Brancos e negros: que venha a polêmica | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Brancos e negros: que venha a polêmica

Por Luiz Weis em 24/11/2005 | comentários

Na edição do Observatório da Imprensa atualizada anteontem, em artigo intitulado “Brancos e negros no Brasil: comunicando a verdade”, elogiei sem restrições a forma original e contundente que os autores do relatório ‘Racismo, pobreza e violência’, em especial o sociólogo e economista Marcelo Paixão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, encontraram para caracterizar – e fazer perceber num relance – a dimensão da desigualdade racial entre os brasileiros.

Eles criaram, estatisticamente, dois Brasís. Um só de brancos, outro só de negros e pardos. O primeiro seria o 44º país de maior progresso humano no mundo. O segundo, o 104º.

Hoje, no Globo, o colunista Ali Kamel, no artigo ‘Sensacionalismo acadêmico’ critica severamente o trabalho, a que se refere como “um cozido dos muitos estudos que nos últimos tempos tentam provar que, no Brasil, brancos dominam negros”.

Ele investe em especial contra a afirmação de que entre 1992 e 2001 o total de brasileiros brancos abaixo da linha da pobreza diminuiu 5 milhões, enquanto o de negros e pardos do mesmo estrato aumentou 500 mil.

Kamel contesta a conclusão de que só os brancos melhoraram de vida. Segundo ele, aconteceu outra coisa: como a população negra cresce mais do que a branca – 49,2% contra 31,9% a contar de 1982, segundo o IBGE – também cresceu mais, em termos absolutos, embora não proporcionalmente, o número de negros abaixo da linha da pobreza.

Ele vai mais longe. Diz que “a pobreza caiu muito mais acentuadamente entre os negros do que entre os brancos”. E ataca: “Naturalmente, o PNUD [Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, responsável pelo relatório] não fez essas contas, preferindo aquele outro recorte “sensacionalista”. Eu chamo isso de manipulação”.

É de esperar que, se não já amanhã, nos próximos dias, os autores se manifestem no Globo contestando pelo menos as pesadas acusações de sensacionalismo e manipulação.

No mérito, o debate sobre as relações raciais no Brasil, desde que calcado nos melhores dados que for possível levantar e nos melhores métodos para analisá-los, é absolutamente bem-vindo, até porque envolve a polêmica das políticas de “ação afirmativa” em benefício da população negra (e indígena), em especial a adoção de cotas raciais para o ingresso na universidade e no serviço público.

Mas, esteja certo ou errado o colunista nas suas críticas, uma coisa é inquestionável: tudo considerado, o brasileiro branco típico continua vivendo melhor do que o seu compatriota negro típico.

E a maneira de traduzir isso mostrando que lugares distantes um do outro ocupariam no mundo um Brasil exclusivamente branco e outro, exclusivamente negro, é um achado em matéria de comunicação.

***

Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/12/2005 Julio Ribeiro Xavier

    Ë muito difícil para a nossa classe dominante admitir que somos um país racista, onde os negros continuam não existindo como cidadãos. Os últimos dados de pesquisa realizada pelo MEC comprovam que as nossas universidades públicas gratuitas, que apesar de sucateadas,de acordo com dados dos doutores e mestres que compõe as direções da ANDES, ANDIFES, etc, continuam sendo o paraiso de ‘gente bem nascida de pele clara’. Esse pessoal tem fortes razões para acreditar na nossa ‘Democracia Racial’.

  2. Comentou em 27/11/2005 Joao Carlos

    A leitura de dados por estudiosos ou jornalistas salienta ou destitui de interesse em sua análise aquilo que desqualifica sua opinião própria, antes de fazermos uma leitura parcial do que nos interessa desses dados (PNAD no caso) temos que ver o racional do fato. E a lógica é que devemos investir mais que tudo em EDUCAÇÃO, sem demagogia ou questão racial, devemos favorecer o estudo e assim sairemos da política petista de ‘ser assistido’ para a política do cidadão a ‘fazer por si mesmo’.

  3. Comentou em 25/11/2005 Rogério Barreto Brasiliense

    Como cidadão brasileiro de cor negra estou farto de tanto debate, tantas pesquisas, tantas reposrtagens que na verdade é uma grande enxugação de gêlo, quero ações efetivas no sentido de que o oceano que separa os maiores grupos étnicos que compõem o Brasil seja diminuido.
    O sonho de Luther King no Brasil é um grande pesadelo.

  4. Comentou em 25/11/2005 Jayme Barbarisi

    Esta faltando é coragem para enfrentarmos as diferenças dos vários países que compõem este país. Quando o assunto afunila e temos que tratar de frente as diferenças, saimos pro samba, para as desculpas do tipo, mas lá fora é tambem assim e assim vamos nos iludindo a todos e o pior a nós mesmos. Está na hora de voltarmos a ter filosofia como matéria na pré universidade.
    A crise é de não pensar, independente se é branco ou negro.

  5. Comentou em 24/11/2005 Rikene Fontenele

    A conclusão do blogueiro: ‘tudo considerado, o brasileiro branco típico continua vivendo melhor do que o seu compatriota negro típico’. Se for só isso, então o relatório não tem nada que nenhum brasileiro não saiba.

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