Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CÓDIGO ABERTO > Desativado

A mídia não larga mais o osso

Por Luiz Weis em 30/09/2007 | comentários

Desde a publicação dos editoriais ‘Teatro mambembe’, na Folha de quinta-feira, 27, e ‘O nome é o de menos’, no Estado do dia seguinte, que relacionam o ‘tucanoduto’, como diz a Folha, ao mensalão petista, caiu de vez em exercício findo a teoria conspiratória de que a mídia acobertava o esquema de irrigação com recursos ilícitos da campanha reeleitoral do governador mineiro Eduardo Azeredo, do PSDB, em 1998.


A rigor, essa teoria já tinha sofrido profundo golpe com a matéria de capa da revista IstoÉ de dois fins-de-semana atrás, antecipando trechos cabeludos do caudaloso relatório da Polícia Federal a respeito do delito – cujo nome, como bem observou o Estado ‘é o de menos’, para pôr no devido lugar a bizantina polêmica caixa 2 x mensalão, que equivale à tentativa de partir um fio de cabelo no sentido do comprimento.


E foi a imprensa que arrancou de Azeredo a admissão já comentada neste blog [http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/blogs.asp?id=
{3121BDCE-18F1-46AC-8198-81AF85E4FED8}&id_blog=3
]de que o dinheiro que bancou a sua campanha bancou também a de Fernando Henrique em Minas.


É verdade que a imprensa tardou em abocanhar o osso. Mas agora que o fez, não dá sinais de que pretenda largá-lo. Enquanto não aparece um Roberto Jefferson para ligar o ventilador na velocidade máxima, os jornais vão agregando o que podem ao caso.


Com base nas investigações da PF, o repórter Frederico Vasconcelos pôs na manchete da Folha de hoje que, na função de juiz eleitoral em Minas, Rogério Tolentino, que viria a ser advogado de Marcos Valério, ‘recebeu verba do valerioduto durante a campanha de Eduardo Azeredo’ e ‘votou a favor do tucano em datas próximas a depósitos em sua conta e na de sua mulher’ – R$ 302 mil ao todo.


Para a polícia, trata-se de ‘recursos de estatais desviados para o caixa de coordenação financeira da campanha’.


Outro repórter da Folha, Rubens Valente, buscou mostrar o que o ‘valerioduto mineiro’ e o mensalão têm de comum e de diferente. Segundo ele, as diferenças são três: no primeiro caso, os pagamentos a políticos ocorreram exclusivamente em ano eleitoral e os empréstimos bancários usados para o esquema foram quitados; no segundo caso, houve pagamentos no exterior para empresa criada em paraíso fiscal.


Muito bem. Mas o principal foi esquecido: a razão de ser das duas operações, em última análise. E nesse ponto as semelhanças pesam muito mais que as diferenças, digamos, técnicas.


Uma e outra serviram para financiar políticos aliados e aliados em potencial. 


São robustos os sinais de que o tucanoduto ajudou a cacifar as campanhas de uma centena e meia de candidatos de diversos partidos, em 1998, ou porque eles foram leais aos interesses do governo Azeredo no seu primeiro mandato, ou para assegurar essa lealdade, na Assembléia estadual, na Câmara dos Deputados e no Senado, no desejado segundo mandato que acabou não se concretizando.


No mensalão, o valerioduto abasteceu deputados de diversos partidos já no exercício do mandato, para que engrossassem a base parlamentar do governo Lula e votassem de acordo com os interesses do Planalto. Além disso, companheiros que não precisariam ser subornados para votar com o seu governo puderam beber da mesma fonte para quitar dívidas de campanhas passadas ou formar pecúlio para campanhas futuras.


Aqui e ali há casos que não se enquadram nessa moldura. Mas a regra foi essa. Se se quiser, a única diferença entre os dois esquemas, descontada a periodicidade dos pagamentos, é cronológica. Uns foram aquinhoados antes de se eleger. Outros, depois. No mais, o que deles se esperava em troca era essencialmente a mesma coisa.


A Folha não foi a única a ‘voltar ao local do crime’ neste domingo. No Estado, a repórter Vera Rosa fez o ex-vice de Azeredo e atual ministro de Lula, Walfrido Mares Guia, pular miudinho numa entrevista de página inteira.


Ele disse o esperado e algumas preciosidades: ‘Eu tenho plenas condições de desfazer os mal-entendidos ou insinuações que apareceram em relação ao meu nome… Estou firme como uma rocha… Não tive envolvimento com a área financeira da campanha de Azeredo… Eu não participava de nada disso [caixa 2 com desvio de recursos públicos, na oportuna lembrança da repórter]… Como é que eu ia imaginar uma coisa dessas?… Só quem foi candidato sabe o que é a vida numa campanha, porque você não controla as coisas que estão acontecendo ao lado… Pessoas querem ver chifre em cabeça de cavalo…’


Ele só há de ter convencido a cupinchada amiga e o pessoal preocupado com o que pode sobrar do envolvimento de Mares Guia para o governo Lula.


Confira em http://www.estado.com.br/editorias/2007/09/30/pol-1.93.11.20070930.11.1.xml


P.S. Quando o repórter não sabe com quem está falando


Nos últimos anos 1970, com a ditadura de 1964 já se arrastando para os finalmentes, a imprensa, partindo da Folha de S.Paulo, teve a histórica iniciativa de abrir as suas páginas aos acadêmicos da área de ciências humanas, notadamente do trio de ferro sociologia-ciência política-antropologia.


Eles ganharam espaço sem precedentes para escrever – o que teve reconhecido papel na destilação do repúdio ao regime nas novas gerações de leitores, oriundos da mesma classe média que nos anos Medici colava nos seus carros o infame ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’.


Além disso, passaram a ser entrevistados rotineiramente sobre as questões em relação às quais se presumia que tivessem algo a dizer, a julgar pelas suas credenciais. E isso se incorporou ‘em definitivo’, como diria o Galvão Bueno, aos usos e costumes do jornalismo brasileiro.


Mas, apesar das assessorias de comunicação das faculdades, a quem os repórteres costumam recorrer, entre outras fontes de auxílio, para saber qual professor ou pesquisador tem cacife para falar sobre isso ou aquilo, de vez em quando os diários escolhem o doutor errado para entrevistar;


O resultado é o pior dos mundos. Porque o cidadão fala do que não sabe – raros, no meio, têm a dignidade de recusar uma entrevista porque o tema não é o seu forte; porque o repórter compra docilmente o gato pela lebre; e porque o pobre do leitor tende a pagar o pato por imaginar que, se o jornal pegou o professor Fulano para comentar tal assunto, é porque ele é o homem certo no lugar certo.


Exemplo disso é a entrevista do repórter Moacir Assunçã com o professor de Ciência Política, da FGV, Marco Antonio Teixeira, no Estado de ontem.


Começa do título ‘Fisiologismo virou negociação política’. Virou?!? E o que era a negociação política nos governos anteriores? Entendimentos baseados em princípios doutrinários compartilhados?


Terá sido por comunhão de valores com o presidente da República que Renan Calheiros – para citar o político da temporada – se tornou lulista desde criancinha, depois de ter sido ministro da Justiça de Fernando Henrique?


Noventa por cento do que se lê na entrevista são coisas tidas e sabidas: a longevidade das práticas fisiológicas na política nacional, a impossibilidade de governar sem o toma-lá-dá-cá, a mudança do discurso petista depois que o partido chegou ao poder, a característica eminenemente regional das lideranças do PMDB, exacerbando a pressão por verbas e cargos, o desnorteamento da oposição.


Pior são os 10% restantes – a resposta do entrevistado à angelical pergunta ‘O que é preciso para pelo menos reduzir o fisiologismo?’, que fecha o pingue-pongue. Eis o que o professor diz:


‘Precisamos de uma reforma política que torne o quadro partidário mais enxuto. É importante rediscutir a cláusula de barreira, de forma que fiquemos com menor número de legendas e a negociação seja mais institucional, não com caciques. A instituição da fidelidade partidária é outra providência.’


Tirando o adendo final, que tem pé e cabeça, o resto é um assombro. Estão representados na Câmara 19 partidos. Mas o governo só precisa barganhar com uma fração desse total, sobretudo, obviamente, com a legenda dona da maior bancada – para variar, o PMDB, com cerca de 20% das cadeiras. Essa realidade não mudaria uma vírgula com um ‘quadro partidário mais enxuto’.


Cientistas políticos deviam saber que, daquelas 19 siglas, conta apenas a meia dúzia que decide as votações. Imagine se o inquilino do Planalto perde o sono com o PSC, PTC, PMN, PHS, PT do B e assemelhados.


E antes que me esqueça: desde quando no Brasil se faz negociação política ‘institucional, não com caciques’?

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