Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Autocensura e mercado de trabalho ameaçam liberdade de imprensa

Por Alceu Nader em 13/05/2006 | comentários

‘É tremendo!’.
Com essa exclamação, o jornalista Joaquín Estefanía, diretor da Escola de Jornalismo mantida pela Universidade Autónoma de Madrid (UAM) e pelo jornal El País, de Madri, avalia o grau de autocensura a que se submetem os jornalistas do jornal para o qual trabalha. Na Espanha, explica, há plena liberdade de imprensa, mas, em seu lugar, há o fantasma da censura que aparece com o receio de explorar assuntos que contrariam os interesses das empresas controladoras dos jornais. A assombração aparece, explica, por causa da ignorância e do medo de colocar em risco o lugar conquistado em um mercado de trabalho disputadíssimo e estagnado. Assim, assuntos que supostamente contrariam anunciantes ou possam ser classificados como ‘de esquerda’ são ignorados antes mesmo de entrar na pauta.

O fenômeno não é só espanhol – é europeu. Excetuando-se o Le Monde Diplomatique e os jornais de sindicatos e partidos, não sobrou jornal de esquerda em circulação na Europa. Conseqüentemente, caiu também o número de reportagens que denunciam injustiças sociais, lucros exorbitantes e negócios nebulosos. No Brasil, jornal de esquerda também é exceção no cenário ocupado por jornais conservadores, no qual também não cabem reportagens que apontam os podres da lógica do mercado e seus resultados muitas vezes funestos para largas parcelas da população. Pior ainda: não há, como existe no El País, um conselho de redação que dê aos jornalistas poder de influência na linha editorial dos jornais. A regra geral obedece à máxima de que manda quem sabe (do que agrada ou desagrada a direção) e obedece quem tem juízo.

Motivos para temer assuntos que contradizem a lógica estabelecida não faltam, a começar pela farta oferta de mão-de-obra barata. A concorrência é feroz em todas as partes. A ela, soma-se a queda irreversível no número de exemplares vendidos, gerada, entre outros fatores, pela migração diária de milhares de leitores da versão impressa para a disponível na Internet.

Resumo da ópera: com raríssimas exceções, as empresas que controlam os jornais andam mal das pernas e estão afogadas em dívidas. Com cada vez menos leitores, e precisando desesperadamente de faturamento, nada mais natural, portanto, que a voz que defende interesses das empresas e dos anunciantes ser mais audível do que a dos leitores.

Um exemplo concreto de assunto evitado, mas que está à vista de todos, é o silêncio absoluto dos jornais sobre os desmandos das construtoras e imobiliárias nas grandes cidades brasileiras. Nenhum jornal aponta danos ambientais ou urbanísticos provocados pela especulação imobiliária. Pior ainda. No caso de São Paulo, para agradar ao setor, os jornais literalmente dão espaços para que categorias profissionais e patronais do setor publiquem o que lhe derem na telha, ainda que o conteúdo seja de intermináveis homenagens a personalidades do setor ou que contradiga idéias defendidas nos editoriais. Os jornais são a favor da desregulamentação profissional – vide as campanhas contra a exigência do diploma para jornalistas -, mas abrem espaço para o ‘noticiário’sobre caçadas policiais contra quem vende imóveis sem registro no sindicato dos corretores. Quanto aos problemas gerados pela verticalização excessiva das construções – trânsito caótico, incapacidade do sistema de saneamento suportar o excesso de carga, ausência de áreas verdes etc. – nenhum pio.

No Brasil, a criação de instâncias que dêem aos jornalistas poder de interferir na linha editorial dos jornais é uma quimera. No caso do El País, conta Miguel Bayón, que também trabalha no jornal e na parceria com a UAM, os jornalistas têm esse poder. Um dos casos emblemáticos, ele conta, o evento clássico é o do questionamento dos jornalistas ao apoio expresso em editorial do jornal ao fracassado golpe de estado contra o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em 2002. Movido por seus interesses na América Latina e por associações com o magnata da mídia Gustavo Cisneros – cuja influência nos meios de informação do Brasil ainda não foi devidamente explicitada – o jornal publicou, que fora a favor do golpe, teve de recuar diante da pressão dos jornalistas. O argumento foi banal: não cabia, no mesmo espaço, a defesa da democracia e o apoio à quartelada.

A censura também foi um dos assuntos mais mencionados na mesa-redonda ‘Os meios de informação como poder político nas atuais democracias latino-americanas’, presidida e moderada por Miguel Ángel Bastenier, também do El País, especialista em política internacional e América Latina. Além do jornalista-responsável pelo Contrapauta, estavam presentes César Molinares, da Colômbia, José Mejía, do Peru, e Raúl Olivera, do Uruguai. Na exposição de cada um, ficou clara a diferença oceânica entre as condições de trabalho dos países representados, sendo o Brasil, na comparação com os vizinhos, um paraíso para os jornalistas. Involuntariamente, provoquei incompreensão entre os debatedores e na platéia. Ao responder sobre a interferência do Estado na liberdade de imprensa, citei o recente comunicado da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) que apontou o Poder Judiciário como ameaça à liberdade de imprensa. Ninguém entendeu como a ‘ameaça’ da Justiça, uma vez que suas decisões devem estar de acordo com a Constituição e essa proíbe a censura.

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/05/2006 José de Souza Castro

    ‘No Brasil, jornal de esquerda também é exceção’. E bote exceção nisso! Gostaria de saber se existe um jornal diário de esquerda no Brasil. Em Minas, tenho certeza: não há! Teria que ser um excelente jornal para sobreviver nesse mercado, só com a venda em banca e assinaturas, pois não vejo como ele conseguiria captar anúncios. Um jornal de esquerda teria que tratar de assuntos que interessam à população, mas não às empresas, sobretudo as do mercado imobiliário e automobilístico, que são as grandes anunciantes nos classificados. Só para lembrar, eram os classificados que deram ao JB, no passado, o poder que ele tinha para enfrentar alguns poderosos… Os anunciantes, de resto, já se acostumaram a controlar os jornais pelos anúncios – e, neste caso, o governo de Minas é doutor.

  2. Comentou em 15/05/2006 Geraldo Magela da Silva Xavier

    A veja tambem apoiou o golpe contra Hugo Chaves

  3. Comentou em 15/05/2006 Eliane Lunetta

    Obrigada por dizer o que há anos está entalado em minha garganta. Não existe mais o respeito ao silêncio desde que as incorporadoras de imóveis iniciaram a destruição de São Paulo e Rio. As crianças não podem ter direito a feriados, tardes de sábados e domingos com a cidade desse jeito. Aonde estão os senhores da Comunicação? Parece-me que suas empresas são dominadas pelos mafiosos!

  4. Comentou em 15/05/2006 Débora Almeida

    Olá!
    Então, eu acho que no Brasil existem muitos exemplos de auto-censura ou mesmo casos que paga-se para nao circular a notícia.
    Exemplo que me deixou estarrecida foi o Deputado Federal Salvador Zimbaldi (PSB/SP) querer impedir a estreia do filme ´Codigo da Vinci´.
    Quem ele pensa que é para influenciar as pessoas?

  5. Comentou em 14/05/2006 Victor Martins

    No Brasil não é preciso que a justiça acabe com a liberdade de imprensa, nem é preciso agentes do exército nas redações de jornais. A censura começa na universidade. No dia 9 de maio, no Centro Universitário de Brasília – UniCEUB, o jornal laboratório Esquina, teve a distribuição proibida. Os 3 mil exemplares impressos foram retidos pela reitoria do centro universitário. Segundo alunos do 6º semestre de jornalismo, que produzem o jornal, ele teve a distribuição proibida por causa da matéria Comigo é no popular, texto que falava sobre a gestão do ex-governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz. Os alunos de comunicação fizeram dois dias de greve (11 e 12 de maio) e provávelmente irão continuar as paralisações até que a reitoria devol-va os 3 mil exemplares. Esse episódio do Esquina é só um retrato do jornalismo no Brasil, mostra que a democracia é uma ilusão e que liberdade de imprensa é uma mentira.

  6. Comentou em 13/05/2006 Urariano Mota

    Muito bom. Este blog é, de longe, o melhor do Observatório da Imprensa. Parabéns, Alceu. Chamo a sua atenção para o La Insignia, bilíngûe, que há muitos anos exerce a liberdade de pensamento e expressão em português e espanhol. Endereço: http://www.lainsignia.org

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