Sexta-feira, 15 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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Agora, é a rede que importa

Por Carlos Castilho em 09/10/2009 | comentários

Tradicionalmente, o nosso parâmetro para medir o valor de um projeto jornalístico era avaliar primeiro o montante de dinheiro investido, o prestígio dos editores e a proposta de trabalho, para só depois perguntar pelo público alvo.


 


Era, porque já existem indícios suficientes para nos mostrar que as pessoas passaram a ser mais importantes do que todo resto. Uma anedota que está circulando entre jornalistas norte-americanos dá conta desta mudança de foco que, seguramente, vai nos obrigar a revisar uma série de rotinas profissionais.


 


A anedota conta que um grupo de jornalistas desempregados da Califórnia testou durante dois anos um modelo de noticiário semântico por meio do qual cada informação era automaticamente colocada em contexto.


 


Os responsáveis pela iniciativa tiveram que entrar em contato com especialistas em mecanismos semânticos na Web, técnicas de cognição, doutores em semiótica e semiologia e psicólogos que estudam mapas mentais, entre outros especialistas. Eles naturalmente formaram uma rede virtual para troca de idéias.


 


Quando o projeto chegou à fase alfa (incompleto mas capaz de atrair financiadores) os responsáveis saíram em busca de apoio financeiro para desenvolver a versão final e foi aí que tiveram uma enorme surpresa. Um dos primeiros investidores contatados depois de ouvir a apresentação do projeto foi curto e grosso:


 


“ A idéia de vocês é maravilhosa e inovadora. Mas eu não quero o software. Pago três vezes mais do que vocês estão pedindo, mas é pela rede. Vocês podem ficar o software”. Achando que se tratava de uma gozação, os jornalistas procuraram outro financiador e ouviram quase a mesma resposta, só com uma diferença: o valor oferecido pela rede era ainda maior.


 


Perplexos eles acabaram descobrindo que seus valores profissionais foram virados de cabeça para baixo. O produto físico perdeu valor. Os investidores estavam interessados mesmo era nas pessoas que viabilizaram o produto. Resultado, apesar das ofertas tentadoras, eles decidiram ficar com a rede.


 


Moral da história: fazer jornalismo daqui para frente, vai exigir pensar primeiro da rede de pessoas que os especialistas norte-americanos chamam de produsers (produtores e consumidores) de informação e depois na parafernália tecnológica. É claro que estou simplificando mas tudo indica que o caminho é este.


 


Para desenvolver uma rede é necessário ter uma proposta atraente, inovadora e que envolva a participação dos produsers. A proposta e o software não precisam estar prontos e acabados, pois o público participará do seu desenvolvimento por meio da rede recebendo e fornecendo dados. Quanto maior a participação, maior a interatividade na rede e mais eficiente a produção da ferramenta que viabilizará a proposta.


 


Na teoria tudo isto parece muito bonito mas quem já tentou montar redes sabe que é um trabalho muito mais difícil, demorado e imprevisível.  Daí o valor das redes já existentes, como a dos leitores do Observatório da Imprensa. Nossos recursos materiais e humanos são ridículos. A rede é o nosso principal ativo mas ela não é só nossa. Ela também é das pessoas que lêem, discutem e postam comentários em nossa página Web.


 

É esta noção de parceria que confunde os jornalistas. Nós estamos acostumados a um trabalho solitário cujo reconhecimento e certificação de qualidade são dados por nossos pares e pelas chamadas fontes. Na era das redes, quem agora garante o nosso futuro são os nossos parceiros nas redes de informação. 

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