Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Brasil atômico

Por Mauro Malin em 13/02/2006 | comentários

O presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear, Odair Gonçalves Dias, disse hoje que a comparação entre o início de funcionamento da usina brasileira de enriquecimento de urânio e os problemas em face do Irã, feita em reportagem publicada sábado pelo jornal americano San Jose Mercury News, não preocupa porque a reportagem não foi tendenciosa e registrou claramente que o Brasil tem bom conceito junto à comunidade internacional.


A abertura da notícia do Mercury News mais provoca preocupação do que suscita orgulho. Em tradução livre:


Às vésperas de se tornar uma potência nuclear. Enquanto a comunidade mundial vigia de perto o programa nuclear do Irã, o maior país da América Latina está a semanas de adotar um controvertido passo e colocar em funcionamento a primeira grande usina de enriquecimento de urânio. O Brasil se tornará o nono país a produzir grandes quantidades de urânio enriquecido.”


Assinada por Jack Chang, da cadeia Knight Rider, sua origem é o Rio de Janeiro, onde foi ouvido o presidente da CNEN. O texto pode ser lido aqui (requer cadastramento).


Lida hoje (13/2), num dia de manchetes assim: “Ataque ao Irã mataria milhares, diz estudo” (Folha), ou “Prontos para outra guerra” (JB), preocupa.


Em dezembro de 2003, o The New York Times publicou reportagem na qual informava que o Brasil se recusava a aceitar inspeções nas instalações nucleares do país sem aviso prévio. O pomo da discórdia era a usina de enriquecimento de urânio de Resende, Rio de Janeiro. Houve uma séria controvérsia e só em novembro de 2004 foi aprovado um plano de inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

O Observatório da Imprensa ouviu o presidente da CNEN para saber se a notícia, da maneira como foi redigida, causou alguma preocupação.


Na reportagem, a tônica está colocada numa situação de conflito, e não num contexto de entendimento. Isso chama a atenção.


Odair Gonçalves Dias – A rigor, o Brasil só entrou nessa discussão porque existe a discussão com o Irã. A discussão com o Irã é muito presente. Existem, não governos, mas instituições, principalmente não governamentais, que usam a questão que existe em relação ao Irã para colocar suspeita sobre qualquer outro programa que se dedique ao enriquecimento, ou que seja emergente. Como a reportagem coloca, a gente está entrando num clube muito seleto, e claro que tem montes de interesses envolvidos. Esses interesses não são de países. Em nenhum instante o Brasil está sob suspeita, seja da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), seja dos Estados Unidos ou de qualquer outro país. Acho que a reportagem foi acurada. Mas esse argumento quase sempre surge. Por isso acaba sendo uma matéria internacional. A notícia do enriquecimento no Brasil seria só uma notícia de sucesso se não fosse o caso do Irã.


Na sua visão, portanto, o enfoque dado pelo jornalista foi adequado.


O.G.D. – Eu preferia que fosse só a notícia de sucesso do Brasil. Mas acho que, do ponto de vista jornalístico, ele está respondendo a uma demanda que existe em termos de outras notícias internacionais. Desse ponto de vista, ele acaba sendo fiel. Ele está sendo quase neutro, digamos assim. Colocando prós e contras e ressaltando aspectos positivos da coisa brasileira. Eu gostei da reportagem? Eu preferia continuar fazendo meu trabalho aqui tranqüilo. Essa notícia levanta o outro lado, coisas que a gente preferia não ter que ficar respondendo toda hora. Nós já respondemos constantemente. Algum tempo atrás teve uma crise, desencadearam uma campanha, e a gente, com tranqüilidade, foi respondendo a todas as questões. Não tenho controle, e nem é para ter, sobre qualquer coisa que saia na imprensa. Eu diria que ele não foi tendencioso.


Minha sensação, ao ler, foi: Está recolocada a questão. Daqui a duas semanas aparece: “O Brasil voltou a ameaçar…”


O.G.D – Eles não vão colocar “voltou a ameaçar”, mas esse tipo de campanha vai ressurgir de tempos em tempos, porque tem interesses que não querem que a gente faça. Nesse ponto, estamos muito tranqüilos, porque não temos nada a esconder. Nem qualquer tipo de preocupação com denúncias, porque não tem o que denunciar. Estamos fazendo tudo “by the book”, tudo direitinho.


Não seria o caso de um governo brasileiro – e não se trata aqui de governo Lula, A ou B ou C, é um problema já de muito tempo – fazer um esclarecimento, procurar a mídia para contra-arrestar essas manifestações de interesses adversos? O governo brasileiro parece sempre na defensiva: “Não apanhei, que bom, só me xingaram”. Poderia convocar jornalistas do mundo inteiro e explicar tudo de novo…


O.G.D – Temos feito isso. Recentemente convidamos todos os meios, jornalistas estrangeiros, mas infelizmente a procura foi muito pequena. A coisa vai pela temperatura. O que está quente atrai. Eu gostaria de ver uma campanha, sim. O Ministério da Ciência e Tecnologia está trabalhando numa campanha de energia nuclear e ciclo de combustível. Temos também estudos sobre uma reestruturação do programa nuclear, uma retomada. No mundo inteiro, hoje, existe uma volta muito grande à energia nuclear. O problema ambiental e outros geraram no mundo inteiro uma retomada, porque a energia nuclear produz só vapor d´água. E a questão do resíduo, que sempre foi o grande argumento contrário, cada vez se estuda mais, novas possibilidades aparecem. Os mecanismos de controle dos resíduos são muito grandes. Hoje certamente é uma das opções mais seguras, baratas e limpas para a produção de energia elétrica. Nós temos nos preocupado com isso, temos planos e estamos preparando uma grande campanha de esclarecimento nessa área.

Todos os comentários

  1. Comentou em 25/03/2006 DIRCEU MARKOWICZ

    Flávio, você falou tudo certo a respeito dessa vergonha mundial que se chama estados unidos da américa, que vivem as custas do suor do resto do mundo.

    Ass: Dirceu Antonio Markowicz

  2. Comentou em 15/02/2006 Flavio Markowicz

    A respeito dos resíduos, posso dizer que o Brasil tem tecnologia e vontade para tratá-los da melhor maneira possivel. Moro próximo ao CDTN/CNEN, que fica no campus da UFMG, e já tive oportunidade, enquanto graduando de engenharia, de visitar as instalações. O trabalho realizado é de primeira qualidade, com todas as medidas de segurança necessárias para a segurança dos funcionários e vizinhos. Não creio que o tratamento dos resíduos seja problema. Também lamento o acontecido em Goiânia, ocasionado pelo descaso da proprietária do equipamento e também por uma má fiscalização do órgão responsável, mas que foi útil para que este último revisse suas diretrizes no que diz respeito à fiscalização. As usinas de Angra, apesar da tecnologia obsoleta, trabalham sem incidentes devido à grande responsabilidade com a qual são operadas. E é indiscutivel o rumo que as fontes energéticas estão tomando. Mesmo os que são contra a energia nuclear concordam que uma usina nuclear causa menos impactos e geram menos poluição que usinas hidraulicas ou térmicas. Caso os resíduos sejam tratados com responsabilidade, não há por que não se adotar este tipo de geração. Principalmente pelo fato que os aproveitamentos hídricos estão se esgotando e o petróleo tambem.

  3. Comentou em 14/02/2006 Marcos Simões

    Alguém já disse aí embaixo que o Brasil precisa da energia nuclear e também de artefatos atômicos. Eu concordo. Só assim, sendo possuidor da bomba atômica, o País será chamado de parceiro, e não como subdesenvolvido ou quintal dos países ricos. Antes disso, a política entreguista deveria ser banida da vida pública nacional. Algo muito mais difícil.

  4. Comentou em 14/02/2006 Wagner Dantas Viana

    O que mais me preocupa é a falta de cuidado/capacidade do Brasil para cuidar deste tipo de material. Ou será que algém tem dúvida que teremos problemas de armazenamento para estes resíduos? Não podemos esquecer do caso Goiânia, com o descaso no trato do Césio 137. Concordo que o Brasil tenha o direito de buscar alternativas energéticas e também o progresso científico, porém é preciso muito cuidado no trato da matéria. É sabido o desejo dos militares de possuir um submarino nuclear, então minha preocupação é que o projeto de energia nuclear civil seja desviado para uso militar. Não podemos esquecer ainda do caso da explosão da base espacial brasileira, em que a comunidade internacional não se posicionou a favor do Brasil na conquista desta tecnologia. E quem garante que o Brasil, em seus arroubos de ‘pai do pobres’, não vá fornecer a tecnologia de produção de energia nuclear para outros países por considerar um direito de todos? Ao mesmo tempo que busca e conquista estas tecnologias, o Brasil precisa definir melhor sua política externa. Não adianta querer ‘peitar’ os grandes do mundo e achar que eles irão ceder e nos dar uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. O Brasil precisa entender que deve agir com mais inteligência se quiser conseguir entrar no mundo do dominio nuclear, sem sofrer contestações ou retaliações de qualquer tipo.

  5. Comentou em 14/02/2006 José Eduardo Camargo

    Saudações!
    Tenho uma pergunta simples a fazer: Será que essa tal Agência Internacional de Energia Nuclear tem mesmo poder para inspecionar também as usinas dos EUA, Grâ-Bretanha, França, Rússia e outros? Sinceramente, duvido!

  6. Comentou em 14/02/2006 Evilásio Santos de Souza

    Qualquer ingerência que o Brasil faz no campo de descobertas atrai a atenção de potências estrangeiras, em grande parte por perdas de mercado e conseqüentemente interesses de grandes corporações vão querer prevalecer sempre sobre o controle de tecnologias, principalmente a do urânio enriquecido.

  7. Comentou em 14/02/2006 Flaivo Markowicz

    O governo americano quer ser o Império, assim como no filme. Faz as vezes de bonzinho até o momento em que tiver condições para assumir o controle de tudo. Acredito que a invasão do Afeganistão nada mais era do que pretexto para assumir o controle dos oleodutos que atravessam o país, bem como no Iraque o motivo eram os campos petrolíferos. Até onde sei o programa nuclear chama a atenção dos gringos por ser uma tecnologia revolucionária mais barata que as convencionais hoje utilizadas pelos outros países. Discordo do comentário do Mauro quando ele diz que o mundo deve deixar os EUA em paz, visto que em geral são eles que botam o dedo no olho dos outros e não aceitam serem fiscalizados haja vista o tratado de Kioto, que os ‘mocinhos do mundo’ se recusaram a assinar. Será que eles só podem fazer bem ao mundo mandando exércitos? Ou será que isso é pq o PIB deles está baseado na industria da guerra? Queira Deus que um dia o mundo seja uma utopia onde todos possam exercer suas profissões com dignidade e vivam tambem com dignidade, sem que a fome mate seu irmão ou uma bala mate seu filho.

  8. Comentou em 14/02/2006 Eduardo Borges

    No dia em que usina de enriquecimento de urânio brasileira estiver funcinando em escala industrial, fabricar a bomba atômica será apenas uma questão de decisão política. O ajuste técnico necessário para aumentar o grau de enriquecimento ao nível necessário para a construção do artefato explosivo é relativamente simples e de total domínio dos cientistas brasileiros e o mesmo vale para os demais aspectos envolvidos na fabricação da bomba em si. Casada com o programa espacial, essa capacidade de fazer a bomba projeta para o futuro também a possibilidade do Brasil contar com a capacidade de levar esta bomba a qualquer lugar do planeta alojada em um míssel balístico. Negar isso é negar o óbvio. Se o Brasil vai fazer ou não, vai depender de em algum momento quem estiver ocupando o poder julgar que isso seja necessário. O futuro a Deus pertence. Hoje certamente não faria, dada a qualidade da atual inserção brasileira na comunidade internacional e os tratatos vigentes. Os atuais integrantes do clube atômico fazem e vão continuar fazendo de tudo para nos impedir de chegar lá. Já explodiram nosso foguete junto com os cientistas que nele trabalhavam (provas ninguém achou mas essa é a intuição que tenho) e nada evitará que algum ‘acidente’ igualmente grave se dê numa de nossas instalações nucleares para retardar ao máximo que cheguemos aonde não querem que cheguemos.

  9. Comentou em 14/02/2006 Gilberto Rufino

    Acredito que o Brasil está no caminho certo, no que diz respeito a energia limpa, e acredito também que o pais para ter respeito e reconhecimento juntos aos organismos internacionais deve ter pelo menos o domínio e a posse de artefatos nucleares, para uso estratégicos e de defesa, assim seríamos respeitados e tratados como fortes e não fracos nas questões internacionais e principalmente no que diz respeito a soberania territorial firmando uma nação indivisível.

  10. Comentou em 14/02/2006 Antuérpio Pettersen Filho Pettersen Filho

    OS AIATOLÁS ATÔMICOS: “A ÍRA DO IRÔ Por: Pettersen Filho Advém dos primórdios do cristianismo, desde a entrega ao profeta das tábuas sagradas, a rivalidade religiosa entre islâmicos, cristãos e judeus. Enfim, entre Oriente e Ocidente, passando na Idade Média pelas Cruzadas Religiosas, quando o Papa conclamou todos os reis cristãos da época a que formassem comitivas para combater o crescente paganismo e as heresias no médio-oriente, e que tomassem a “Cidade Santa” de Jerusalém, hoje nas mãos do Estado de Israel. Contemporaneamente, mais precisamente ontem, resolveram as ditas superpotências européias, Alemanha, França e Inglaterra, submeterem o Irã, através da AIEA – Agência Internacional de Energia Atômica, e o seu sinistro programa atômico, ao nefasto Conselho de Segurança da ONU – Organização das Nações Unidas. O lado obscuro, e até mesmo interessante, dessa manobra, no entanto, é que ela, desta vez, não foi patrocinada oficialmente pelos Estados Unidos, que apenas articularam nos bastidores do órgão, já que estes se encontram bastante desgastados, desde a invasão do Afeganistão e do Iraque, eminentes vizinhos do Irã, a pretexto do programa de eliminação de armas de destruição em massa, inexistente….

  11. Comentou em 14/02/2006 Fabio de Oliveira Ribeiro

    Hoje pela manhã ao ver o noticiário sobre o conflito entre EUA e Irã, me dei conta de que toda minha vida pode ser dividida levando em conta as guerras externas americanas. Nasci em 1964 e minha primeira infância foi toda moldada pelo noticiário da Guerra do Vietnã. Quando cheguei à 5ª série em 1974, durante o auge da Guerra Fria, éramos vítimas do pânico nuclear. Durante minha adolescência os noticiários foram dominados pelas intervenções militares americanas em Granada, Nicaragua, El Salvador e Panamá. Casei em 1991, ano em que foi deflagrada a Guerra do Golfo. Separei-me em 1996 pouco antes do Bill Clinton autorizar aquela c… no Sudão, em que aviões americanos destruíram a fábrica de remédios de Al-Shifa. Em 2001 acabava minha segunda Faculdade enquanto os gringos bombardeavam a Bósnia. Há três anos os noticiários só falam das guerras americanas no Iraque, Afeganistão e agora Irã. Segundo as estatísticas tenho pouco mais de 20 anos de vida. Gostaria de passar pelo menos uma década da minha vida sem me preocupar com guerras, mas para isto os americanos teriam que deixar o mundo em paz. Será que isto é possível?

  12. Comentou em 14/02/2006 Célio Mendes

    O acordo internacional para não proliferação de armas nucleares impede que seus signatarios utilizem a tecnologia nuclear para desenvolver armamentos, é um acordo sensato que tenta impedir a banalização do uso de tais armas, que por sinal só foram utilizadas em ataques duas vezes pela maior potencia do planeta. Ocorre que em troca as grandes potencias assumiram o compromisso de reduzir seus arsenais o que não ocorreu na pratica, e o que é mais preocupante ainda é que a atual administração americana tem planos de ‘modernizar’ o arsenal incluindo ai a criação de novos tipos de armas de efeito mais limitado e utilizaveis em conflitos de menores proporções o que é justamente uma das coisas que o acordo internacional contra a proliferação quer evitar, isso me parece uma contradição e eu ainda não vi a midia americana se posicionar contra esta iniciativa.

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