Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Blogs e jornais diante do desafio da credibilidade

Por Carlos Castilho em 16/02/2006 | comentários


A questão da credibilidade será decisiva na definição do canal de comunicação que exercerá maior influência sobre o público nos próximos anos. Parece óbvio, mas foi justamente isto o que declarou Daniel Okrent , o ex-ombudsman do The New York Times numa palestra nesta realizada nesta segunda feira (13/2) sobre a possibilidade dos weblogs substituirem os jornais como fonte de informação para a grande maioria dos leitores.


A questão levantada por Okrent é real porque cresce o número de pessoas que passam ler blogs por acreditarem que os jornais não são mais isentos, principalmente em matéria de política. O problema é que os blogs formam um conjunto heterogêneo onde a credibilidade também é uma meta a ser alcançada.


Os processos de revalidação da credibilidade pública pelos jornais e de afirmação de confiabilidade pelos weblogs encontram o leitor numa situação bastante confusa porque estão mudando os parâmetros que ele tinha para confiar ou desconfiar numa informação. A verdade já não tem mais apenas duas caras. Tem muitas e identificar quais delas são as mais verossímeis não é um processo fácil nem muito menos rápido.


A imprensa está condicionada, há muito tempo, pela idéia do certo e do errado, do claro e do escuro, do bom e do mau, do contra e do a favor. Não há nuances e nem relativizações. O resultado é que a dicotomia tomou conta do debate público e o sectarismo acabou inevitável, como mostram as recentes polêmicas em torno do mensalão, visiveis nos comentários dos weblogs sobre política.


Aí uns se entrincheiram nos jornais enquanto outros agarram-se aos blogs como válvula de escape para expressar sua posição contrária ao establishment. O problema é que a realidade não é tão simples, pois a avalancha noticiosa produz uma tal quantidade de dados e informações que tanto o contra como o a favor já não conseguem mais sobreviver dentro da camisa de força do sectarismo. Quem não consegue conviver com a incerteza acaba contaminado pela irritação.


Mas voltando a palestra de Daniel Okrent. O argumento dele é de que os jornais ainda têm globalmente, mais credibilidade do que o conjunto dos blogs mas podem perdê-la se não corrigirem os problemas que estão minando a sua imagem diante do público e se não transferirem para seus sites na Web a confiança que ainda tem de parte dos seus leitores.


Segundo ele, na imprensa mundial existem grandes ‘marcas’ como os nomes de colunistas e articulistas que conquistaram o respeito de todos e estas marcas devem ser levadas para a internet porque o público se informa cada vez mais através da Web, numa tendência irreversível.


Okrent admitiu que os erros da imprensa norte-americana facilitaram a decisão do governo Bush de invadir o Iraque, em 2003, porque os jornais e os jornalistas não conferiram os dados e informações fornecidos pela Casa Branca, pelo Pentágono e pelo Departamento de Estado. Os jornais e até a televisão estão pagando hoje um preço alto pelos equívocos cometidos, pois o público está muito mais cético diante de tudo e de todos.


A transferência de credibilidades proposta pelo ex-ombudsman do The New York Times não parece um processo simples pois os chamados ícones da confiabilidade são, geralmente, ‘homens do papel’ cuja adpatação à web lhes obrigará a uma penosa revisão de valores e de rotinas. O maior deles será a convivência com o patrulhamento dos leitores.


Por seu lado, os blogs também tem pela frente uma série de desafios no quesito credibilidade. O maior deles será o aprendizado do manejo da informação por pessoas que não têm formação jornalística. Isto não significa que só os profissionais podem trabalhar com a notícia. Este monopólio está acabando, mas isto obriga os não profissionais de assumirem as responsabilidades decorrentes do manejo da informação, uma matéria prima pra lá de complexa e com efeitos letais. É uma exigência que será cobrada pela sociedade e não apenas pelo sindicato dos jornalistas ou pela justiça.


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