Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Autocensura e mercado de trabalho ameaçam liberdade de imprensa

Por Alceu Nader em 13/05/2006 | comentários

‘É tremendo!’.
Com essa exclamação, o jornalista Joaquín Estefanía, diretor da Escola de Jornalismo mantida pela Universidade Autónoma de Madrid (UAM) e pelo jornal El País, de Madri, avalia o grau de autocensura a que se submetem os jornalistas do jornal para o qual trabalha. Na Espanha, explica, há plena liberdade de imprensa, mas, em seu lugar, há o fantasma da censura que aparece com o receio de explorar assuntos que contrariam os interesses das empresas controladoras dos jornais. A assombração aparece, explica, por causa da ignorância e do medo de colocar em risco o lugar conquistado em um mercado de trabalho disputadíssimo e estagnado. Assim, assuntos que supostamente contrariam anunciantes ou possam ser classificados como ‘de esquerda’ são ignorados antes mesmo de entrar na pauta.

O fenômeno não é só espanhol – é europeu. Excetuando-se o Le Monde Diplomatique e os jornais de sindicatos e partidos, não sobrou jornal de esquerda em circulação na Europa. Conseqüentemente, caiu também o número de reportagens que denunciam injustiças sociais, lucros exorbitantes e negócios nebulosos. No Brasil, jornal de esquerda também é exceção no cenário ocupado por jornais conservadores, no qual também não cabem reportagens que apontam os podres da lógica do mercado e seus resultados muitas vezes funestos para largas parcelas da população. Pior ainda: não há, como existe no El País, um conselho de redação que dê aos jornalistas poder de influência na linha editorial dos jornais. A regra geral obedece à máxima de que manda quem sabe (do que agrada ou desagrada a direção) e obedece quem tem juízo.

Motivos para temer assuntos que contradizem a lógica estabelecida não faltam, a começar pela farta oferta de mão-de-obra barata. A concorrência é feroz em todas as partes. A ela, soma-se a queda irreversível no número de exemplares vendidos, gerada, entre outros fatores, pela migração diária de milhares de leitores da versão impressa para a disponível na Internet.

Resumo da ópera: com raríssimas exceções, as empresas que controlam os jornais andam mal das pernas e estão afogadas em dívidas. Com cada vez menos leitores, e precisando desesperadamente de faturamento, nada mais natural, portanto, que a voz que defende interesses das empresas e dos anunciantes ser mais audível do que a dos leitores.

Um exemplo concreto de assunto evitado, mas que está à vista de todos, é o silêncio absoluto dos jornais sobre os desmandos das construtoras e imobiliárias nas grandes cidades brasileiras. Nenhum jornal aponta danos ambientais ou urbanísticos provocados pela especulação imobiliária. Pior ainda. No caso de São Paulo, para agradar ao setor, os jornais literalmente dão espaços para que categorias profissionais e patronais do setor publiquem o que lhe derem na telha, ainda que o conteúdo seja de intermináveis homenagens a personalidades do setor ou que contradiga idéias defendidas nos editoriais. Os jornais são a favor da desregulamentação profissional – vide as campanhas contra a exigência do diploma para jornalistas -, mas abrem espaço para o ‘noticiário’sobre caçadas policiais contra quem vende imóveis sem registro no sindicato dos corretores. Quanto aos problemas gerados pela verticalização excessiva das construções – trânsito caótico, incapacidade do sistema de saneamento suportar o excesso de carga, ausência de áreas verdes etc. – nenhum pio.

No Brasil, a criação de instâncias que dêem aos jornalistas poder de interferir na linha editorial dos jornais é uma quimera. No caso do El País, conta Miguel Bayón, que também trabalha no jornal e na parceria com a UAM, os jornalistas têm esse poder. Um dos casos emblemáticos, ele conta, o evento clássico é o do questionamento dos jornalistas ao apoio expresso em editorial do jornal ao fracassado golpe de estado contra o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em 2002. Movido por seus interesses na América Latina e por associações com o magnata da mídia Gustavo Cisneros – cuja influência nos meios de informação do Brasil ainda não foi devidamente explicitada – o jornal publicou, que fora a favor do golpe, teve de recuar diante da pressão dos jornalistas. O argumento foi banal: não cabia, no mesmo espaço, a defesa da democracia e o apoio à quartelada.

A censura também foi um dos assuntos mais mencionados na mesa-redonda ‘Os meios de informação como poder político nas atuais democracias latino-americanas’, presidida e moderada por Miguel Ángel Bastenier, também do El País, especialista em política internacional e América Latina. Além do jornalista-responsável pelo Contrapauta, estavam presentes César Molinares, da Colômbia, José Mejía, do Peru, e Raúl Olivera, do Uruguai. Na exposição de cada um, ficou clara a diferença oceânica entre as condições de trabalho dos países representados, sendo o Brasil, na comparação com os vizinhos, um paraíso para os jornalistas. Involuntariamente, provoquei incompreensão entre os debatedores e na platéia. Ao responder sobre a interferência do Estado na liberdade de imprensa, citei o recente comunicado da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) que apontou o Poder Judiciário como ameaça à liberdade de imprensa. Ninguém entendeu como a ‘ameaça’ da Justiça, uma vez que suas decisões devem estar de acordo com a Constituição e essa proíbe a censura.

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