Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Alerta contra o contágio

Por Luiz Weis em 30/07/2006 | comentários

Na quinta-feira, escrevi que esperava, por dever de ofício, que algum jornal se manifestasse contra o contágio das investigações do escândalo dos sanguessugas por interesses eleitorais. Não só porque o eleitor não ganhará nada com isso, mas também porque, para mal dos pecados, a apuração sairá perdendo.


Hoje, O Estado tratou do problema no seu principal editorial [nada na Folha, nem no Globo, para citar os outros dois grandes jornais nacionais]. Chama-se ‘Onde estão os vampiros’. Diz o seguinte: 




‘Tudo o que o Brasil definitivamente não precisa no caso dos sanguessugas é a contaminação das investigações – uma fecunda parceria entre o Executivo, o Judiciário e o Legislativo – por interesses eleitorais. Os candidatos Geraldo Alckmin e Heloísa Helena foram de uma infelicidade a toda prova ao tentar depositar o escândalo na soleira do Planalto, como se a fraude de R$ 110 milhões não tivesse começado no governo anterior, ou talvez antes ainda; como se não fosse a Polícia Federal, na atual gestão, que tivesse descoberto e desmantelado o ataque incessante dos vampiros ao erário; e, principalmente, como se estes, no Congresso e nas prefeituras, não fossem os grandes operadores e beneficiários do crime continuado, acumpliciados com uma família de negociantes que aprendeu com um político mato-grossense o caminho das pedras.

A julgar pelos seus trechos publicados na imprensa a partir de quinta-feira, o documento de 150 páginas que contém 9 dias de confissões do capo mafioso Luiz Antonio Vedoin à Justiça Federal não respalda a acusação do candidato tucano de que ‘a matriz’ de mais esse arrombamento do Tesouro é o governo federal. É verdade que o dinheiro para a compra de ambulâncias superfaturadas, a partir de emendas ao Orçamento da União, saía do Ministério da Saúde. Mas não se pode omitir que isso vinha ocorrendo antes que o seu titular fosse o petista Humberto Costa – que Vedoin, segundo o seu advogado, não teria citado – e continuou ocorrendo ao tempo do seu sucessor, o deputado peemedebista Saraiva Felipe, este sim, citado de forma comprometedora e chamado a se explicar pela CPI dos Sanguessugas.

É a porosidade aparentemente insanável das estruturas da administração, somada à inércia ou a indiferença do seu corpanzil burocrático, que explica a ampla probabilidade de êxito com que agem os assaltantes de colarinho-branco e crachá de congressista, mesmo quando os ocupantes dos escalões superiores da máquina a eles não se associam ou deles guardam profilática distância. Mas, ao disparar contra o alvo errado, a oposição deu margem para que o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e seu homólogo da Controladoria-Geral da União (CGU), Jorge Hage, desfiassem perante a imprensa números desconfortáveis para tucanos e pefelistas. ‘Não se trata de jogar os sanguessugas no colo do governo passado’, explicou Hage, ‘mas de repelir o escamoteamento da verdade.’

E a aparente verdade é que, uns mais, outros menos, quase todos os partidos têm a duvidosa distinção de abrigar políticos nacionais e municipais que participaram da lambança que apequena até o mensalão. Se Vedoin diz a verdade – e se isso corrobora as evidências já colhidas contra 90 parlamentares e ex-parlamentares pelas agências federais mobilizadas -, membros de 11 agremiações representadas no Congresso (do PL com 18 investigados, ao PT com 2, passando, em ordem decrescente, por PTB, PP, PMDB, PFL, PSB, PSDB, PSC, PPS e PRB) deixaram as digitais nos cofres públicos. O mesmo fizeram, salvo prova em contrário, 591 prefeitos das mesmas e outras siglas. É uma endemia. Ao que parece, nenhum legislador do PDT tem culpa em cartório, mas 17% dos seus prefeitos eleitos em 2000 têm – mais que qualquer outra legenda, em proporção.

Aliás, diferentemente do que se supunha, deputados e senadores receberam propina da Planam, a maior das firmas de Vedoin, não só pelas emendas que funcionavam, como o abre-te Sésamo para a rapina. Eles faziam o serviço completo, aliciando prefeitos e os ajudando a fraudar as licitações para a compra de ambulâncias e outros equipamentos em benefício de quem os subornava. Vedoin era um homem de palavra: pagava o combinado, às vezes antecipadamente, em dinheiro vivo, depósitos bancários, regalos e mordomias. Por exemplo, o deputado evangélico Pastor Amarildo (do PSC do Tocantins), o mesmo que concebeu a lei contra a imprensa que o presidente acabou de vetar, cobrou R$ 50 mil adiantados por suas emendas e recebeu um microônibus de R$ 40 mil para orientar os prefeitos a pecar contra a moralidade administrativa.

A esmagadora maioria dos congressistas corrompidos é do baixo clero parlamentar, que teve os seus 15 minutos de fama ao levar o seu patrono Severino Cavalcanti ao comando da Câmara. Eles se elegem para roubar. E roubam para forrar o caixa 2 com o qual esperam se reeleger, e assim ad nauseam – literalmente.’


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