Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CÓDIGO ABERTO > Desativado

As perguntas de Marta e o eleitor de Santana

Por Luiz Weis em 13/10/2008 | comentários

Nenhum jornal ousou sugerir, muito menos afirmar, que duas perguntas sobre o candidato Gilberto Kassab, no horário de propaganda de Marta Suplicy, domingo – “Ele é casado? Tem filhos?” – insinuam que o prefeito é gay.


Kassab é solteiro e, ao que se saiba, não é pai.


Quem mais perto chegou de cobrar uma posição da candidata a respeito, deixando implícita essa possibilidade, foi o repórter da Folha que lhe perguntou antes do debate na TV Bandeirantes se tais perguntas não eram contraditórias com a sua biografia.


Segundo o jornal, Marta respondeu, não ficou claro se ofendida ou se fazendo de desentendida: “O que você está querendo insinuar? São direitos de informação que todo mundo tem que ter.”


O direito de saber é o mesmo pretexto da campanha do candidato republicano à Casa Branca, John McCain, para justificar as insinuações, cada vez mais rombudas, de que o adversário democrata, Barack Obama, tem o que esconder [no caso, não as suas preferências sexuais, mas as suas amizades]. Ou, como anda perguntando McCain, “quem é o verdadeiro Barack Obama?”.


Na propaganda de Marta, a pergunta é “será que ele [Kassab] esconde mais coisas?”


Era de esperar que a imprensa trabalhasse melhor o episódio de evidente interesse jornalístico.


Primeiro, porque, diferentemente do que acontece nos Estados Unidos, no Brasil os candidatos costumam respeitar a intimidade familiar uns dos outros, mesmo quando se cobrem de impropérios. A última vez que um político em campanha cometeu em grande estilo a baixeza de usar a vida pessoal do adversário contra ele foi quando Fernando Collor levou ao seu programa a filha de Lula fora do casamento.


Segundo e mais importante, porque Marta é a última figura pública de quem se poderia esperar que misturasse críticas políticas com alusões ao estado civil de um oponente.


Tudo por causa de sua biografia, para repetir a palavra do repórter da Folha. De um lado, as suas posições contra a homofobia, corajosamente assumidas antes ainda que entrasse para a política, quando não se falava disso na televisão. De outro, a sua história conjugal, com o fim da longa união com o senador Eduardo Suplicy e o seu segundo casamento.


Os pesquisadores de opinião conhecem os efeitos disso para o alto índice de rejeição a Marta em São Paulo – ela só perde, no quesito, para Maluf. Mas o assunto, que praticamente já sumiu do noticiário, ainda hoje a preocupa. Com razão.


O praticamente vai por conta de uma daquelas reportagens que nunca é demais elogiar, porque falam de eleições do ângulo do eleitor e não dos políticos.


Saiu sexta passada no Valor. Assinada por Cristiane Agostine e Caio Junqueira, se propõe a dizer “o que moveu o eleitor em reduto em que Marta perdeu muitos votos e noutro em que ela mais ganhou”, como se lê no antetítulo da matéria.


O reduto do antimartismo é o bairro de Santana, no norte de São Paulo. Ali, Marta teve 34,6% dos votos válidos em 2000; 26% em 2004 – e 12,2% na eleição de 5 de outubro. [Comparando, em Piraporinha, na zona sul, em 2000 ele ficou com 43,2% dos votos, em 2004 com 52%, e agora, com 59,6%.]


Nesse bastião de conservadorismo que é Santana, informa o Valor, “as opiniões expressadas, em geral, trazem […] muitas referências a condutas pessoais tidas por inaceitáveis aos políticos. São esses julgamentos que embasam a maior parte das críticas a Marta”, ainda que o bairro – aponta oportunamente o texto – “concentre o maior índice de divorciados da cidade”.


Coisas que se dizem por ali:


”A família dela é muito desregrada. Político tem que ter regra”.


”Ligo a TV e ela está na parada gay. O que está indicando para o meu filho? E o filho dela? Cantor louco de rock, zueiro, o que proporciona de bom?”


”O que falta nela é o conceito de família”.


E, apropriadamente, dadas as perguntas maldosas da propaganda de Marta sobre Kassab, “prefeita tem que ter marido”.


Livre-pensar é só pensar: quantos dos mais de 100 mil eleitores de Santana – que deram a Kassab 44,7% dos votos válidos – também acham que prefeito tem que ter esposa?


Os pesquisadores dos dois candidatos já devem ter apurado por aí se foi bom para Marta ela ter perguntado retoricamente se o adversário é casado e tem filhos. Não convém apostar que foi.


Seja porque a maioria do eleitorado é madura o suficiente para não querer que se ponha a intimidade dos candidatos no meio de uma disputa. Seja porque, para pessoas como aquelas que o Valor ouviu em Santana, Marta falar em casamento é falar em corda em casa de enforcado.


Pena, a propósito, que a Folha não tenha ido além de informar, nos finalmentes de sua matéria, que “a estratégia de ataque pessoal contraria alguns membros da campanha petista”. Quais? Por quê?


Ainda bem, no entanto, que os entrevistadores do jornal tenham insistido na questão, na sabatina com a candidata, segunda-feira.


Então ouviram dela que não tem parte com o que sai na sua propaganda. ‘A condução da campanha de televisão o marqueteiro conduz, ele faz’, disse, literalmente. Marta negou ainda que as perguntas insinuassem que Kassab é gay. ‘Não acho. É uma pergunta como qualquer outra.’ E insistiu que as pessoas não só ‘têm que saber’, mas ‘devem saber’ o estado civil dos candidatos.


Ela deve saber o que diz.


O subprime brasileiro


Domingo, o Estado deu: “O estouro da bolha cambial, a exemplo do crédito imobiliário nos Estados Unidos, já é considerado pelos economistas do Ministério da Fazenda como o tempero amargo do Brasil na crise global – o subprime brasileiro.


Uma ameaça, portanto, para o sistema financeiro do país, como o estouro da bolha imobiliária formada por hipotecas de alto risco foi para a banca americana.


A matéria não identifica esses economistas. Mas “pelos economistas” quer dizer “todos os economistas” da Fazenda. Do contrário, seria “por economistas”.


Isso vem ao caso porque, no dia seguinte, no mesmo jornal, o chefe deles, ministro Guido Mantega, diz que não é nada disso.


Perguntado se o problema das empresas brasileiras, como a Sadia, Aracruz e Votorantim, que movimentavam US$ 40 bilhões com venda futura do dólar [operações de derivativos] e foram apanhadas no contrapé pela disparada da moeda americana, é o subprime brasileiro, Mantega foi categórico:


”Não. Essas são questões localizadas de empresas. No subprime [americano], as instituições financeiras possuem ativos podres, que foram repassados para uma série de bancos, fragilizando todo o sistema. Nós não temos nenhum problema de subprime, os bancos brasileiros têm carteiras sólidas.”


Fácil perceber a enrascada em que ficou o Estado, com a história atribuída, sem distinção, aos “economistas do Ministério da Fazenda”.


O certo, em respeito ao leitor e considerando a importância do assunto, seria o jornal voltar aos tais não identificados economistas para que comentem a negativa do ministro. Mas, se o retrospecto da imprensa brasileira em casos do gênero servir de guia, melhor esperar sentado.


Paul Krugman, Nobel de Economia


Não foi por seus artigos no New York Times que o professor foi premiado, mas bem que merecia. Dele se escreveu neste Observatório, em dezembro de 2003:


De coluna em coluna, Paul Krugman se transformou no mais robusto e bem-fundamentado crítico da política econômica do governo Bush; depois, no mais duro crítico do governo Bush em geral, começando por denunciar o seu acasalamento com os interesses do grande capital e terminando por mostrar os nexos entre a economia e a militarização da política externa dos Estados Unidos, que culminou com a invasão do Iraque, a primeira grande agressão ao direito internacional do novo século. De coluna em coluna, o economista que até então era apenas mais um leitor de elite de jornais e revistas se converteu também em crítico praticante – e nada menos que o melhor – da mídia americana na atualidade.” [Ver íntegra aqui.]

Todos os comentários

  1. Comentou em 14/10/2008 Degas Silva

    O Kassab é ou não é gay?

  2. Comentou em 14/10/2008 CÉRIO SANTOS

    Caro sr. Weis, reproduzo a recamação enviada a este site, na seção fale conosco: ‘Postei comentário sobre o artigo do sr. Luiz Weis ‘As perguntas de Marta e o eleitor de Santana’, sendo que o mesmo não foi publicado, tendo-se publicado outro (de outra pessoa) muito posterior ao meu. O que está acontecendo ? Não fui ofensivo e nem desrespeitoso. Pelo contrário, usei do tema para uma abordagem positiva e construtiva, não havendo motivo para ser totalmente vetado pela moderação. Portanto, EXIJO QUE O MEU COMENTÁRIO SEJA PUBLICADO, bem como, que este site respeite e tenha mais presteza com quem o frequenta. Caso não publiquem, eu ,que já andava afastado, não haverei de mais participar neste site ou sequer frequentá-lo.’ O preconceito e a homofobia são irmãs da hipocrisia e do falso moralismo. PUBLIQUEM O MEU COMENTÁRIO ANTERIOR !!!

  3. Comentou em 14/10/2008 Cério Santos

    Caro sr. Weis, reproduzo a recamação enviada a este site, na seção fale conosco: ‘Postei comentário sobre o artigo do sr. Luiz Weis ‘As perguntas de Marta e o eleitor de Santana’, sendo que o mesmo não foi publicado, tendo-se publicado outro (de outra pessoa) muito posterior ao meu. O que está acontecendo ? Não fui ofensivo e nem desrespeitoso. Pelo contrário, usei do tema para uma abordagem positiva e construtiva, não havendo motivo para ser totalmente vetado pela moderação. Portanto, EXIJO QUE O MEU COMENTÁRIO SEJA PUBLICADO, bem como, que este site respeite e tenha mais presteza com quem o frequenta. Caso não publiquem, eu ,que já andava afastado, não haverei de mais participar neste site ou sequer frequentá-lo.’ O preconceito e a homofobia são irmãs da hipocrisia e do falso moralismo. PUBLIQUEM O MEU COMENTÁRIO ANTERIOR !!!

  4. Comentou em 14/10/2008 Cério Santos

    Reproduzo apenas a reclamação que enviei para este site, na seçao fale conosco:’Postei comentário sobre o artigo do sr. Luiz Weis ‘As perguntas de Marta e o eleitor de Santana’, sendo que o mesmo não foi publicado, tendo-se publicado outro (de outra pessoa) muito posterior ao meu. O que está acontecendo ? Não fui ofensivo e nem desrespeitoso. Pelo contrário, usei do tema para uma abordagem positiva e construtiva, não havendo motivo para ser totalmente vetado pela moderação. Portanto, EXIJO QUE O MEU COMENTÁRIO SEJA PUBLICADO, bem como, que este site respeitem e tenham mais presteza com quem o frequenta. Caso não publiquem, eu ,que já andava afastado, não haverei de jamais participar neste site ou sequer frequentá-lo.’ Acredito que o preconceito e a homofobia são irmãs da hipocrisia e do falso moralismo.

  5. Comentou em 14/10/2008 sostenes da Silva

    Max Suel, como voce deve ler e concordar com o Reinaldo Azevedo,
    de uma pesquisa nos textos dele e veja o que ele acha das pessoas
    que sao politicamente corretas.
    Voce vera, se e´ que ja nao sabe, que Reinaldo nao tem a menor
    condicao de cobrar nada de ninguem. Outra Max Suel, acompanho
    seus comentarios por aqui e eles nao primam pelo respeito as
    pessoas que pensam diferentes de voce. Plantou??? entao va colher!

  6. Comentou em 14/10/2008 Cério Santos

    O fato de Kassab ser (ou não) homossexual não é relevante. Todavia, o que causa estranheza é o fato dele, em sendo homossexual, esconder tal fato. Sobretudo, porque assumindo a sua condição de gay, sendo pessoa pública, estaria ajudando a combater o preconceito, a hipocrisia e o falso moralismo existente na sociedade. Ao contrário, escondendo a sua sexualidade, ele colabora e se torna conivente com a continuidade desse comportamento preconceituoso no seio social , o qual afeta tantas pessoas. Caso seja efetivamente homossexual, Kassab deveria aproveitar a situação e, corajosamente, assumir a sua sexualidade. Afinal, que mal há nisso ? Ou será que ele mesmo é preconceituoso em relação a homossexuais e homossexualismo ? Embora possa parecer contraditório, creio ser possivel que um homossexual desenvolva algum complexo ou até mesmo homofobia. A homossexualidade não mede o caráter das pessoa. Não há nenhum demérito em ser homosexual. Ademais, uma pessoa reconhecer -se e assumir -se como tal é uma atitude extremamente louvável, honesta e digna. Não é o fato de ser homosexual, mas sim o fato de, sendo-o, ocultar tal situação. O que poderia denotar alguma fraqueza de caráter e desvio de personalidade. Afinal, seria um descalabro existir homofobia ou preconceito atinente a homossexualidade por parte de um homossexual. o que revelaria um perfil psicológico perigoso.

  7. Comentou em 13/10/2008 Ivan Moraes

    ‘Os pesquisadores de opinião conhecem os efeitos disso para o alto índice de rejeição a Marta em São Paulo – ela só perde, no quesito, para Maluf’: concordo, paulista eh de uma cara de pau sem tamanho, mas nao vai dar pra ninguem saber o quao grande ate o dia que soubermos exatamente qual porcentagem de votos pra Maluf saiu do bairro Santana paraiso maravilha bastiao dos ‘conservadores’ –‘conservadores’ ***paulistas***, e nao se esqueca. So pode ser por isso que paulistas votam tao bem.

  8. Comentou em 13/10/2008 Luiz Garcia

    O Reinaldo Azevedo e a tira-colo o Suel, fazem parte do grupo ultra conservador aqui de SP. Eles elevam tudo (o pouco) que foi feito pelos tucanos e demistas comparando-os aos grandes políticos da humanidade. Só falta comentarem, se a ideologia que os prende permitir, claro, sobre o destrato do prefeito com os paulistanos (vídeo com o termo ‘Kassab chama cidadão de vagabundo’ já ilustraria isso muito bem; o maldito trânsito paulistano; a vergonha e ao mesmo tempo esperteza de Kassab ao se desvincular na TV da sigla DEM/PFL (o partido mais fisiológico da humanidade) e de Pitta e Maluf; superlotação e falta de ônibus na cidade; camelôes desregulamentados pela cidade toda; liberação das peruas no tempo de Pitta; Kassab e Serra não criticam Lula por medo de represálias eleitorais. Portanto, o importante, para a classe média paulistana, é que as coisas continuem como sempre estiveram: estagnação de São Paulo; população paulistano vivendo um inferno numa cidade onde não se consegue se locomover para lugar algum. Kassab é um maria vai com as outras e se agarra a quem tenha visualização política, não importando se tenha ou não projeto político. E de projeto político, se Kassab se espelhar nos tucanos, estará perdido. Como a cidade de São Paulo, e o estado também, viraram a lixeira política do Brasil, não é de se espantar a reeleição de Kassab. Reeleição também é sinônimo de tucanismo.

  9. Comentou em 13/10/2008 Luiz Garcia

    ‘no Brasil os candidatos costumam respeitar a intimidade familiar uns dos outros’…..Vamos ver: a Globo, junto com Collor, pesquisaram a fundo a vida amorosa de Lula e descobriram uma filha desconhecida. Já a Globo não publicou nada a respeito da questão FHC e Miriam Dutra…..!!! Luiz Weis, premissa falsa essa sua, não?

  10. Comentou em 13/10/2008 Max Suel

    Como bem colocou o jornalista Reinaldo Azevedo: O PT chegou no fundo do poço ético e achou um alçapão. Descerá ainda mais. Esta propaganda calhorda onmde se questiona se o opositor é casado e se tem filhos é bem típica do PT paulista. É o desespero de quem já perdeu tudo, inclusive a compostura. Dona Marta casada em 2ªs núpcias com o argentino após um longo casamento com o sen Suplicy (de quem ainda aproveita o nome) deveria ter mais compostura. alega que não sabia da propaganda e que isto é com seu marqueteiro (!?!?) . É o fim da picada. Também ela não sabe nada no seu entorno. Não sabe que é a responsável pela sua campanha ? Como exemplo: Se gastar e não declarar a responsabilidade é sua , não do comando de sua campanha. No debate de domingo na Band a candidata estava nervosíssima e queria tirar o prefeito do sério, mas não conseguiu. Kassab tranquilo, respondeu com firmeza às diatribes da ex-prefeita (que não se reelegeu, diga-se de passagem, o que significa que a população não aprovou sua administração). Voltando à propaganda petista: baixa, covarde, falsa, mentirosa, enganosa, mas não vai enganar o paulistano que não é tonto, e sabe que o prefeito Kassab tem feito uma ótima administração, firme, discreta, sem gastos em propaganda (como a ex-prefeita), sem arrogância, sem empáfia, tão típicos da sua opositora. Marta já perdeu a compostura, falta perder a eleição.

  11. Comentou em 13/10/2008 roberto e santos silva

    quanto a pergunta de marta nao vejo nada demais na pergunta. o que vejo e tenho lido e uma midia querendo arrumar um martir, uma vitima. Quase todo mundo sabe da vida de marta atraves de jornais ,t v etc.

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