Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Código Aberto

Boataria eleitoral põe em evidência necessidade da contextualização e leitura crítica de notícias

Por Carlos Castilho em 16/10/2010 | comentários


Boatos e contra-informação sempre foram itens quase obrigatórios em campanhas eleitorais, aqui e no exterior, mas este ano estamos experimentando pela primeira vez os efeitos do uso da internet na disseminação de informações falsas ou distorcidas.


É facil demonizar a internet pela boataria. Faz parte da cultura política culpar a tecnologia como se ela fosse a grande vilã da insegurança informativa, às vésperas de um pleito com cara de plebiscito. É o recurso adotado, velada ou abertamente, por quem não conhece e não procura conhecer as novas tecnologias, preferindo agarrar-se ao que sabe controlar.


A onda de boatos que tomou conta da internet brasileira nesta campanha para o segundo turno é a consequência inevitável de abusos cometidos num meio novo, onde os usuários ainda não tiveram condições para decidir quais são as regras socialmente válidas e aceitáveis.


Estamos testemunhando os efeitos práticos da complexidade informativa, na qual os dados, fatos e processos já não são mais dicotômicos, ou seja, não há mais certo ou errado, branco ou preto, alto ou baixo, mas sim uma série enorme de variações entre um extremo e outro. Com isso não existe apenas uma verdade, mas várias, e aí fica fácil entender por que tanta confusão na mídia e na cabeça dos eleitores.


A diversidade de percepções não é um fato novo ou descoberto agora. A novidade é que ela se tornou muito mais visível agora com a disseminação do uso da internet como veiculo de comunicação.


A avalancha de boatos eleitorais tende a confundir os eleitores por conta de versões contraditórias, dados incompletos, meias verdades, omissões e até mentiras dissimuladas. Não adianta proibir, porque, salvo em situações muito raras, é quase impossível identificar o que é 100% falso num ambiente informativamente conturbado, como é a véspera de uma votação que deve ser definida por um resultado apertado.


Daí a importância da leitura crítica das notícias relacionadas à campanha eleitoral. O cidadão não tem outro recurso, porque a outra alternativa seria desacreditar em tudo, o que seria uma atitude niilista, que não resolve o problema.


A leitura crítica tende a se transformar num item obrigatório na nossa cultura informativa nos próximos anos porque, sem ela, acabamos mergulhados na incerteza e na insegurança, como acontece hoje com muitos eleitores desorientados diante da boataria propagada pela internet e fora dela.


A leitura crítica está deixando de ser um penduricalho de luxo ou um tema acadêmico para se tornar uma ferramenta sem a qual o exercício da cidadania fica capenga. Agora, por exemplo, separar o joio do trigo em matéria de informação tornou-se a condição indispensável para corrigir percepções distorcidas e dar ao eleitor a tranquilidade de escolha.


Sem insistir na necessidade de contextualização das informações e da leitura critica, a propaganda da Justiça Eleitoral sobre voto consciente perde todo o sentido e vira apenas uma frase de efeito, sem qualquer consequência prática.


Para que os jornalistas passem a colocar a contextualização das notícias como uma meta prioritária é necessário que eles procurem conhecer mais o público, para evitar a tentação de entregar um produto pronto, baseado no duvidoso princípio de que os profissionais sabem o que o leitor ou telespectador quer e precisa. É mais ou menos isto que temos hoje e que, em vez de ajudar a reduzir a boataria, contribui para aumentá-la.

Todos os comentários

  1. Comentou em 21/10/2010 Luciano Prado

    Vejam que momento oportuno para observações e reflexões. O Luciano Martins Costa apresentou argumentos convincentes para explicar o nível da cobertura eleitoral pela imprensa em seu artigo “O atentado de Campo Grande”, publicado aqui no OI. As imagens do SBT falam por si só. Hoje o Jornal Nacional com seu “profissionalismo” de fazer Jesus Cristo ressuscitar arranjou uma versão para encaixar seus interesses. Pronto. Assunto liquidado. Agora, veja o comentário de um cidadão no post do Luciano: “Que ridiculo esse texto. O Jornal Nacional mostrou o que aconteceu. Esse Observatorio da Imprensa deveria pedir desculpas ao leitor. PESSIMO TRABALHO”.

  2. Comentou em 21/10/2010 Jaime Collier Coeli

    Se as crenças são hábitos decorrentes da ação, mais do que representações da realidade, brevemente estaremos todos saudosos da guerra fria estabelecida entre ‘praxis’ e ‘pragmatismo’, na segunda metade do século XX e que – mais que importancia politica – estabeleceu importantes descobertas sobre a ‘ordenação’ do Cosmos, conhecimentos anti-fundamentalistas e anti-essencialistas. Mas esses sucessos alcançaram perto de cinco por cento da população mundial e de maneira não uniforme entre paises e regiões. O discernimento e a oportunidade concentraram-se de tal maneira que a maior parcela da população mundial acredita piamente que tanto o discernimento quanto a oportunidade estão na garantia de um sanduiche de mortadela. Em decorrencia, o cerne da ditadura republicana expressa-se na maior parte dos governos ‘democraticos’ como uma manifestação do Estado agindo sob postulados que, em ultima analise, reduzem-se à teocracia. Portanto, a ação humana livre, consciente, criativa, está neste inicio do seculo XXI sob enorme pressão de procedimentos politicos fortemente discricionarios. Não há nesse horizonte, nenhum vestigio de liberdade.

  3. Comentou em 20/10/2010 Ibsen Marques

    Castilho, eu concordaria com você se houvesse um espaço público onde as pessoas pudessem debater e trocar idéias sobre as várias áreas de interesse comum, mas não creio que as tenhamos nos dias de hoje. À época de Lula, por exemplo, os sindicatos eram o espaço para esse tipo de discussão. Nos dias de hoje, os partidos políticos deveriam criar esses espaços, mas não o fazem e estão muito desacreditados e com uma imprensa manipulada e uma internet não muito acessível às baixas camadas sou forçado a concordar com o Herman. Mesmo que você alegue que a internet oferece uma ampla diversidade de informação, e nisso eu concordo, minha crença é a de que quem acessa a Internet acaba buscando por sites e blogs afinados com suas posições, exceto se você já não confia na imprensa e mídias convencionais, mas nesse caso você já precisa estar de posse da visão crítica.

  4. Comentou em 20/10/2010 Luciano Prado

    “Já a leitura crítica é uma postura que pode ser adotada tanto pelo intelectual como pelo semi-alfabetizado, porque é algo que vem da necessidade de separar o joio do trigo em matéria de informação”. Perfeito, mas a adoção de tal postura não exclui a responsabilidade de todos nós, leitores e jornalistas, de apontamos o dedo para a metástase. Senão, parece que fica mais fácil transferir a responsabilidade só para o leitor. Ou seja, os patrões da mídia continuarão a delinqüir impunemente sem serem molestados. Quem quiser que costure seu bolso. Porque nessa área não há concorrência, logo não há contraditório. Vige o pensamento único. E por mais que se propugne pelo esforço à leitura crítica ela não se dará em sua plenitude sem antes deixar enormes seqüelas pelo caminho. E aí o presidente Lula tem razão quando afirma que é preciso perder o medo da imprensa. É preciso denunciá-la em nome dos incautos que ela cultiva.

  5. Comentou em 20/10/2010 Luciano Prado

    Cristiana, a jurisprudência do TSE definia a ‘suspensão’ dos votos recebidos pelos políticos que não conseguiam o registro da candidatura, mas tinham recurso ainda em análise pela Justiça. Em 2009, o Congresso aprovou minirreforma eleitoral colocando essa regra na lei. Acho que é a lei 12.034/09.

  6. Comentou em 20/10/2010 Carlos Castilho

    Vou entrar na roda para falar comentar a observação do amigo Hernan de que expressões como voto consciente e leitura crítica poderiam estar associadas à idéia de que o eleitor pobre não sabe votar. Em primeiro lugar, esta história de não saber votar é uma coisa criada para desvalorizar o voto de quem não concorda com as elites políticas do país. É uma idéia profundamente discriminatória. Já a leitura crítica é uma postura que pode ser adotada tanto pelo intelectual como pelo semi-alfabetizado, porque é algo que vem da necessidade de separar o joio do trigo em matéria de informação. Na verdade todos já a praticam, em maior ou menor escala. Muitos, inclusive, sem saber mas isto não torna o seu voto menos digno do que um professor universitário. Abraço para todos. Castilho

  7. Comentou em 20/10/2010 Cristiana Castro

    Luciano e Bispo, preciso de ajuda. Já virei a CF e o código eleitoral e não encontro o art. em que o TSE baseia-se para declarar nulos os votos em candidatos cujos registros não foram aprovados. Até encontrei para as majoritárias mas, para as proporcionais, não achei nada. E, no tal de Ficha-Limpa tb não vi qq alteração nesse sentido. Vcs sabem do que se trata?

  8. Comentou em 19/10/2010 Cristiana Castro

    Castilho, o Luciano e o Bispo, levantam duas questões que eu acho fundamentais. Por enquanto, a rede, sozinha, não faz milagres. Altera, muita coisa, mas milagres, não. Toda a movimentação, onda verde, foi veiculada na grande mídia, antes de existir ou, já existindo, não na rede mas bem ao contrário, no bom e velho esquema da panfletagem, só que dessa vez, ‘subterrâneo’, uma vez que praticado pelas igrejas interna corporis. Ora, nós estamos todos na rede 24h por dia e, não recebemos nada diferente do que já vínhamos recebendo há muito tempo. Ou seja, a onda conservadora, foi resultante de ações simultâneas e, fora dos padrões, tanto assim que escapou a coordenação da campanha e aos institutos de pesquisa. Eu me explico melhor, se a rede fosse, de fato, o fiel da balança, qual o sentido em recorrer-se a panfletagem, tradicional e ao telemarketing? Esses dois intrumentos,sem a imprensa tradicional, não evoluiriam. E aí, entra a postagem do Bispo, quem é o fornecedeor dessas ‘ malas diretas’? Aqui em casa, as ordens são expressas, ninguém atende o telefone até o dia 31, deixa cair na secretária para a msg ficar gravada. Essas eleiçõs trouxeram uma novidade, colocaram no pólo ativo da disputa, quem sempre concorreu em silêncio. Ocorre que, com isso, instituições que, sequer, poderiam figurar no processo eleitoral, portam-se como eleitores, expressando-se, livremente. É complicado.

  9. Comentou em 19/10/2010 Jose de Almeida Bispo

    E por falar em boatos, os trinta milhões de sigilos quebrados pela filha do Serra e sua sócia, irmão do Daniel Dantas parece que já começa a fazer efeito: milhares de telefonemas disparados contra a candidatura da candidata governista. Mais aqui: http://www.rodrigovianna.com.br/plenos-poderes/detalhes-sobre-o-telemarketing-do-mal.html

  10. Comentou em 19/10/2010 Teócrito Abritta

    Em parte os boatos se alimentam da falta de informação e do empenho das autoridades em não apurar nada. No caso Erenice, tanto ela como Dilma já não deveriam ter sido interrogadas? Não existe mais responsabilidade para dirigentes públicos? E a imprensa? Está tão voltada para campanhas eleitorais que se esquece, por exemplo, de entrevistar Sérgio Cabral sobre o descontrole na segurança e saúde no Rio de Janeiro!

  11. Comentou em 19/10/2010 arnaldo boccato

    ‘se existe alguém, (…) que lê as notícias sobre as campanhas eleitorais que não seja de forma necessariamente crítica.’ – conheço pelo menos cinco ou seis pessoas que acreditam nos emails-corrente com fotos de crianças desaparecidas, e correntes de bons fluidos. Imagine, então, sites e blogs bem cuidados a serviço das campanhas. O boato eleitoral espalhado em ônibus, metrô sempre surtiu efeito – e alguns bem recentes foram até pilhados em flagrante e renderam condenação na Justiça Eleitoral. A Internet corre sem freio e quem é mal-intencionado usa qualquer brecha. Temos Internet em 30% dos domicílios? 35%? Quanto maior a cobertura da Internet nas residências, mais o perfil da audiência/usuário se assemelha ao da TV aberta, que, convenhamos, não é modelo de leitura crítica (a TV e o ‘usuário’). Para as pesquisas: será que a gente vai ver o nascimento de um internauta-cidadão mais crítico ou vamos ver a web se enredando na mesma teia do desconteúdo de entretenimento preguiçoso da tv aberta?

  12. Comentou em 18/10/2010 Herman Fulfaro

    O que eu me pergunto é se existe alguém, em pleno ano da graça de N. S. Jesus Cristo de 2010, que lê as notícias sobre as campanhas eleitorais que não seja de forma necessariamente crítica. Não faço a menor idéia de como seria ler os comentários, tiradas, sacadas e declarações dos candidatos, fazendo tabula rasa dos fatos, circunstâncias, perfis e os históricos de cada um, mas acho, e já disse isso claramente em outro comentário, que a expressão “voto consciente” é realmente vazia e sem sentido. O sujeito que tem consciência ou responsabilidade, bem ou mal, certo ou errado, acaba votando naquilo que em acredita, ainda que intuitivamente, naquilo que atende aos seus interesses ou naquilo que, se non è vero, è bene trovato. Aliás, nas duas coisas, ou seja, na leitura crítica e no tal do voto consciente, não estaria embutido o preconceito de que o cidadão comum, pra não falar no eleitorado mais humildade do deste país, não sabe votar???

  13. Comentou em 18/10/2010 Jaime Collier Coeli

    O item principal no rol de ‘boatos e contra-informação’ consiste justamente no embaralhamento dos procedimentos que geralmente são considerados como proprios da tradicional ‘doença infantil’. Por exemplo, como classificar o famoso golpe de judô orquestrado pela professora Zelia contra os maleficios gerados pela anterior providencia ‘direitista’ da correção monetária? Teria sido ‘esquerdista’ ou ‘direitista’? Não faltam exemplos mais atuais e até proximos do ’18 Brumario’. Afinal, no espetaculo circense que está sendo exibido pode-se muito bem exibir uma pantomima vendendo gato por lebre. Ou, o que será mais confuso, escolher entre a ‘direita’ e a ‘direita’. Com muita fé, naturalmente.

  14. Comentou em 18/10/2010 Luciano Prado

    O Castilho e inúmeros jornalistas de credibilidade reconhecida cometem, a meu juízo, equívocos que, se não superados, tornam suas críticas inconsistentes ou frágeis. O problema está em fazer a crítica sem levar em conta os interesses inconfessáveis da velha e carcomida imprensa brasileira. Como se a grande imprensa cometesse apenas erros e não pendesse para os desvios que a aproximam das condutas mais delinqüentes. Por que a velha imprensa age desesperada e criminosamente em favor de Serra? Por causa dos lindos olhos do tucano paulista? É preciso reconhecer que a imprensa brasileira anda sendo exercida pelos patrões, cujos interesses são diametralmente opostos aos da sociedade. Portanto, fazer a crítica sem analisar a prática bandida de seus patrões torna o debate falso, ou no mínimo superficial.

Código Aberto

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem