Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

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As distorções do jornalismo político em período eleitoral

Por Carlos Castilho em 24/02/2014 | comentários

Muitos podem ainda não ter percebido, mas já estamos em campanha eleitoral para a sucessão presidencial no segundo semestre. Tudo o que é feito em Brasília e nas principais capitais do país está orientado por estratégias partidárias de comunicação cuja única meta é criar contextos informativos favoráveis aos respectivos presidenciáveis.

Este é o universo onde atuam os jornalistas que cobrem temas políticos e cuja função sofreu uma mudança radical em consequência da profissionalização da política, um eufemismo para expressar a transformação da política num negócio rentável. A distorção do papel da política na sociedade não é responsabilidade dos jornalistas, mas sim a forma como o processo é apresentado ao público.

O chamado jornalismo político transformou o leitor, ouvinte, telespectador ou internauta numa espécie de cobaia para os políticos, conforme assinala o professor de jornalismo da Universidade Municipal de Nova York (CUNY) Jay Rosen, no seu blog PressThink. A política deixou de ser tratada como notícia de interesse do eleitor para se tornar uma peça publicitária dos candidatos.

A concorrência entre veículos de comunicação e o desejo dos candidatos de manipular o noticiário acabaram fazendo com que o jornalismo político se transformasse num jogo de especialistas, voltado para detalhes das estratégias eleitorais. Neste xadrez sutil onde é quase impossível identificar os objetivos reais, os jornalistas políticos viraram uma casta de detentores de informações confidenciais (insiders).

Isso lhes deu um papel estratégico na cobertura eleitoral, numa função que o sociólogo Max Weber, o pai da moderna ciência política, definiu como viver “da” política em vez de “para”. Em vez de produzir informações para que as pessoas possam tomar decisões de acordo com seus interesses e necessidades, o jornalismo político transformou a atividade partidária num fim em si, numa espécie de ganha pão ou precondição para empregos públicos.

O bilhete de entrada no clube dos que estão por “dentro das coisas na política” é a posse de algum tipo de informação confidencial. Quem tem esta informação tem um capital que pode ser negociado com outros detentores de informações confidenciais. A partir de um determinado ponto, não interessa mais o conteúdo das informações e sim a sua troca. O jornalista bem sucedido é aquele que consegue fazer as melhores trocas em transações das quais participam outros jornalistas, candidatos e a controvertida figura dos spin doctors (jargão inglês para denominar os especialistas em distorcer contextos em favor de um candidato).

Esta distorção do noticiário político virou uma norma consciente e inconsciente nas redações, convertendo-se num dos fatores que contribuem para que o público se mostre cada vez mais desinteressado na cobertura eleitoral. Repórteres, editores e comentaristas passaram a dedicar uma atenção quase obsessiva ao jogo interno de interesses dentro dos partidos e grupos de pressão. O público se tornou voyeur de um espetáculo, muitas vezes pouco recomendável para menores de 18 anos, ao mesmo tempo em que os profissionais, deliberadamente ou não, tornaram-se peças do jogo que deveriam cobrir.

Além de isolar o eleitor da política ao transformá-la num jogo de cartas marcadas, os insiders geraram outra distorção informativa. Como passaram a viver num ambiente noticioso onde é difícil distinguir o falso do verdadeiro, o real do fictício, eles adotaram o cinismo como uma espécie de autodefesa contra acusações de cumplicidade com interesses eleitoreiros.

O cinismo se somou ao elitismo do jogo de informações privilegiadas para aumentar a indiferença e desconfiança do leitor, ouvinte, telespectador e internauta em relação ao noticiário eleitoral. Perdem o sistema político e principalmente as empresas de comunicação, porque aumenta o fosso que separa eleitos de eleitores, num momento em que a urgência de reformas sociais, econômicas e administrativas exige um diálogo intenso entre ambos.

Seduzida pelo jogo do poder, a imprensa perde de vista que o seu negócio depende hoje mais de leitores do que de políticos. 

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