Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Brasil atômico

Por Mauro Malin em 13/02/2006 | comentários

O presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear, Odair Gonçalves Dias, disse hoje que a comparação entre o início de funcionamento da usina brasileira de enriquecimento de urânio e os problemas em face do Irã, feita em reportagem publicada sábado pelo jornal americano San Jose Mercury News, não preocupa porque a reportagem não foi tendenciosa e registrou claramente que o Brasil tem bom conceito junto à comunidade internacional.


A abertura da notícia do Mercury News mais provoca preocupação do que suscita orgulho. Em tradução livre:


Às vésperas de se tornar uma potência nuclear. Enquanto a comunidade mundial vigia de perto o programa nuclear do Irã, o maior país da América Latina está a semanas de adotar um controvertido passo e colocar em funcionamento a primeira grande usina de enriquecimento de urânio. O Brasil se tornará o nono país a produzir grandes quantidades de urânio enriquecido.”


Assinada por Jack Chang, da cadeia Knight Rider, sua origem é o Rio de Janeiro, onde foi ouvido o presidente da CNEN. O texto pode ser lido aqui (requer cadastramento).


Lida hoje (13/2), num dia de manchetes assim: “Ataque ao Irã mataria milhares, diz estudo” (Folha), ou “Prontos para outra guerra” (JB), preocupa.


Em dezembro de 2003, o The New York Times publicou reportagem na qual informava que o Brasil se recusava a aceitar inspeções nas instalações nucleares do país sem aviso prévio. O pomo da discórdia era a usina de enriquecimento de urânio de Resende, Rio de Janeiro. Houve uma séria controvérsia e só em novembro de 2004 foi aprovado um plano de inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

O Observatório da Imprensa ouviu o presidente da CNEN para saber se a notícia, da maneira como foi redigida, causou alguma preocupação.


Na reportagem, a tônica está colocada numa situação de conflito, e não num contexto de entendimento. Isso chama a atenção.


Odair Gonçalves Dias – A rigor, o Brasil só entrou nessa discussão porque existe a discussão com o Irã. A discussão com o Irã é muito presente. Existem, não governos, mas instituições, principalmente não governamentais, que usam a questão que existe em relação ao Irã para colocar suspeita sobre qualquer outro programa que se dedique ao enriquecimento, ou que seja emergente. Como a reportagem coloca, a gente está entrando num clube muito seleto, e claro que tem montes de interesses envolvidos. Esses interesses não são de países. Em nenhum instante o Brasil está sob suspeita, seja da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), seja dos Estados Unidos ou de qualquer outro país. Acho que a reportagem foi acurada. Mas esse argumento quase sempre surge. Por isso acaba sendo uma matéria internacional. A notícia do enriquecimento no Brasil seria só uma notícia de sucesso se não fosse o caso do Irã.


Na sua visão, portanto, o enfoque dado pelo jornalista foi adequado.


O.G.D. – Eu preferia que fosse só a notícia de sucesso do Brasil. Mas acho que, do ponto de vista jornalístico, ele está respondendo a uma demanda que existe em termos de outras notícias internacionais. Desse ponto de vista, ele acaba sendo fiel. Ele está sendo quase neutro, digamos assim. Colocando prós e contras e ressaltando aspectos positivos da coisa brasileira. Eu gostei da reportagem? Eu preferia continuar fazendo meu trabalho aqui tranqüilo. Essa notícia levanta o outro lado, coisas que a gente preferia não ter que ficar respondendo toda hora. Nós já respondemos constantemente. Algum tempo atrás teve uma crise, desencadearam uma campanha, e a gente, com tranqüilidade, foi respondendo a todas as questões. Não tenho controle, e nem é para ter, sobre qualquer coisa que saia na imprensa. Eu diria que ele não foi tendencioso.


Minha sensação, ao ler, foi: Está recolocada a questão. Daqui a duas semanas aparece: “O Brasil voltou a ameaçar…”


O.G.D – Eles não vão colocar “voltou a ameaçar”, mas esse tipo de campanha vai ressurgir de tempos em tempos, porque tem interesses que não querem que a gente faça. Nesse ponto, estamos muito tranqüilos, porque não temos nada a esconder. Nem qualquer tipo de preocupação com denúncias, porque não tem o que denunciar. Estamos fazendo tudo “by the book”, tudo direitinho.


Não seria o caso de um governo brasileiro – e não se trata aqui de governo Lula, A ou B ou C, é um problema já de muito tempo – fazer um esclarecimento, procurar a mídia para contra-arrestar essas manifestações de interesses adversos? O governo brasileiro parece sempre na defensiva: “Não apanhei, que bom, só me xingaram”. Poderia convocar jornalistas do mundo inteiro e explicar tudo de novo…


O.G.D – Temos feito isso. Recentemente convidamos todos os meios, jornalistas estrangeiros, mas infelizmente a procura foi muito pequena. A coisa vai pela temperatura. O que está quente atrai. Eu gostaria de ver uma campanha, sim. O Ministério da Ciência e Tecnologia está trabalhando numa campanha de energia nuclear e ciclo de combustível. Temos também estudos sobre uma reestruturação do programa nuclear, uma retomada. No mundo inteiro, hoje, existe uma volta muito grande à energia nuclear. O problema ambiental e outros geraram no mundo inteiro uma retomada, porque a energia nuclear produz só vapor d´água. E a questão do resíduo, que sempre foi o grande argumento contrário, cada vez se estuda mais, novas possibilidades aparecem. Os mecanismos de controle dos resíduos são muito grandes. Hoje certamente é uma das opções mais seguras, baratas e limpas para a produção de energia elétrica. Nós temos nos preocupado com isso, temos planos e estamos preparando uma grande campanha de esclarecimento nessa área.

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