Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Boataria desorienta eleitor e mostra omissão dos jornais

Por Carlos Castilho em 24/10/2014 | comentários

A última campanha presidencial mostrou que se a mídia jornalística brasileira, especialmente a escrita, não mudar suas estratégias de cobertura política, ela caminhará inexoravelmente para a insignificância em matéria de informação eleitoral.

Os jornais nesta campanha se limitaram a publicar pesquisas eleitorais, geralmente com atraso, ou funcionar como caixa de ressonância para denúncias, quase sempre, geralmente associadas a algum lobby político ou empresarial.

Fora disso a cobertura foi rotineira, sonolenta e burocrática, o que tende a afastar cada vez mais os jornais e as revistas de seus respectivos públicos, justamente num contexto onde a fidelização dos leitores tornou-se o fator crítico para a sobrevivência de empresas jornalísticas.

O nicho disponível para a imprensa escrita na cobertura eleitoral é a checagem responsável das denúncias e boatos que se multiplicam viralmente durante a fase final das campanhas. A investigação de fatos, o chamado fact checking, foi amplamente esquecida pelos nossos jornais justo no momento em que os eleitores mais precisaram dela.

É um fato público e notório que a boataria corre solta quando alimentada por factoides e rumores criados por marqueteiros e políticos. Eles são os artífices do vale-tudo informativo pré-eleitoral, mas sua função seria inócua sem a participação de eleitores que, inconscientemente, passam adiante notícias inverídicas, dados falseados e informações descontextualizadas.

Essa irresponsabilidade no manejo da informação é uma consequência da avalancha de notícias, fatos, números e eventos que diariamente são jogados sobre as pessoas sem que elas tenham condições de fazer a triagem adequada. O resultado é que muitos acabam agindo como propagadores, voluntários e involuntários, de uma cacofonia noticiosa que gera confusão, perplexidade e – o que é mais grave – cenas explicitas de sectarismo eleitoral.

Tudo isso poderia ser menos intenso se a imprensa cumprisse a missão de checar os fatos einvestigar a veracidade de denúncias, em vez de servir de porta-voz para lobbies políticos, governos e empresas. 

O fact checking é a oportunidade que a imprensa escrita tem para reencontrar seu papel informativo no ambiente noticioso que está sendo cada vez mais ocupado por ferramentas digitais e redes sociais na internet. Caso os jornais e revistas impressos não optem por esta estratégia editorial, a tendência é que se tornem cada vez mais dispensáveis numa campanha eleitoral.

Não será fácil romper com um comportamento que já vem sendo adotado desde o fim do regime militar. A relação da imprensa com a elite política e empresarial do país é sólida demais para ser alterada da noite para o dia. Mas a digitalização colocou a imprensa diante de um dilema atroz: mudar ou morrer. Os veículos de comunicação do país já estão mudando em várias áreas da atividade jornalística, mas a cobertura eleitoral ficou para trás.

Os novos tempos mostram que a interatividade entre os eleitores, que é onde as decisões são tomadas, está sendo monopolizada cada vez mais pelas redes sociais, ao mesmo tempo em que a internet passa a ser o grande repositório de programas e documentos partidários. As emissoras de rádio e televisão continuam imbatíveis nos debates ao vivo, onde a impossibilidade de aprofundar temas é compensada pela carga emocional do confronto entre candidatos.

O que sobra para a imprensa escrita é talvez a parte mais importante de todas: a redução da desorientação coletiva causada pela multiplicação de versões contraditórias, denúncias e acusações de origem duvidosa. Não há nenhum outro veículo de comunicação com tantas condições favoráveis para exercer essa função como os jornais e revistas porque ambos podem ir mais fundo na investigação e na verificação dos dados.

Muitos jornais podem até alegar que já fazem isto, mas falta o envolvimento com o leitor para saber quais são as suas dúvidas e preocupações.A imprensa só faz isso superficialmente porque o seu foco prioritário são os objetivos da elite governante e empresarial do país, que é de onde saem as verbas publicitárias que até agora mantinhamequilibrado o orçamento dos jornais.A realidade está exigindo uma ruptura de modelos editoriais também na cobertura eleitoral. 

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