Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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As duas caras da crise na imprensa

Por Carlos Castilho em 20/05/2009 | comentários

A crise na imprensa já está no cardápio de temas discutidos pela opinião pública, mas para que a discussão não acabe num beco sem saída é necessário separar as dificuldades financeiras das indústrias da comunicação dos dilemas causados pela internet no exercício do ofício jornalístico.


 


São duas crises de natureza distinta. Os jornais estão à procura de um novo modelo de negócios capaz de recuperar a rentabilidade perdida em conseqüência das mudanças no comportamento tanto de leitores como de anunciantes. O modelo vigente sucumbiu ao efeito das inovações tecnológicas e as empresas têm se mostrado lentas e incapazes de criar soluções novas.


 


Já o ofício jornalístico está diante do dilema de reinventar-se para enfrentar a nova realidade em que milhões de pessoas sem formação técnica já exercem hoje a atividade de coleta e publicação de notícias por meio de ferramentas como os blogs.


 


Até agora os profissionais do jornalismo tinham a quase exclusividade na produção de notícias porque os veículos de comunicação eram limitados e concentrados. Para chegar à opinião pública era necessário passar pelo filtro da imprensa, que criava a agenda de debates da sociedade.


 


Hoje o jornalista profissional perdeu esta exclusividade, o que desorientou a maior parte dos integrantes da categoria. Os profissionais passaram a ser patrulhados pelo público, mostram-se confusos diante da avalancha informativa gerada pela web, pela frenética produção de novas ferramentas informativas e, principalmente, pela crescente presença de pessoas sem formação técnica que passam a influenciar a agenda pública usando blogs, microblogs (Twitter), redes sociais (Facebook e Orkut) e imagens (YouTube).


 


A exclusividade na produção de notícias por conta do exíguo número de veículos de comunicação criou uma forte dependência entre os jornalistas profissionais e os donos de empresas. Um precisava do outro para sobreviver e com isso o discurso de ambos acabou se confundindo a ponto de hoje muitos não conseguirem mais separar conceitos como liberdade de empresa e liberdade de informação.


 


Mas para o bem tanto de jornalistas como de empresários — e principalmente do público consumidor de informações — é necessário separar os dois processos porque eles têm métodos, objetivos e agentes totalmente diferentes. A questão dos jornais não é um problema de informação, mas sim de gestão de um negócio. O problema está no âmbito administrativo e financeiro. É uma questão corporativa que interessa aos investidores e donos de empresas.


 


Já a crise do jornalismo tem a ver com a nova ecologia informativa contemporânea, marcada pela mudança do contexto nas relações entre profissionais e o público. Antes, esta relação era vertical e centralizada; hoje, ela está se transformando numa heterarquia (descentralizada e horizontal). O público era passivo, hoje tornou-se proativo. A notícia deixou de ser um produto para transformar-se num processo. Deixou de ser o resultado do trabalho de poucos para ser uma conseqüência da interação de centenas e até milhares de pessoas.


 


Surge uma nova narrativa jornalística produto da interatividade na web. Mudam os critérios de avaliação de credibilidade. A complexidade informativa mostra cada vez mais a sua cara. O erro deixa de ser incriminador para tornar-se uma precondição para o acerto. E nós, os profissionais do jornalismo, verificamos que já não podemos mais dar conta sozinhos do ofício de levar notícias ao público consumidor de informações.


 


É importante, sim, discutir a crise dos jornais porque se trata de um veículo de comunicação que ainda tem um papel a desempenhar. Mas os jornalistas devem agora dedicar mais atenção aos problemas de sua atividade. Vê-los no seu contexto específico porque isto é essencial para a sociedade desenvolver uma nova relação com os produtores de informação, profissionais ou não.


 


Enquanto os jornalistas desconfiarem do público, a colaboração entre produtores e consumidores de informação ficará obstruída. E esta colaboração passou a ser essencial para o novo processo de geração de conhecimentos, sem os quais é impossível a manutenção do processo de inovação constante, a base da nova economia digital.

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/05/2009 Marco Antônio Leite

    Duplo caráter significa que só um caráter para quem não tem caráter é muito pouco. Então vejamos, caráter UM diz respeito ao mau caráter, caráter DOIS esta relacionado com o caráter UM. Portanto, os DOIS caracteres são mato do mesmo pasto. Muitos políticos não têm somente DOIS caracteres, são muitos os caracteres desses vermes, o UM é de prometer e não cumprir, o DOIS é sofismar para angariar simpatias e conseqüentemente VOTOS. Já o TRÊS é ser corrupto, o QUATRO é roubar cofres públicos, quanto o CINCO esta relacionado com o desvio de verbas públicas entre outros caracteres. Essa carapuça serve certinha na cabeça do Zé Pedágio, o rei do sem-caráter, nesse trilho da Maria-Fumaça do atraso político incluímos PSDB e DEM, bem como, o famigerado FHC.

  2. Comentou em 22/05/2009 Ibsen Marques

    Castilho, você inicia colocando dois problemas chave que precisam ser diferenciados: Gestão financeira e influências da Web. Realmente são problemas distintos, mas me parece que a solução do segundo problema (que ao meu ver é o primeiro)deve alavancar uma solução atraente à questão financeira. Afinal, onde não há leitor não há anunciante. Os desdobramentos de ambos são um caso muito sério. Criou-se uma cumplicidade empresário de comunicação/jornalista que, em muitos casos (a Globo não é exclusiva nisso, mas é um grande exemplo) parece criar a unificação da opinião de ambos. O grande desafio do jornalista está em lidar com essa magnífica ferramenta da qual hoje dispomos, para extrair uma nova posição diante da informação e da notícia e, ao mesmo tempo e consequentemente, fazer as pazes com o leitor. É preciso que o jornalista, no jargão popular, limpe sua barra e se desvincule de forma mais clara e contundente da relação promíscua que se estabeleceu entre meios de comunicação e ‘mercado’ ou meios de comunicação e anunciante ou ainda meios de comunicação e detentores de informação privilegiada. É, sem dúvida, um grande momento e uma ótima oportunidade e cabe a nós leitores proagirmos positivamente ao novo que se propõe para que vocês, jornalistas, deixem de pisar em ovos e compreendam mais claramente os novos caminhos e necessidades que se descortinam. Nós leitores agradeceremos.

  3. Comentou em 21/05/2009 Olímpio Cruz Neto

    Castilho, Bela análise sobre os desafios da mídia. Tenho feito ponderações sobre esse novo contexto para a imprensa. Caso seja de seu interesse: http://olicruz.wordpress.com/2009/05/08/imprensa-crise-e-credibilidade/

  4. Comentou em 21/05/2009 Danae Rizzo

    Como estudante de jornalismo, concordo que há uma confusão gerada pelo excesso de informação na web… Prezo muito pela qualidade textual e percebo que a internet tem duas caras: certamente é o maior avanço tecnológico em expansão, mas é ainda um processo moderno de difícil dimensionamento, que acompanha a imensidão do dia-a-dia de cada pessoa que tem acesso a rede. Onde é que vai dar? Estava a procura de uma reflexão que esse texto gerou. Espero novos apontamentos. Obrigada!!

  5. Comentou em 21/05/2009 LIAN ROBSON gadelha

    na época da ditadura,eu trabalhava num meio de comunicação.Lá,afixado nos flanelográfos;Não falar disso;não comentar isso.Outro dia conversando com um amigo que não há tempos,ele me relatava que tinha saído de determinado jornal.dizia-me;olha é uma ditadura esse jornalismo brasileiro,principalmente os privados;tem tendência política;dinheiro de emprresário.E o pior,existem dentro dos jornais e outros meios da mídia,jornalistas pagos por empresários para controlar as noticías,tudo é uma sujeira.Eu,percebo,o obvío,nos noticiários,sempre reconfortando a população,e resefriando os ânimos,quer sejam por assasinatos brutais ou por situações econômicas dxesesperadoras.Assim funnciona o terceiro setor,anulando qualquer reação ou organização de mudança ou como queiram;revolucionária.Mas ,vou citar José Marti,grande herói revolucionário cubano na luta contra os espanhóis;NÃO EXISTEM POVOS MANSOS APENAS ENGANADO

  6. Comentou em 21/05/2009 Jesus Baccaro

    E eu digo: ainda bem que tal crise ocorre. Tantao para o jornalismo como negócio como para aprofissão de jornalista. O que vemos são empresas que matam a própria mãe para vender mais, não se importando se com mentiras ou não. É a tal coisa de testar hipóteses e se a pior vender mais mesmo sendo mentira, tanto faz. E a profissão está cada vez mais aviltada, porque não temos mais jornalistas sérios, que batam de frente com seus patrões e defendam a verdade factual das coisas que são publicadas. O Patrão manda e o jornalista obedece sem pestanejar. Se tiver que ajudar o chefe a matar a mãe ou a reputação de alguém, não tem problema, vamos pra cima e tome assassinato de reputação, mentiras e rasteiras.

  7. Comentou em 21/05/2009 Rodrigo Saraceno

    Carlos Castilho, finalmente alguém tecve o discernimento de trazer essa diferenciação: crises dos jornais como modelo de negócio e a crise do jornalismo como profissão.

  8. Comentou em 21/05/2009 Ronald Facury Wigg Wigg

    Creio eu, que a imprensa escrita sempre terá um grande espaço junto ao público leitor. No entanto esse novo público tornar-se-a cada vez mais exigente com a verdade, pois terá acesso a mesma informação de outras fontes. Apesar de não ser do jeito que ele deseja, sentado no sofá, tomando uma cervejinha e lendo seu jornal, esta virá automaticamente ao se abrir diariamente sua porta para o mundo virtual. A cada dia o público esclarecido torna-se maisexigente, o público pouco esclarecido, torna-se mais esclarecido, e o público sem interesses de esclarecimento, terá inevitavelmente maior conhecimento do que acontece. Esse último público, continuará por um bom tempo ser ainda a grande massa usada pela grande imprensa, com seus poucos proprietários.
    A profissão do Jornalista, só tem a ganhar com essa mudança; fato que não será mais o fantoche total do dono do jornal, do momento que esse sabe que, se se distanciar demais da verdade dos fatos, pode perder fatias de público e publicidade.
    A força da imagens televisivas continuarão a manter o desequilibrio entre a ignorância e a capacidade de discernimento de um público mais intelectualizado. Esta sim, é a mais preocupante, fato que o profissional de jornalismo continua um fantoche do dono do jornal, fato que as imagens tem um impacto enorme nas emoções do telespectador, e essas podem ser produzidas ao bel prazer do Diretor, com impacto

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