar noitadas juntos e, por isso, até a forma de falar é a mesma. Agora, eu fico pensando no seguinte: todos sabem de como parcela expressiva da opinião pública começou a desconfiar da imprensa do ano passado para cá. Duvido que até você, Luiz, negue que a imprensa perdeu credibilidade em quantidades industriais. E ela continua na mesma toada, cometendo os mesmos ‘erros’ só contra o PT o tempo todo. Afinal, o que leva grandes órgãos de imprensa a continuarem torturando a própria credibilidade dessa maneira? Não há instinto de sobrevivência ou há alguma compensação que a mídia está obtendo por conta da credibilidade perdida? E se há essa compensação, do que se trata? E se não há, por que os ‘erros’ só contra o PT continuam? Se você fizer um levantamento desses ‘erros’ anti-PT publicados em seu blog, ficará impressionado. Aliás, se fizer esse levantamento, por certo mudará de opinião.

  10. Comentou em 22/11/2006 Silvano Carvalho

    Fiquei esperando vc dizer, que é possivel, altamente possivel, que os meios de comunicação estarem fazendo um ‘ complô da mídia’.

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