Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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AP:a agonia de um ícone da era da informação escassa

Por Carlos Castilho em 16/04/2009 | comentários

Até a década de 1970, a sigla AP era sinônimo de solidez, credibilidade e poder. Logo APFundada em 1846, a agência de notícias Associated Press dominou o cenário jornalístico mundial durante mais de um século e meio mas agora trava uma luta desesperada contra o avanço da modernidade.


 


O modelo de negócios da agência, desenvolvido na era da informação escassa, já não funciona mais quando o acesso à noticia se tornou tão fácil e comum que seu preço caiu a quase zero. Com isto, ficou insustentável manter uma estrutura que já teve 240 escritórios e quase mil correspondentes espalhados em até 121 países, nos anos 1960 e 70.


 


A cooperativa foi fundada por cinco jornais norte-americanos para baratear os custos de cobertura da guerra de 1846, na qual o México perdeu o Texas para os Estados Unidos. Na época, as notícias eram levadas por mensageiros que usavam barco, cavalo, carruagem e telégrafo até chegar a Nova York, quase uma semana depois.


 


Não há a menor dúvida de que a Associated Press é mais uma vítima das novas tecnologias de comunicação e informação. Mas em vez de aceitar a irreversibilidade do processo, a AP resolveu morrer atirando em todas as direções, mesmo que os seus sócios já considerem a guerra perdida.


 Dean Songleton


Seu diretor Dean Singleton (foto ao lado) deflagrou uma ofensiva jurídica para processar todos os sites de notícias como o Google News, Topix, MSNNews e Yahoo News, que produzem páginas informativas com base em jornais e revistas que recebem material da AP. A agência alega que o Google News e similares “roubam” material noticioso porque não pagam nada por ele.


 


Acontece que o radicalismo de Singleton não é acompanhado pela maioria dos integrantes da cooperativa da AP — que não só acham inútil a batalha pela cobrança de direitos autorais, como estão convencidos de que o Google News atrai leitores para as versões impressas de jornais e revistas.


 


Outro paradoxo da polêmica decisão da Associated Press é que os seus sócios e clientes oferecem de graça nas suas páginas na Web o mesmo material que a agência quer cobrar do Google, Yahoo, Topix e outros.


 Teletipo da AP


Saul Hansel, o criador e editor do blog Bits, publicado pelo The New York Times, afirma, com uma ponta de ironia, que a AP foi a primeira empresa 2.0[1] no ramo jornalístico ao iniciar o processo de barateamento da notícia quando introduziu sistemas automáticos de distribuição como o teletipo (ao lado). Ao comentar a decisão de Dean Singleton, Hansel foi enfático: “Em lugar de lutar contra moinhos de vento, a AP deveria é sair do mercado”.


 


O dilema da Associated Press não é isolado dentro da imprensa convencional. Há dezenas de outras empresas do ramo jornalístico que estão no chamado “corredor da morte  da internet. É um caso que deveria ser estudado e pesquisado porque não é uma questão de falta de conhecimento ou informação. Afinal, esta é a matéria prima das agências de noticias, dos jornais, revistas, rádios e TVs.


 


O grande problema das empresas no “corredor da morte” é a ausência de uma cultura corporativa aberta à inovação. No caso das empresas de capital aberto, os acionistas primeiro exigiram cortes drásticos nas redações, alheios ao fato de que estavam estrangulando o sistema que gerava a própria razão de ser do negócio jornalístico.


 


Já nas empresas dominadas por famílias tradicionais na imprensa, faltou modéstia para reconhecer que o tempo das vacas gordas está acabando e que a hora de mudar já está quase esgotada. Não há duvida de que é difícil convencer-se de que balanços anuais com lucros de 20%, ou maiores que isso, já não se repetem mais.


 


Mais difícil ainda é aceitar que uma empresa como a AP, dona de um acervo único em matéria de dados e informações, prefira afundar atirando contra moinhos de vento em vez de compartilhar a sua rica experiência com todos aqueles que estão buscando um novo modelo de produção de notícias jornalísticas. 






[1] 2.0 é uma expressão usada para identificar empresas e sistemas que usam contribuições de usuários para gerar negócios.

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/04/2009 reinaldo cabral cabral

    o que assistimos do do último quarto do sec. xx para cá foi a aceleração dos avanços tecnológicos onde se destacam a medicina -nonocultura – e as comunicações com a internet. como a ap não acompanhou essa transformação com a mesma velocidade com sua estrutura gigantesca espalhada pelo mundo nada mais patético e até justo que os remanescentes da sua cúpula exijam idenizações das novas estruturas comunicacionais que a sucederam. claro,como a ap sempre esteve no nucleo dos acontecimentos mundiais em todas as áreas,lemantase que seus executivos não tenham tido agilidade para estar no miolo dos detonadores da internet.por isso, é tão triste o crespúsculo da ap no raiar de novos dias para as comunicações mundiais;justamente o dia em que não haverá mais jornais impressos pelo simples fato de não haver mais árvores para se derrubar para fazer papel. afinal, não estamos caminhando para uma tragédia ambiental de proporções planetárias?
    l

  2. Comentou em 19/04/2009 Aline Braga

    Em todo caso, ele não está sozinho na guerra contra a gratuidade das noticias. O pessoal do New York também não éstá cogitando a possibilidade?

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