Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

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As duas grandes tendências no mundo dos negócios jornalísticos

Por Carlos Castilho em 08/10/2010 | comentários


O jornal impresso que as pessoas recebem de manhã na porta de casa já quase uma relíquia para a grande maioria das indústrias jornalísticas que se transformaram em impérios da comunicação graças às edições em papel.


Contrariando as previsões pessimistas sobre a sobrevivência de grupos como The New York Times, Guardian, O Globo, The Washington Post e The Dallas Morning News , eles hoje passaram a se definir mais como produtores de serviços informativos. O papel e as rotativas já não constam mais do discurso dos principais executivos da indústria dos jornais.


Trata-se de uma mudança importante porque ela trouxe, como consequência, uma extaordinaria diversificação dos canais de informação oferecidos ao público. Ao comemorar 125 anos de existência de seu jornal, há duas semanas, o diretor do diário americano The Dallas Morning News Jim Maroney foi curto e grosso: ‘Nós não somos mais uma empresa de jornais. A edição impressa é apenas um dos nossos produtos’.


Outras indústrias jornalísticas — como o poderoso grupo News Corp., do multimilionário australiano Rupert Murdoch, e Grupo Folha, no Brasil — têm se mostrado mais lentas na transição da cultura do papel para a da segmentação de produtos informativos em plataformas multiplas.


Começam a se esboçar duas tendências: a dos que apostam tudo na multiplicidade de produtos e a dos que colocam suas fichas no nicho da informação impressa de alta qualidade. No primeiro caso estão empresas como o New York Times e o Dallas News , cuja ‘cara’ está hoje muito mais associada aos seus respectivos portais na web do que às primeiras páginas das edições impressas.


Por seu lado, os jornais de Murdoch e a própria Folha de S.Paulo parecem convencidos de que o papel terá vida longa como marca das respectivas empresas, e investem na construção da imagem de provedores de informação qualificada. O grupo News Corp. é hoje o principal defensor do acesso pago à internet, uma estratégia que parece mais preocupada com a valorização dos seus produtos offline do que na rentabilidade dos serviços online.


A reinvenção das empresas jornalisticas mais atentas às transformações provocadas pela emergência da web como canal de comunicação está sendo feita por meio de uma gigantesca operação de mudança de valores entre os encarregados da produção de conteúdos informativos.


O New York Times, por exemplo, criou um sistema de consultas aos seus usuários que os transformou quase em consultores editoriais. Duas vezes ao mês, o jornal envia questionários aos seus usuários na web com perguntas que vão desde consultas sobre a melhor forma de redigir uma notícia, o posicionamentos de editoriais, como cobrir ou não um determinado tema.


O Times está criando também a sua rede social para captura de informações, chamada extra-oficialmente de News.Me (Minhas Notícias). O projeto, que deve ser lançado até o fim do ano, é na verdade uma espécie de Orkut formado por jornalistas amadores, em que os participantes são fornecedores informais de notícias.


A personalização no fornecimento de notícias pela web é uma tendência que vem se consolidando no mercado de informações desde 2008, quando o sistema de buscas Google deu aos leitores do serviço Google News a possibilidade de armarem o seu próprio cardápio informativo.


A oferta de produtos informativos diversificados obriga também as empresas jornalísticas a valorizar muito mais os seus usuários porque eles serão a fonte primordial de notícias, agora não mais produzidas apenas com o material de repórteres, correspondentes ou fornecido por fontes governamentais, corporativas e ONGs.


Jim Maroney, do Dallas Morning News, um veterano jornalista cuja trajetória foi toda ela com base na informação impressa, admitiu numa carta dirigida à Redação: ‘Nós tinhamos um produto só e queriamos que ele servisse a todos os nossos leitores. Nós eramos como Henry Ford, criador da máxima `você pode escolher o carro que quiser, contanto que seja preto´. Agora nós queremos entregar o jornal que você quiser, no formato que você desejar e na hora em que você precisar’.


O projeto News.Me, do NYT, vai ainda mais longe porque incorpora o leitor como produtor de informações. Uma atitude como esta era considerada herética até bem pouco tempo atrás por todos os executivos de indústrias jornalísticas.


Mas toda essa reengenharia corporativa no mundo da imprensa ainda esbarra numa grande dúvida. Como os novos projetos se tornarão sustentáveis no médio e longo prazos, num ambiente informativo onde a grande incógnita é o comportamento do público?

Todos os comentários

  1. Comentou em 14/10/2010 Herman Fulfaro

    Não sou especialista na matéria, mas parece-me que existe uma terceira tendência, a da chamada grande imprensa brasileira, que hoje em dia se resume em vender espaço publicitário, assinaturas de jornais e de revistas para o governo. Não sei bem no resto do país, mas aqui em São Paulo a grande mídia vende praticamente tudo o que fabrica, inclusive livros didáticos, para o governo do estado comandado pelo PSDB/DEM.

  2. Comentou em 14/10/2010 Ibsen Marques

    A questão, me parece é que as informações que circulam são as mesmas, na política, principalmente, nã há idéias novas, é muito ou pouco, mas do mesmo. Teorias socialistas, por exemplo, não circulam nas mídias impressas, exceto, raramente, quando um grande filósofo publica um livro ou morre. Aí sai uma materiazinha de profundidade rasa, normalmente no caderno de cultura, falando sobre a vida e obra do autor. A grande vantagem que teriam a TV e o Jornal escrito é o fato de que você é obrigado a folhear ou ouvir idéias divergentes da sua e isso pode ajudá-lo a mudar de opinião, recompô-la ou simplesmente fortalecê-la. Disse teriam, porque esses meios não oferecem essa diversidade, a opinião e o viés que praticam é unívoco. Já a Internet não possui essa capacidade, porque você sempre acessa o que lhe é de interesse, nunca as opiniões divergentes. Você nunca é obrigado a visualizar, ler ou ouvir uma opinião ou idéia que não lhe seja afim ou não lhe interesse. Procurar a diversidade ainda continua sendo uma opção de muito poucos. Quem anda atráss de informações alternativas ou complementares na Net, são sempre os mesmos. A Net até oferece a diversidade, mas quem tem interesse ?

  3. Comentou em 11/10/2010 Roberto Ribeiro

    Jornalistas profissionais parecem zumbis com cifrões nos olhos. Só sabem dizer: ‘dinheiro, dinheiro, dinheiro… preciso de dinheiro!’

  4. Comentou em 10/10/2010 Regiane Santos

    Ao ler este artigo, questiono: como viabilizar economicamente estas novas plataformas se, na Web, os internautas ainda mantêm a cultura de não pagar pela informação? Possíveis anunciantes estão dispostos a pagar por propagandas na Internet? Afinal, onde fica a qualidade da produção jornalística e, claro, o próprio repórter, se, o principal fornecedor das informações ali veiculadas vieram de colaboradores? A pensar…infelizmente, ainda não encontrei uma resposta coerente ou mesmo plausível!

  5. Comentou em 10/10/2010 Nísio Teixeira

    Muito bom o artigo, resumindo tendências visíveis na indústria de jornais. O que mais me chamou a atenção aqui é a idéia do News.me, que toca em um ponto que discuti algumas vezes dentro e fora da sala de aula: uma espécie de cenário de combinação entre free-lancers jornalistas, que tendo o seu trabalho – e, digamos, o seu blog – editorialmente aceito numa rede como essa, teria um lastro de credibilidade. Aqui, além da incógnita econômica mencionada pelo autor, acrescento outras duas: o tão discutido limite entre, afinal, a quem pertencerá o conteúdo do blog e a formação de um ciclo (virtuoso ou vicioso?): para ser aceito em rede como essa, o blog já não teria que ter atingido por si só, alguma credibilidade? E, se ele assim o faz, por que se associar a um grupo editorial? No caso brasileiro, o diploma surgiria como critério? Essa participação não poderia ser por matérias ao invés, digamos, de uma ‘exclusividade’ total do blog? Caso tenha sido criado diretamente a partir desse ambiente, ele poderia seguir e ter vida própria, uma vez bem-sucedido? Enfim, mais uma vez agradeço o autor por mais aguçar questões que respostas com o artigo – aliás, extensivo aqui a outros textos e a recente programa do OI na TV sobre o tema.

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