Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

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Aquecimento para o julgamento

Por Luiz Weis em 20/08/2007 | comentários

Na mídia, como na vida, há situações inescapáveis. Difícil, portanto, criticar os jornalões que gastaram opulento espaço com o mensalão e os acusados de mensalismo – os 40 em relação aos quais o Supremo Tribunal Federal decidirá, a partir de quarta-feira, se têm suficiente culpa em cartário para serem processados, como pediu o procurador-geral da República.

A pauta era tão óbvia como as matérias dos velhos tempos que, ano sim, o outro também, informavam que ‘não faltará pescado na Semana Santa’ e ‘tabeladas as flores para Finados’.

Fazer o quê? Folha, Globo e Estado revisitaram a história do escândalo e contaram do que se acusa e o que fazem hoje os seus principais personagens: Dirceu, Delúbio, Silvinho, Marcos Valério, Duda Mendonça…

O leitor que se deteve no pacote pode se considerar suficientemente aquecido para participar, na arquibancada, da contenda a se iniciar no STF. Mas quem correu o noticiário pela rama talvez tenha passado ao largo de um ‘pequeno detalhe’: assim como no caso do recebimento da denúncia do procurador, a eventual abertura de processos contra os denunciados não significa que sua culpa foi provada; significa que o tribunal encontrou indícios de culpa para iniciar a ação.

É claro, de qualquer forma, que a instauração dos processos terá efeito político imediato – especialmente se entre os processados estiver o ex-presidente do PT, ex-ministro e ex-deputado José Dirceu, acusado de ser o chefe da ‘quadrilha’ de que fala o procurador.

Daí ser mais relevante que todas as da véspera a matéria assinada por Kennedy Alencar e Fábio Zanini, na Folha de hoje, intitulada ‘Futuro de Dirceu preocupa o Planalto’. A ela, pois:

Na avaliação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de seus principais auxiliares, a eventual exclusão do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu da denúncia do mensalão equivaleria a uma espécie de absolvição política em relação à participação do Planalto no maior escândalo político dos quase seis anos de governo petista.

No entanto, se o Supremo Tribunal Federal não excluir Dirceu da denúncia do procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, o governo sofrerá uma condenação política, no entender de sua cúpula. Razão: a maior corte do país aceitaria a tese de participação do Poder Executivo, por meio da poderosa Casa Civil dos tempos de Dirceu, na compra de votos no Congresso.

Segundo a Folha apurou, o Palácio do Planalto considera que há chance de Dirceu se salvar. Emissários do governo conversaram com os 11 ministros do STF nos últimos tempos. E colheram as avaliações de que, juridicamente, não haveria provas contra Dirceu e parte dos denunciados pelo Ministério Público poderá ser excluída do processo criminal.

Para o Planalto, parte dos denunciados responderá a processo no STF por admitir crimes menores (como caixa dois) para tentar condenação a penas também menores.

Os emissários do Planalto também ouviram que parte dos ministros dos STF levará em conta dois aspectos: a repercussão política do julgamento na opinião pública e o argumento de que aceitar a denúncia não equivale a condenação prévia, pois acusados poderão provar a eventual inocência.

Tecnicamente, o STF julgará se considera que há elementos para abertura de processo criminal contra os 40 denunciados. Politicamente, a aceitação da denúncia traria dano ao governo e ao PT. O processo não deve estar concluído até 2010, fim do mandato de Lula.

A salvação de Dirceu é um fato desejado pelo governo por seu simbolismo político. O mensalão poderia ficar circunscrito a um episódio do PT, cujos atores principais teriam sido o ex-tesoureiro Delúbio Soares e Marcos Valério.

Apesar de integrantes da cúpula do governo enxergarem que esse seria o cenário mais positivo, eles avaliam que a exclusão de Dirceu teria aspectos negativos: o fortalecimento do ex-ministro no PT e uma eventual tentativa do partido de recuperar influência no governo.

Haveria a campanha pela anistia de Dirceu, cassado pelo Congresso em 2005. A campanha acirraria os ânimos no país quando Lula deseja paz para tocar o Programa de Aceleração do Crescimento, a aposta do segundo mandato para melhorar a fotografia histórica do petista.

A Folha apurou que Lula não gosta da imagem do Dirceu consultor que atravessa o continente em jatinhos falando com empresários interessados em negócios, não raro envolvendo o governo.

No PT, a eventual absolvição do ex-ministro seria um terremoto político, com o primeiro impacto sentido já no 3º Congresso do partido, no final do mês. Para dirigentes ouvidos pela Folha, seria a redenção do Campo Majoritário, a ampla coalizão moderada que

Dirceu formou na década de 90, desgastada desde o mensalão.

Pode-se esperar que o Campo retome o patamar pré-crise de quase 60% do diretório nacional (hoje é de cerca de 45%). Debates sobre a conduta ética ou a ‘refundação’ do PT seriam esquecidos. A vítima imediata seria o ministro Tarso Genro (Justiça), que tenta criar um pólo anti-Dirceu no PT.

Da decisão do STF depende também a volta de um núcleo encolhido há dois anos. José Genoino, João Paulo Cunha, Paulo Rocha e Professor Luizinho foram forçados a ceder espaço à nova geração, composta pelo presidente do partido, Ricardo Berzoini, o líder na Câmara, Luiz Sérgio (RJ), e o vice-líder do governo na Câmara, Henrique Fontana (RS).

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 22/08/2007 rodrigo siqueira

    Aliás, são 37 ou 40? Tá confuso isso.

  2. Comentou em 22/08/2007 rodrigo siqueira

    Caríssimo, pelo bem da precisão, afinal de contas, são 40 ou 37 os acusados? Acho interessante até mesmo uma análise sobre os porquês do arredondamento desse número que, logo quando da deúncia do procurador geral, os jornais cravaram em suas manchetes. E não é que de tão repetido o número quarenta já é reproduzido hoje até por observador de mídia?! abraço, rodrigo.

  3. Comentou em 22/08/2007 José Paulo Badaro

    Posso me enganar redondamente, mas se conheço minimamente o ofício quase nada do que está dito acima acontecerá. O STF deverá acolher a denúncia e dar início ao processo. Não seriam loucos de determinar o arquivamento ou a exclusão deste ou daquele do processo. Embora não liguem para a opinião pública, não conseguirão ficar indiferentes ao clamor público – e a imprensa ávida por sangue que certamente estará presente – público esse que há mais de um ano clama por vingança, tenham ou não tenham culpa os envolvidos, pois para se condenar petistas bastam simples indícios.

    No entanto, o problema nem é o recebimento da denúncia, mas a impressão ou gosto de vitória e condenação que restará para a grande mídia e respectivo público alvo. A Globo, a Veja, o Estadão e a Folha terão orgasmos múltiplos a troco de nada, pois o recebimento da denúncia apenas marca o início de um processo cujo fim provavelmente muitos dos que estão aqui não irão ver, aliás, nem mesmo a maior parte dos 40 chegará a ver o fim, já que antes a prescrição, e em alguns casos a própria morte, falarão mais alto

  4. Comentou em 21/08/2007 Alfredo Valadares

    Ora […] não interessa se foi gente do partido A ou B que participou dessas falcatruas. Isso não diminui em nada a culpa dos que pertençam ao […] partido […] que aliás sempre bradou ser ‘diferente’). É o sujo falando do mal lavado. Pior é quem tenta diminuir a sujeira de hoje lembrando da lama do passado. Continuam sujos do mesmo jeito.

  5. Comentou em 20/08/2007 Marnei Fernando

    Abobrinhas, suposições, achismos… é só isto que ^sobrou em seu potencial jornalístico weis? A proximidade com o dines e o malin estão diminuindo seu poder de raciocínio…

  6. Comentou em 20/08/2007 Ivan Moraes

    ‘Alias, o Supremo deveria devolver ao menos os direitos politicos de Dirceu’: procure no google os nomes ‘Capiberibe carta’ pra saber quem manda em tribunais, economia, industria, e politica brasileiras.

  7. Comentou em 20/08/2007 Ivan Moraes

    ‘processo não deve estar concluído até 2010, fim do mandato de Lula’: NOSSA SENHORA DO SOCORRO!!! QUE COINCIDENCIA!!! EH ANO DE ELEICAO!!! Perfeito pra condenar petistas. Mesmo assim a direita vai levar uma surra epica. Principalmente porque a economia vai desabar antes: o dinheiro brasileiro deve desaparecer.

  8. Comentou em 20/08/2007 Cid Elias

    O Weis, o Malin e o Dines, têm uma certa ‘amnésia’ em relação a nomes…vamos ajudar o Sr Weis, lembrando-o de fatos, opostos às meias-verdades do artigo acima:1=’Por que pagar ‘mensalão’ ao Roberto Brant-PFL, opositor ferrenho do governo? Brant recebeu dinheiro do valerioduto, mas disse’Como posso ser chamado de mensaleiro’?Para comprovar a farsa,O GLOBO, na primeira página, publicou assim a absolvição de Brant:’Câmara absolve pefelista do mensalão’. A Folha noticiou em manchete também de primeira página:’Câmara absolve 2 do ‘mensalão’. 2=O Globo(26/08/06)-Laudo recém-concluído pelo Instituto Nacional de Criminalística comprova que Danilo de Castro(secretário de governo/Aécio-psdb) foi avalista de um empréstimo de R$ 707 mil que a SMP&B, uma das agências de Valério, fez Rural no dia 25/11/2004. O laudo diz ainda que o empréstimo foi pago pela DNA. O empréstimo foi avalizado também pelo presidente da Assembléia Legislativa-MG, dep. Mauri Torres(PSDB-MG). Neste período, a SMP&B detinha um contrato de R$ 10 milhões com a Assembléia mineira.Pelo menos 70 candidatos da campanha de Azeredo em 1998 receberam recursos paralelos da SMP&B <>3=Mensalão-Azeredo recebeu mais de R$ 30 milhões do mensalão, seu vice ,tb de Aécio, Clésio Andrade era sócio deValério na época destas operações ilegais. Quatro secretários do Aécio receberam dinheiro da SMPB. Todos do PSDB, ninguém foi denunciado.’

  9. Comentou em 20/08/2007 Marco Antônio Marco Antônio

    Com toda a certeza deste mundo, o Zé-Dirceu será absolvido com louvor pelo Supremo Tribunal Federal, com direito há voltar a política de imediato, quem sairá perdendo como isso é o conhecido e fragilizado politicamente zé-povinho, aquele que não tem voz e muito menos direito para agir contra os mandos e desmandos desse governo e sua turma, que estão fazendo do Brasil a casa da mãe JOANA. Eles lá em cima são velhos companheiros de jornada, Executivo, Legislativo e Judiciário são irmãos gêmeos a cara de um, a face do outro, ou seja, igualzinhos em tudo, cujo trio de manos se entendem perfeitamente. Ademais, são filhos dos mesmos pais, os famosos jeitinho brasileiro.

  10. Comentou em 20/08/2007 fausto lessa

    Nao ha base juridica nenhuma para sequer indiciar Dirceu. Estou falando como advogado. Se Dirceu nao for absolvido, este pais tera dado um passo perigoso, no que tange o estado de direito. Nao se pode processar pessoas na Suprema Corte apenas para satisfezer meia duzia de donos de jornais e dois ou tres partidos politicos. Alias, o Supremo deveria devolver ao menos os direitos politicos de Dirceu. Se nao devolver, sera por razoes politicas. E quando a Justica age por razoes politicas, todos estamos ameacados.

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