Sexta-feira, 25 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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As ameaças da agroenergia segundo os leitores

Por Bruno Blecher em 28/07/2006 | comentários

Comentários sobre o crescimento da agroenergia no Brasil e no mundo receberam críticas, uma delas ácida, de leitores. Odracir Silva, de São Paulo, reclama que este blogueiro “só pega os clippings de vários lugares e posta aqui’’. E me recomendou uma pesquisa mais séria para verificar se estas fontes de energia são auto-sustentáveis. Segundo ele, o engenheiro Gurgel já alertava no começo do PróAlcool que o programa tinha um déficit de energia. “Até agora ninguém discordou dele’’.


O objetivo deste blog, meu caro Odracir, é justamente o de comentar artigos e análises publicadas pela imprensa (nacional e internacional) sobre o agronegócio. Tenho, portanto, que citar textos publicados na mídia. Sou jornalista e não pesquisador, e embora esteja há 25 anos trabalhando nas áreas de agropecuária, economia e meio ambiente, não tenho a pretensão de “esgotar” ou dar a palavra final sobre nenhum assunto, muito menos sobre os impactos da agropecuária sobre o ambiente e suas relações de sustentabilidade. Questões complexas e polêmicas, por sinal.


Vinte anos atrás, publiquei no Suplemento Agrícola de O Estado de São Paulo várias reportagens denunciando os impactos da expansão da cana em São Paulo, como o aumento da poluição do ar provocado pelas queimadas e a contaminação da água pelo vinhoto. Mas, é preciso reconhecer que de lá para cá as coisas mudaram muito no setor sucro-alcooleiro. Por vários motivos: o crescimento e a forte pressão dos movimentos ambientalistas, as mudanças na legislação ambiental e pelo fato de as próprias usinas, notadamente as de São Paulo, descobrirem as vantagens de utilizar subprodutos como o bagaço e o vinhoto no processo de produção.


Como não sou especialista na área, cito alguns dados do professor José Goldemberg, secretário estadual de Meio Ambiente de São Paulo, em recente entrevista à revista Agroanalysis, da FGV.



1 – Hoje a indústria de etanol é relativamente limpa;


2 – O álcool é um excelente combustível para os motores de ciclo Otto, como os fabricados aqui no Brasil. Ele produz mais tração que a gasolina;


3 – Nos últimos 20 anos, o custo de produção de álcool caiu 3% ao ano no Brasil. É um grande sucesso do ponto de vista econômico. É um programa estratégico para o país, porque reduziu a dependência das importações.


4 – Nos últimos cinco anos, houve uma melhoria efetiva da qualidade do ar em São Paulo. O programa do álcool é um sucesso econômico e ambiental.


5 – O grande problema hoje é saber para onde a cultura da cana vai se expandir. Se ela crescer muito, corre-se o risco de as plantações invadirem áreas ecologicamente inapropriadas, como aconteceu no Pantanal.


Caixa-Preta


O meu amigo e colega Tobias Ferraz, jornalista de Uberaba (MG), também cita Gurgel. “Nas décadas de 1980 e 1990, ele dizia que a conta energética do álcool não fechava porque tinha que usar diesel nos caminhões e tratores das roças de cana, o que ocorre até os dias de hoje. A questão da vinhaça, diz Tobias, vai ser a próxima barreira ao nosso álcool. São milhões de litros de vinhaça produzidos diariamente por uma destilaria.’’


É verdade, Tobias, embora líder mundial da produção de álcool combustível, o Brasil ainda não utiliza combustível limpo e renovável no processo de produção. Na época de safra, as usinas paulistas chegam a consumir entre 15 mil e 25 mil litros de diesel por dia nos canaviais. Há vários projetos, porém, desenvolvidos por grandes indústrias de máquinas agrícolas, para a utilização de biodiesel em tratores e colheitadeiras.


Luiz Antonio Barros da Silva, engenheiro agrônomo, destaca o “vasto passivo ambiental deixado na zona da mata mineira, onde o cultivo da cana não respeitou as leis florestais, comprometendo a função ambiental dessas áreas de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade, o fluxo gênico de fauna e flora. Inclusive, vários municípios dessa região (Ubá, Rodeiro, Visconde de Rio Branco) sofrem com escassez de água nos períodos secos do ano, existem graves problemas de erosão, principalmente, na bacia do rio Ubá, em função do uso inadequado do solo por esta atividade. Portanto, devemos refletir profundamente sobre os prós e contras do desenvolvimento dessa atividade.’’


De fato, Luiz Antonio, a expansão da cana não traz apenas oportunidades, como também ameaças. É preciso ter uma legislação ambiental rigorosa não apenas para as usinas e destilarias, para qualquer atividade agrícola ou industrial. E não apenas isto: uma fiscalização constante dos órgãos públicos e da própria sociedade.

Todos os comentários

  1. Comentou em 01/08/2006 Othon Silva

    Caro Bruno,
    Sua previsão de 20 anos atrás está mais certa do que a visão do Sr. Goldemberg, que, pelo seu histórico, se aventura a ocupar cargos para os quais não está totalmente capacitado: o lobby das usinas conseguiu adiar para 2031(!) o fim das queimadas, embora tenhamos tecnologia capaza de suprimi-las. As razões são meramente financeiras e a qualidade do ar no interior (principalmente em Piracicaba) se iguala a de uma cidade como São Paulo, exclusivamente em função das queimadas que lançam enorme quantidade de material particulado na atmosfera – basta checar o aumento dos números de atendimentos a crianças e idosos com problemas respiratórios durante a época de queimada. Não compre informação confiando somente na fonte!
    Um abraço

  2. Comentou em 28/07/2006 Odracir Silva

    Caro Bruno… soo peguei um pouco pesado pq nao tava tendo muito feed back, na boa… C/ relacao ao post, o fisico Jose Goldemberg (acho q ele ee especializado em energia nuclear) nao negou q a producao de alcool tem um deficit de energia. Ele disse q ee economicamente viavel… o q ee uma grande diferenca. Ee um pouco parecida c/ o cultivo da soja. Ee rentavel, porem nao ee sustentavel do ponto de vista ecologico. A terra q jaa nao era muito rica fica mais pobre em nutrientes (principalmente na Amazonia). O fato de q haa a necessidade de grandes qtdades de insumos agricolas como fertilizantes e inseticidas ee a prova.

  3. Comentou em 28/07/2006 LUIZ ANTONIO BARROS DA SILVA

    Caro Bruno,

    Gostei da sua iniciativa, pois nos permite debater mais sobre o assunto. Na verdade quando escrevi meu comentário era no intuito de criar um espaço para o debate e não te criticar. Concordo com você em alguns aspectos, realmente, todas as atividades potencialmente poluidoras devem ser fiscalizadas tanto pelos órgãos competentes quanto pela sociedade. Em relação a legislação ambiental ,temos é que aplicá-la nada mais. Todavia, antes de mais nada o empreendedor tem que ser responsável e não esperar que apontem para seus erros. temos que parar com esse paternalismo, que traz um custo elevado ao país. Daqui a pouco teremos o fiscal do fiscal…
    Agora, não posso concordar com algumas afirmativas. Por exemplo, afirmar que a produção de álcool é relativamente limpa é uma inverdade. Gostaria de saber o que o senhor secretário quiz dizer com isso??? o que é uma atividade potencialmente poluidora (e põe potencial aí), realtivamente limpa??? Desculpe-me, mas me parece que essa afirmativa só serve para enganar a opinião pública e beneficiar alguns que ao longo desses 20 anos, vem sendo financiado com o dinheiro público. Acredito que devemos ter mais cuidado com a utilização de alguns conceitos para informarmos adequadamente a sociedade.

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