Sábado, 19 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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Ajuda estatal gera polêmica na reconstrução do jornalismo norte-americano

Por Carlos Castilho em 23/10/2009 | comentários

Duas grandes estrelas da constelação do jornalismo norte-americano acabam de provar o lado amargo da polêmica sobre fórmulas para a sustentabilidade econômica do jornalismo do futuro.


 


Michael Schudson e Leonard Downie Jr, professores em renomadas universidades norte-americanas e donos de currículos invejáveis em matéria de jornalismo, sugeriram o uso de recursos públicos para salvar jornais em dificuldades financeiras e para ajudar iniciativas independentes de jornalismo local.


 


As sugestões foram feitas num alentado informe de 100 páginas intitulado The Reconstruction of American Journalism (A Reconstrução do Jornalismo Americano), divulgado esta semana, e receberam de imediato uma avalancha de críticas dos principais incentivadores do jornalismo online independente, como Dan Guillmor, Jeff Jarvis e Jay Rosen.


 


Os jornais ameaçados pela crise mantiveram um enigmático silêncio sobre a polêmica sugestão, enquanto os críticos acham que cabe aos leitores, ouvintes, telespectadores ou internautas decidir o tipo de ajuda que será dada às iniciativas locais de jornalismo online.


 


Parece uma coisa meio utópica, mas se pensarmos melhor, faz algum sentido. A hipótese de ajuda governamental tem vários pontos contrários. O primeiro e mais importante é o de que os governos já não conseguem mais distinguir entre interesses do público e interesses privados (os do próprio governo), o que abre campo para a manipulação da ajuda.


 


O segundo ponto em contra é que a ajuda governamental, inevitavelmente, será financiada por meio de novos impostos ou desvio de recursos com outra destinação. Ambas medidas acabam prejudicando contribuintes, porque são aplicadas indiscriminadamente. Os norte-americanos, em especial, ainda estão traumatizados pelos efeito das ajuda do governo Obama para salvar conglomerados bancários e automobilísticos.


 


O que ganha força é a idéia de que os usuários de informações é que decidirão qual o projeto jornalístico que merecerá a sua contribuição, e de que forma. O conceito por trás de tudo isto é o de que o público passará a ter uma nova relação com os produtos jornalísticos.


 


Ele poderá manter a relação varejista atual com as empresas de comunicação, seja comprando o produto físico como jornais, revistas e acesso a sites noticiosos, ou “vendendo” a sua atenção às emissoras de rádio e televisão que veiculam publicidade comercial.


 


A outra opção para o público consumidor de informações seria uma parceria com iniciativas independentes (blogs individuais, páginas noticiosas sem fins lucrativos, sites de jornalismo especializado etc., etc.) em que a contribuição financeira está associada à idéia de participação.


 


Ainda há muita discussão sobre qual será o formato desta parceria e como se dará a participação. Na Alemanha, discutiu-se semana passada a idéia de uma lei estabelecendo que todas as pessoas devem contribuir para algum tipo de projeto informativo independente. A contribuição seria obrigatória, mas o contribuinte é que escolhe livremente quem será o beneficiado. 


 


Apesar das críticas, o informe The Reconstruction of American Journalism tem também o seu lado positivo. É a ampla análise do funcionamento de dezenas de iniciativas jornalísticas independentes nos Estados Unidos. A listagem desses projetos mostra que muita coisa já está sendo feita nessa área e que o chamado jornalismo-cidadão já está muito mais disseminado do que imaginamos.


 


Um dos principais exemplos da nova tendência é o projeto The Voice of San Diego, um site de jornalismo local criado por jovens profissionais demitidos do jornal San Diego Union-Tribune. O Voice foi criado no início deste ano, como uma organização sem fins lucrativos, mantida atualmente por contribuições de 982 pessoas. O site tem 100 mil visitantes únicos mensais e já recebeu , em menos de um ano de existência, quatro grandes prêmios por reportagens investigativas na cidade de San Diego, no sul da Califórnia.


 


O The Voice of San Diego não pode ser classificado como um modelo a seguir porque o prazo para que ele se mostre sustentável ainda não acabou. Mas tanto a sua experiência com a de dezenas de outros novos empreendedores jornalísticos mostra que os leitores terão que dar algum tipo de contribuição para a sobrevivência de projetos voltados para a informação local ou especializada (nichos informativos).

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