Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

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Alerta contra o contágio

Por Luiz Weis em 30/07/2006 | comentários

Na quinta-feira, escrevi que esperava, por dever de ofício, que algum jornal se manifestasse contra o contágio das investigações do escândalo dos sanguessugas por interesses eleitorais. Não só porque o eleitor não ganhará nada com isso, mas também porque, para mal dos pecados, a apuração sairá perdendo.


Hoje, O Estado tratou do problema no seu principal editorial [nada na Folha, nem no Globo, para citar os outros dois grandes jornais nacionais]. Chama-se ‘Onde estão os vampiros’. Diz o seguinte: 




‘Tudo o que o Brasil definitivamente não precisa no caso dos sanguessugas é a contaminação das investigações – uma fecunda parceria entre o Executivo, o Judiciário e o Legislativo – por interesses eleitorais. Os candidatos Geraldo Alckmin e Heloísa Helena foram de uma infelicidade a toda prova ao tentar depositar o escândalo na soleira do Planalto, como se a fraude de R$ 110 milhões não tivesse começado no governo anterior, ou talvez antes ainda; como se não fosse a Polícia Federal, na atual gestão, que tivesse descoberto e desmantelado o ataque incessante dos vampiros ao erário; e, principalmente, como se estes, no Congresso e nas prefeituras, não fossem os grandes operadores e beneficiários do crime continuado, acumpliciados com uma família de negociantes que aprendeu com um político mato-grossense o caminho das pedras.

A julgar pelos seus trechos publicados na imprensa a partir de quinta-feira, o documento de 150 páginas que contém 9 dias de confissões do capo mafioso Luiz Antonio Vedoin à Justiça Federal não respalda a acusação do candidato tucano de que ‘a matriz’ de mais esse arrombamento do Tesouro é o governo federal. É verdade que o dinheiro para a compra de ambulâncias superfaturadas, a partir de emendas ao Orçamento da União, saía do Ministério da Saúde. Mas não se pode omitir que isso vinha ocorrendo antes que o seu titular fosse o petista Humberto Costa – que Vedoin, segundo o seu advogado, não teria citado – e continuou ocorrendo ao tempo do seu sucessor, o deputado peemedebista Saraiva Felipe, este sim, citado de forma comprometedora e chamado a se explicar pela CPI dos Sanguessugas.

É a porosidade aparentemente insanável das estruturas da administração, somada à inércia ou a indiferença do seu corpanzil burocrático, que explica a ampla probabilidade de êxito com que agem os assaltantes de colarinho-branco e crachá de congressista, mesmo quando os ocupantes dos escalões superiores da máquina a eles não se associam ou deles guardam profilática distância. Mas, ao disparar contra o alvo errado, a oposição deu margem para que o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e seu homólogo da Controladoria-Geral da União (CGU), Jorge Hage, desfiassem perante a imprensa números desconfortáveis para tucanos e pefelistas. ‘Não se trata de jogar os sanguessugas no colo do governo passado’, explicou Hage, ‘mas de repelir o escamoteamento da verdade.’

E a aparente verdade é que, uns mais, outros menos, quase todos os partidos têm a duvidosa distinção de abrigar políticos nacionais e municipais que participaram da lambança que apequena até o mensalão. Se Vedoin diz a verdade – e se isso corrobora as evidências já colhidas contra 90 parlamentares e ex-parlamentares pelas agências federais mobilizadas -, membros de 11 agremiações representadas no Congresso (do PL com 18 investigados, ao PT com 2, passando, em ordem decrescente, por PTB, PP, PMDB, PFL, PSB, PSDB, PSC, PPS e PRB) deixaram as digitais nos cofres públicos. O mesmo fizeram, salvo prova em contrário, 591 prefeitos das mesmas e outras siglas. É uma endemia. Ao que parece, nenhum legislador do PDT tem culpa em cartório, mas 17% dos seus prefeitos eleitos em 2000 têm – mais que qualquer outra legenda, em proporção.

Aliás, diferentemente do que se supunha, deputados e senadores receberam propina da Planam, a maior das firmas de Vedoin, não só pelas emendas que funcionavam, como o abre-te Sésamo para a rapina. Eles faziam o serviço completo, aliciando prefeitos e os ajudando a fraudar as licitações para a compra de ambulâncias e outros equipamentos em benefício de quem os subornava. Vedoin era um homem de palavra: pagava o combinado, às vezes antecipadamente, em dinheiro vivo, depósitos bancários, regalos e mordomias. Por exemplo, o deputado evangélico Pastor Amarildo (do PSC do Tocantins), o mesmo que concebeu a lei contra a imprensa que o presidente acabou de vetar, cobrou R$ 50 mil adiantados por suas emendas e recebeu um microônibus de R$ 40 mil para orientar os prefeitos a pecar contra a moralidade administrativa.

A esmagadora maioria dos congressistas corrompidos é do baixo clero parlamentar, que teve os seus 15 minutos de fama ao levar o seu patrono Severino Cavalcanti ao comando da Câmara. Eles se elegem para roubar. E roubam para forrar o caixa 2 com o qual esperam se reeleger, e assim ad nauseam – literalmente.’


***


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Todos os comentários

  1. Comentou em 31/07/2006 RONALD BITTENCOURT

    E A ENORME E INFINDÁVEL UTILIZAÇÃO POLÍTICA DAS OUTRAS CPIS??????????? AÍ TUDO BEM?????????????

  2. Comentou em 30/07/2006 taciana oliveira

    Quando aquele ex-secretário do Governo de São Paulo, não sei escrever o nome, logo após os primeiros tumultos começou a dar uma de João-sem-braço e tentar se livrar da responsabilidade do que estava acontencendo e dizendo que o beneficiário dos tumultos era o PT e que o PCC fazia campanha para Lula e o PT ,eu escrevi em mais de um blog, que o PT devia tomar cuidado que não tardava começariam a dizer que o PCC era um braço armado do PT e que seu trabalho era fazer caixinha para o PT. Dizia eu, se eu fosse o PT iria logo à justiça.O PT demorou, confiou, até que Serra e Nazi-catarinense do PFL falaram com todas as letras. Quando foram envolvidos judicialmente, pararam de falar. Lembra daquele poema de Thiago de Mello, que diz que no primeiro dia levaram uma flor?Pois é, ou o governo dá um basta agora ou vai assumir perante a sociedade mais essa, tenha ou não tenha feito.

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