Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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As perguntas de Marta e o eleitor de Santana

Por Luiz Weis em 13/10/2008 | comentários

Nenhum jornal ousou sugerir, muito menos afirmar, que duas perguntas sobre o candidato Gilberto Kassab, no horário de propaganda de Marta Suplicy, domingo – “Ele é casado? Tem filhos?” – insinuam que o prefeito é gay.


Kassab é solteiro e, ao que se saiba, não é pai.


Quem mais perto chegou de cobrar uma posição da candidata a respeito, deixando implícita essa possibilidade, foi o repórter da Folha que lhe perguntou antes do debate na TV Bandeirantes se tais perguntas não eram contraditórias com a sua biografia.


Segundo o jornal, Marta respondeu, não ficou claro se ofendida ou se fazendo de desentendida: “O que você está querendo insinuar? São direitos de informação que todo mundo tem que ter.”


O direito de saber é o mesmo pretexto da campanha do candidato republicano à Casa Branca, John McCain, para justificar as insinuações, cada vez mais rombudas, de que o adversário democrata, Barack Obama, tem o que esconder [no caso, não as suas preferências sexuais, mas as suas amizades]. Ou, como anda perguntando McCain, “quem é o verdadeiro Barack Obama?”.


Na propaganda de Marta, a pergunta é “será que ele [Kassab] esconde mais coisas?”


Era de esperar que a imprensa trabalhasse melhor o episódio de evidente interesse jornalístico.


Primeiro, porque, diferentemente do que acontece nos Estados Unidos, no Brasil os candidatos costumam respeitar a intimidade familiar uns dos outros, mesmo quando se cobrem de impropérios. A última vez que um político em campanha cometeu em grande estilo a baixeza de usar a vida pessoal do adversário contra ele foi quando Fernando Collor levou ao seu programa a filha de Lula fora do casamento.


Segundo e mais importante, porque Marta é a última figura pública de quem se poderia esperar que misturasse críticas políticas com alusões ao estado civil de um oponente.


Tudo por causa de sua biografia, para repetir a palavra do repórter da Folha. De um lado, as suas posições contra a homofobia, corajosamente assumidas antes ainda que entrasse para a política, quando não se falava disso na televisão. De outro, a sua história conjugal, com o fim da longa união com o senador Eduardo Suplicy e o seu segundo casamento.


Os pesquisadores de opinião conhecem os efeitos disso para o alto índice de rejeição a Marta em São Paulo – ela só perde, no quesito, para Maluf. Mas o assunto, que praticamente já sumiu do noticiário, ainda hoje a preocupa. Com razão.


O praticamente vai por conta de uma daquelas reportagens que nunca é demais elogiar, porque falam de eleições do ângulo do eleitor e não dos políticos.


Saiu sexta passada no Valor. Assinada por Cristiane Agostine e Caio Junqueira, se propõe a dizer “o que moveu o eleitor em reduto em que Marta perdeu muitos votos e noutro em que ela mais ganhou”, como se lê no antetítulo da matéria.


O reduto do antimartismo é o bairro de Santana, no norte de São Paulo. Ali, Marta teve 34,6% dos votos válidos em 2000; 26% em 2004 – e 12,2% na eleição de 5 de outubro. [Comparando, em Piraporinha, na zona sul, em 2000 ele ficou com 43,2% dos votos, em 2004 com 52%, e agora, com 59,6%.]


Nesse bastião de conservadorismo que é Santana, informa o Valor, “as opiniões expressadas, em geral, trazem […] muitas referências a condutas pessoais tidas por inaceitáveis aos políticos. São esses julgamentos que embasam a maior parte das críticas a Marta”, ainda que o bairro – aponta oportunamente o texto – “concentre o maior índice de divorciados da cidade”.


Coisas que se dizem por ali:


”A família dela é muito desregrada. Político tem que ter regra”.


”Ligo a TV e ela está na parada gay. O que está indicando para o meu filho? E o filho dela? Cantor louco de rock, zueiro, o que proporciona de bom?”


”O que falta nela é o conceito de família”.


E, apropriadamente, dadas as perguntas maldosas da propaganda de Marta sobre Kassab, “prefeita tem que ter marido”.


Livre-pensar é só pensar: quantos dos mais de 100 mil eleitores de Santana – que deram a Kassab 44,7% dos votos válidos – também acham que prefeito tem que ter esposa?


Os pesquisadores dos dois candidatos já devem ter apurado por aí se foi bom para Marta ela ter perguntado retoricamente se o adversário é casado e tem filhos. Não convém apostar que foi.


Seja porque a maioria do eleitorado é madura o suficiente para não querer que se ponha a intimidade dos candidatos no meio de uma disputa. Seja porque, para pessoas como aquelas que o Valor ouviu em Santana, Marta falar em casamento é falar em corda em casa de enforcado.


Pena, a propósito, que a Folha não tenha ido além de informar, nos finalmentes de sua matéria, que “a estratégia de ataque pessoal contraria alguns membros da campanha petista”. Quais? Por quê?


Ainda bem, no entanto, que os entrevistadores do jornal tenham insistido na questão, na sabatina com a candidata, segunda-feira.


Então ouviram dela que não tem parte com o que sai na sua propaganda. ‘A condução da campanha de televisão o marqueteiro conduz, ele faz’, disse, literalmente. Marta negou ainda que as perguntas insinuassem que Kassab é gay. ‘Não acho. É uma pergunta como qualquer outra.’ E insistiu que as pessoas não só ‘têm que saber’, mas ‘devem saber’ o estado civil dos candidatos.


Ela deve saber o que diz.


O subprime brasileiro


Domingo, o Estado deu: “O estouro da bolha cambial, a exemplo do crédito imobiliário nos Estados Unidos, já é considerado pelos economistas do Ministério da Fazenda como o tempero amargo do Brasil na crise global – o subprime brasileiro.


Uma ameaça, portanto, para o sistema financeiro do país, como o estouro da bolha imobiliária formada por hipotecas de alto risco foi para a banca americana.


A matéria não identifica esses economistas. Mas “pelos economistas” quer dizer “todos os economistas” da Fazenda. Do contrário, seria “por economistas”.


Isso vem ao caso porque, no dia seguinte, no mesmo jornal, o chefe deles, ministro Guido Mantega, diz que não é nada disso.


Perguntado se o problema das empresas brasileiras, como a Sadia, Aracruz e Votorantim, que movimentavam US$ 40 bilhões com venda futura do dólar [operações de derivativos] e foram apanhadas no contrapé pela disparada da moeda americana, é o subprime brasileiro, Mantega foi categórico:


”Não. Essas são questões localizadas de empresas. No subprime [americano], as instituições financeiras possuem ativos podres, que foram repassados para uma série de bancos, fragilizando todo o sistema. Nós não temos nenhum problema de subprime, os bancos brasileiros têm carteiras sólidas.”


Fácil perceber a enrascada em que ficou o Estado, com a história atribuída, sem distinção, aos “economistas do Ministério da Fazenda”.


O certo, em respeito ao leitor e considerando a importância do assunto, seria o jornal voltar aos tais não identificados economistas para que comentem a negativa do ministro. Mas, se o retrospecto da imprensa brasileira em casos do gênero servir de guia, melhor esperar sentado.


Paul Krugman, Nobel de Economia


Não foi por seus artigos no New York Times que o professor foi premiado, mas bem que merecia. Dele se escreveu neste Observatório, em dezembro de 2003:


De coluna em coluna, Paul Krugman se transformou no mais robusto e bem-fundamentado crítico da política econômica do governo Bush; depois, no mais duro crítico do governo Bush em geral, começando por denunciar o seu acasalamento com os interesses do grande capital e terminando por mostrar os nexos entre a economia e a militarização da política externa dos Estados Unidos, que culminou com a invasão do Iraque, a primeira grande agressão ao direito internacional do novo século. De coluna em coluna, o economista que até então era apenas mais um leitor de elite de jornais e revistas se converteu também em crítico praticante – e nada menos que o melhor – da mídia americana na atualidade.” [Ver íntegra aqui.]

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