Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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As consequências políticas do terremoto chileno

Por Carlos Castilho em 03/03/2010 | comentários

O país ainda tenta se recuperar do trauma humano e econômico causado pelo terremoto do dia 27/2 , quando já começam a aparecer os sinais de que a tragédia também passou a ser um fato político da maior relevância.


 


A imprensa brasileira e também mundial carregou nas tintas na cobertura da presença do exército chileno nas ruas das principais cidades atingidas pelo terremoto, Foto da AP publicada pelo Diario Catarinensenuma ação que marca a primeira grande intervenção dos militares na vida do país desde o fim formal da ditadura do general Augusto Pinochet, em 1990.


 


Esta nova saída dos quartéis não tem objetivos diretamente políticos como aconteceu no golpe de 1973, mas as forças armadas chilenas ganharam uma janela de visibilidade criada por uma tragédia nacional, onde o seu papel de mantenedora da ordem foi mais uma vez colocado em primeiro lugar.


 


A ocorrência de saques a lojas e supermercados danificados pelo tremor criou na população e, em especial, entre os comerciantes, o clamor por segurança, o quer criou o contexto favorável à presença militar, com imagens que não deixam dúvidas sobre  o rigor da intervenção.


 


Isto tudo poucas semanas depois de uma eleição presidencial que marcou a volta de um candidato conservador ao palácio de La Moneda. O direitista light Sebastián Piñeira vai agora herdar um país devastado, depois do Chile ser considerado durante décadas como um caso de sucesso em matéria de políticas econômicas neoliberais.


 


As dificuldades do novo presidente serão enormes e ele vai necessitar de muito apoio para enfrentar a recuperação dos danos causados pelo terremoto, após a sua posse no dia 11 de março. Apoio que os militares já se apressaram a dar, preenchendo o vácuo deixado pelo colapso das estruturas administrativas e de segurança público nas regiões mais atingidas, ao sul de Santiago.


 


Tudo isto cria um contexto onde Piñeira não terá muita margem de manobra para burilar sua imagem de conservador light porque o trauma do terremoto exigirá soluções traumáticas e enérgicas, justamente dois adjetivos que a direita chilena cultivou ao longo dos quase 20 anos da ditadura Pinochet.


 

É importante abrir o foco da análise e ver que o pêndulo da política latino-americana está outra vêz movendo-se em direção ao centro e à direita, após um período onde a chamada esquerda deu as cartas. A votação de Piñeira no Chile não foi propriamente uma vitória dos partidos que o apoiaram, mas uma derrota da Concertação Democrática, que governou o país nos últimos 20 anos e cuja imagem estava muito desgastada junto a opinião pública. 

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/03/2010 Ney José Pereira

    O Chile merece (todos os países merecem) a assistência humanitária. O Brasil deve mesmo dar assistência humanitária ao Chile. Mas, diferentemente do Haiti, o Chile tem recursos (econômicos e financeiros) para financiar a sua reconstrução. Aqui no Brasil ainda estamos utilizando ‘equipamentos’ (obsoletos) do pós-Segunda Guerra que foram doados ao Brasil pelos Estados Unidos no tempo da ‘Aliança Para o Progresso’. Basta verificar os ‘equipamentos’ e os materiais e a própria (técnica) de mão de obra utilizados nos ‘consertos dos asfaltos’ dos lagradouros públicos (carroçáveis) deste país!. Observação: Bem que o Brasil também ajudasse o próprio Brasil a ser reconstruído!. PS: O avião presidencial para as viagens de ‘supervisão’ das obras (da reconstrução) nós (o Brasil) já temos!.

  2. Comentou em 05/03/2010 Alceu C. Gonçalves

    Precisou uma tragédia como o terremoto para expor a fragilidade chilena, sua desorganização e reprimida revolta popular. O terremoto do Haiti foi inúmeras vezes mais devastador, no entanto, é no Chile que vemos uma população desprotegida e faminta, coisa inaceitável num país exemplo do ‘sucesso’ neoliberal, agir de maneira selvagem e descontrolada. Porém, somente o fato de ter sido somente o Chile, em toda a América do Sul, a repudiar o Mercosul e se aliar à alca, já é sugestivo da engabelação que era a tal super economia do país latino americana.

    AlceuCG.

  3. Comentou em 04/03/2010 Ibsen Marques

    É uma coisa a se pensar. Hoje mesmo vi num dos jornais da Globo uma chilena aos prantos afirmando que o exército demorou demais a agir e deixou o povo durante um tempo muito grande a mercê dos saqueadores. Segundo ela isso foi ainda pior que o terremoto. Será que Hobbes estava certo ao dizer que no ‘estado de natureza’ o homem vive o caos numa guerra de todos contra todos e que nesses casos o melhor é formalizar um contrato sicial abdicando de sua liberdade em favor de assegurar a própria vida? Claro que não, mas vendo a cena de desespero da entrevistada o Leviatã me veio imediatamente ao pensamento. O partido governista não soube utilizar a aprovação positiva do governo Bachelet e lançou candidato Eduardo Frei um político já desgastado. Aliás, o próprio partido está caindo pelas tabelas.

  4. Comentou em 04/03/2010 Marcelo Silvestre

    Acho excelente o fato da AL não seguir uma ideologia radical. O povo
    latino-americano não se intimida em alternar governos de direita e
    esquerda, oferecendo chances a ambos os lados. O governo de direita
    não foi bom? Troca pra esquerda. O de esquerda não foi bom? Troca
    de volta pra direita. Isso é ótimo, por que impõe uma certa
    rotatividade, como os brasileiros estão fazendo com o PT e o PSDB.
    Também mostra aos governantes que o povo está de olho, e eles
    serão cobrados. O maior medo da esquerda e da direita é perder o
    governo do páis para o outro lado, e é isso mesmo o que o povo faz.
    Agora temos que estar atentos a governos que não aceitam a perda
    do poder e impendem essa rotatividade natural, como Hugo Chávez, a
    direita Hondurenha, Cuba e o Álvaro Uribe.

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