Quarta-feira, 26 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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As conversas ‘de pai para filho’

Por Luiz Weis em 10/02/2009 | comentários

Com a saída de cena – ou pelo menos do proscenio – do castelão Edmar Moreira, fica desimpedido o caminho para a imprensa pôr no devido lugar, na cabeça do noticiário político, o(s) caso(s) do presidente do Senado, José Sarney.

Eis um personagem incomparavelmente mais importante, com histórias incomparavelmente mais sérias, que o deputado do pefelê mineiro que entrou para a crônica dos costumes políticos nacionais menos, talvez, por sua folha corrida, do que por se confessar portador do “vício insanável da amizade” na atividade parlamentar.

No sábado, 7, cinco dias depois de se eleger pela terceira vez em 14 anos para o comando do Senado, Sarney apareceu numa matéria exclusiva do repórter Felipe Recondo, do Estado, no papel de interlocutor de uma conversa telefônica de abril do ano passado. Do outro lado da linha, o seu filho Fernando, conhecido homem de negócios do Maranhão, cujos telefonemas a Polícia Federal vinha gravando com autorização da Justiça na Operação Boi Barrica.

Contra Fernando corria em sigilo na Primeira Vara Criminal de São Luís um processo em que ele figura como suspeito de fazer, por intermédio de uma de suas empresas, uma doação ilegal milionária no segundo turno da eleição maranhense de 2006. [As investigações da PF sobre as movimentações do clã Sarney vão além disso.]

Na conversa vazada para o repórter do Estadão, Sarney père et filstrocam figurinhas sobre o assunto. Às folhas tantas, depois que o primeiro diz ao outro que não tinha novidade sobre a existência do tal processo – “aquele meu negócio”, nas palavras de Fernando –, este informa que já teve notícia a respeito “do Banco da Amazônia”.

Ao que o pai responde de primeira: “É, né. Da Abin?” E ouve do filho: “Também.”

O resto é o resto.

Do telefonema não dá para deduzir se a Agência Brasileira de Inteligência teve a iniciativa de bisbilhotar um “negócio” de interesse dos Sarney para alertar o filho do homem de que algo se armava contra ele na Justiça, ou se foi um deles que pediu ao serviço que desse uma espionada no caso, no que teria sido prontamente atendido.

Não estivesse o recém-eleito 2º vice-presidente da Câmara, Edmar Moreira, escarrapachado no espaço nobre das páginas políticas, a história seria a principal do setor naquele sábado. Não só por causa da suspeita de que a Abin aprontou novamente, mas pelo provável exemplo de privatização de uma repartição do Estado a que não estaria alheio o grão “dinossauro” da política nacional, como a edição desta semana da revista britânica Economist se refere ao tetrapresidente (uma vez da República, três do Senado).

A leitura dos jornais de domingo foi, a esse respeito, agridoce. O Estado saiu com uma suite morna – “Caso Sarney deve ativar tese de controle externo da Abin –“, numa página dominada por texto e foto do escândalo do “dono de castelo”. [Os colegas, em geral, parecem achar que “castelão” quer dizer apenas castelo grande, quando quer dizer também dono de castelo.]

Mas de onde menos se esperava – da Folha, cujos laços insanáveis de amizade com o seu colunista cativo José Sarney são arquiconhecidos –, veio a revelação, obtida do mesmo grampo pelos repórteres Leonardo Souza e Felipe Seligman, de que “Sarney usou jornal e TV” para atacar a tchurma do desafeto da família, o governador Jackson Lago [que derrotou Roseana, a senadora filha do cacique maranhense, na eleição de 2006].

Os jornalistas Luiz Antonio Magalhães, já no domingo, Alberto Dines e Luciano Martins Costa, no dia seguinte, escreveram no Observatório da Imprensa o suficiente sobre a cena de coronelismo eletrônico explícito captada pelo grampo da Polícia Federal no telefone de Fernando Sarney – e a afinal surpreendente decisão da Folha de dar a matéria.

Mas e de agora em diante? Por ser quem é o patriarca da família Sarney e pelo conjunto da obra, como diriam os seus inimigos, a imprensa tem uma pauta “natural” para encarar. Amostra disso é a matéria “PF suspeita que esquema atuou no governo Roseana”, no Estado da segunda-feira, também do repórter Felipe Recondo, falando em possível “lavagem de dinheiro, fraude em licitação e desvio de recursos públicos” no período em que a senadora esteve no poder no Maranhão, entre 1998 e 2002.

Com perdão pela platitude, quanto mais espaçoso o figurão, maior a obrigação da mídia de revolver o comportamento dele e dos seus.

Esta semana, por sinal, o Maranhão estará na ordem do dia. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deve terminar o julgamento do processo de cassação do governador Jackson Lago, iniciado em fins de 2008. Se a maioria votar com o relator Eros Grau, ele será destituído – e substituído pela senadora Roseana Sarney.

Uma história e tanto – que começa, mas evidentemente não termina no Maranhão

Mas o leitor que não corra a apostar o seu último centavo na dispoisção da mídia em aprofundar o seu olhar até aqui de relance no reino encantado dos Sarney. Nesta terça-feira, os espaços são para o velho oligarca minimizar o grampo do Estado a uma simples conversa ‘de pai para filho, que não tem absolutamente nada’. Abin? ‘Não me lembro de ter falado em Abin.’

Ele ainda se deu ares de estranhar a publicação das reportagens na semana em que voltou a presidir o Senado. Já no papel de crítico de mídia, disse que a matéria da Economist que chamou a sua eleição de ‘vitória do semifeudalismo’ era ‘ruim para ela’, por ter sido ‘de agressão pessoal, inclusive com muitas inverdades e até factuais’.

E ficou rigorosamente por isso mesmo. A imprensa conhece os seus limites.

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