Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

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Brasil de ponta-cabeça

Por Luiz Weis em 06/03/2007 | comentários







Marcos Tristão/Agência O Globo


As lágrimas escorrendo pela pele negra do rosto, a dor e o desespero nos olhos injetados, quatro pulseiras de plástico no braço esquerdo.


É a imagem, candidata desde já a qualquer prêmio internacional de fotojornalismo, captada ontem cedo no Rio por Marcos Tristão. Está na primeira página do Globo e da Folha de hoje.


A personagem da foto é Edna Ezequiel, 29 anos. A filha Alana, 12, morreu de uma bala perdida durante uma operação da PM no morro dos Macacos, zona norte carioca. Alana tinha acabado de deixar a irmãzinha de 2 anos na creche. Voltava para casa, de onde iria para a escola.


Uma das pulseiras de Edna traz, sobre fundo verde, a estampa da bandeira do Brasil. Prestando atenção, dá para ver que a bandeira está de ponta-cabeça.


Mas nem precisaria prestar atenção, não é mesmo?


***


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Todos os comentários

  1. Comentou em 10/03/2007 Marco Costa Costa

    A polícia foi inventada para prender o delinquente, não para sair pôr ai trocando tiro com quem quer que seja, mesmo que a bala atinja a cabeça daquele que não tem nada a ver com esta história.

  2. Comentou em 08/03/2007 Eduardo Quadros Quadros

    Mais uma vez imagens como essa mostra-nos que bala perdida é só na cabeça das pessoas… A menina Alana com muito pesar esta nos mostrando isso.Perdida so no nome.

  3. Comentou em 08/03/2007 Francisco Chagas

    ‘…uma foto de colorido negro, é uma foto de uma negra e sua bela e solitária dor’… Sr. Nelson, quer dizer que a dor pode ser bela? Que tipo de beleza pode existir nessa dor?

  4. Comentou em 07/03/2007 ubirajara sousa

    José Antônio Oliveira, espero que, como jornalista, você possa dar curso a esse seu raciocínio.

  5. Comentou em 07/03/2007 José Antonio Oliveira

    Essa história de bala perdida é rídicula. Que impôrtancia tem saber de onde partiu o tiro fatal? De um lado temos a polícia, do outros os bandidos, entre eles os cidadãos. Numa troca de tiros vai sobrar, sempre, pra quem? Muitas dessas operações policiais não são programadas? Quem programou e autorizou a operação considerou que era irrelevante o fato destes confrontos diretos acontecerem em locais onde existem cidadãos que poderão ser atingidos. Não existe outra maneira de prender criminosos? Onde a cúpula polícial busca inspiração? Nos filmes policiais americanos? Não seria melhor mudar de técnica ? Ou será que não existe outra maneira? Ou não seriam aplicáveis, por alguma peculiaridade, no Brasil? Para mim, em todos confrontos, em uma ação policial programada, em que a presença de cidadãos no meio do tiroteio for desconsiderada, o tiro fatal partiu da arma da autoridade que programou , autorizou e dirigiu a operação.

  6. Comentou em 07/03/2007 Cecilia Paiva

    Os olhos sempre voltados para o proprio umbigo, em que todos lutam pela sobrevivencia e choram a sua sorte. Todos, até os conquistadores, lamentam por suas conquistas. a tal doença do século está aí. no proprio umbigo que só deixa de ser o centro quando explode. a começar pela imprensa e o seu maior responsavel, o jornalista que só cuida da pauta do momento, agora em capitulos, humanizam a imprensa nas vitimas. Rio, São Paulo e Brasília: O Eixo. Nada mais surge neste Solo-Brasil, em suas cidades e outras capitais. A imprensa está cega, seus meios reproduzem as cronicas, materias, temas, procuram filhotes que exemplificam, no local, o que acontece na área geografica brasileira mais falada. É a guerra civil no Rio, é o eixo do mal que impera com seus braços em todo o Brasil. O jornalismo é obrigado a falar dessa triplice entente geográfica? e as mortes sequenciadas da fronteira, da terra sem lei, de Capitan Bado, de Ponta Porã, Puerto Suarez, das portas do ir e vir da cocaína, das armas pesadas? que jornalista que vive modificando realidades, entra na vida desse rosto, que de anônimo, sem defesa lembra um tal jornalismo investigativo? Cadê o rosto do grande vilão? Mostrá-lo faz o jornalista ser atropelado e cavar sua propria sepultura. Impera o despreparo e todos ecoam lamentos, incentivos à omissão de quem pode agir. Essa capa vai acionar o que? Lágrimas.

  7. Comentou em 07/03/2007 Sérgio Val Mor Chicato

    A bandeira está de ponta-cabeça sim! Mas quando o braço ficar na posição normal, a bandeira também ficará. O Brasil está de ponta-cabeça! Decididamente algo não funciona. O Rio como o braço da mãe, está – acredito que momentaneamente – de ponta-cabeça. Resido e Trabalho em Taió. O mesmo Taió que a Bruna disse ser o interior do interior. Mas assistindo a televisão, lendo os jornais, rogo, que aqui jamais deixe se ser uam cidade do interior. Em outra análise aqui mesmo no OI, disse que não acreditava e, continuo não acreditando, nas medidas de repressão para resolver este problema tão perto da casa dos senhores. Os senhores precisam implementar urgentemente a idéia da descontrução social vigente. Como a fênix renascida das cinzas, este Rio de Janeiro precisa se descontruir. Disse e repito, pelos mecanismos de repressão do Estado não se muda o comportamento das pessoas. O Ro de Janeiro é um celeiro de inteligências e competências múltiplas. Basta que estas inteligências deixem de lado a concepção de que as partes são maiores do que o todo. O Rio é um paradoxo. Acidade maravilhosa perde a cada dia seu it. Em seu lugar a desconfiança, o choro e a certeza de que não só a bandeira está invertida. Invertida também está a concepção de valores.

  8. Comentou em 07/03/2007 Mauro Miranda

    No olho esquerdo, a dolorosa lágrima de uma mãe-nação inconformada. No direito, a dor misturada com ira, de uma mãe-nação revoltada com a falta de autoridade social. Parabéns Marcos Tristão. Em seu sobrenome, o nosso sentimento maior. Em sua sensibilidade fotográfica, a nossa esperança. Pobre Brasil!

  9. Comentou em 07/03/2007 Fabio de Oliveira Ribeiro

    Edward Gibbon escreveu um clássico sobre o fim do Império Romano. Sua obra deveria ser lida pelos jornalistas brasileiros que captam nossa realidade cotidiana mas não são capazes de meditar sobre suas conseqüencias. Em DECLÍNIO E QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO, vemos como a indiferença e depois o desprezo pela ‘cidadania romana’ ocupou um papel de destaque durante o longo período de declínio que culminou com o saque a Roma. O que ocorreu ao Império Romano é prova suficiente de que nenhuma civilização resiste à pressão do desinteresse cívico de seus próprios cidadãos. Nesse sentido, a grande questão que a foto sugere é a seguinte: porque a mulher da foto ainda usa um bracelete com a bandeira do país que a ignora?

  10. Comentou em 07/03/2007 SALOMÃO SOUZA FEITOSA

    ESSA FOTO DIZ TUDO QUE O BRASILEIRO QUER DIZER: ESTAMOS DESINLUDIDOS… DESPROTEGIDOS DE SEGURANÇA E JUSTIÇA!

  11. Comentou em 07/03/2007 Giana Guterres

    Perfeita a foto… Consegue retratar a dor e os sentimentos de mais uma mãe vítima da violência. Um retrato real da triste realidade que vivemos em nosso país na atualidade com tanta violência.

  12. Comentou em 07/03/2007 Elisandra Amancio

    O que dizer diante de uma imagem dessas? Ela já diz tudo!

  13. Comentou em 06/03/2007 Nilton Santos

    Amics,
    A desgraça é que produzimos inúmeras mães com essas ‘nesse’ país. As autoridades atordoadas assistem pasmas e sem ter o que fazer, não parece??
    Nilton

  14. Comentou em 06/03/2007 Jarbas Cunha

    Não sabemos até quando a nossa sociedade vai suportar essa falta de atitude política, mas graças a mídia fatos como o de Alana tocam os corações das famílias e rompem fronteiras a fora, mostrando o horror do povo brasileiro. Se por um lado é desolador por outro mostra um governo impotente e insensível à realidade. Meu Povo cobrem de seus representantes ação imediata, exijam dele um compromisso real, sem conversa filosófica. O momento é o agora, amanhã será mais e mais Alanas.

  15. Comentou em 06/03/2007 marina chaves

    de fato, o brasil está de ponta cabeça e já faz tempo….. mãe, tem toda a minha solidariedade…

  16. Comentou em 06/03/2007 nelson perez de oliveira junior

    Vamos filosofar, monologar, para deleite do DINES e do OI. É uma foto de colorido negro, é uma foto de uma negra e sua bela e solitária dor. Chamem o DINES chamem, O JANINE, os BEM PENSANTES E BEM FALANTES, chamem os brancos hipócritas para ver que pobre morre a bala, bala perdida, teleguiada pela cobiça, pela exclusão, pela usura e pelo privilégio de uma elite BRANCA, ARRIVISTA, EGOÍSTA, MAL EDUCADA E MAL ACOSTUMADA. Pobre morre com bala de polícia é protegida e também morta por criminosos, não importa, o pobre é cercado de criminosos por todos os lados, e a ELITE BRANCA rouba o seu futuro e suas oportunidades. Enquanto o GRANDE PAI BRANCO CHORA SUAS MÁGOAS EM ARTIGOS FILOSÓFICOS NO JORNAL, A NEGRA CHORA SEU SILENCIO AO SOM DE SUA DOR SURDA BUMBANDO DENTRO DO PEITO. Parabéns DINES, parabéns JANINE
    ainda há realidade para desmenti-los.

  17. Comentou em 06/03/2007 Cesar Gonçalves

    Amanhã nem do nome dela lembraremos mais. Este mesmo veículo que nos faz saber se encarregará de nos fazer esquecer. Somos manipulados de caso a caso. Não temos mais entranhas. Sim, ficamos todos incensíveis; sem amor. Tiraram o nosso coração e nos deixaram vivos. Senhor, livra-nos da mídia e trás de volta o nosso coração!

  18. Comentou em 06/03/2007 Chris Vila Nova

    Espero que a fotografia tenha o poder de comprometer pelo olhar, sensibilizar pelo toque da lágrima. Que cada um possa fazer sua parte para diminuir a violência vivenciada nos últimos dias.

  19. Comentou em 06/03/2007 Samira Moratti

    Infelizmente a violência está demais. Mas a verdade é que sempre esteve. Infelizmente – não que seja redundância – a violência começou a incomodar a sociedade, ou parcela dela, depois que atentados ocorridos contra moradores de classe alta começaram a despontar nos telejornais. Mas antes dessa tragédia, milhares de pessoas morriam, desenfradamente, nas favelas espalhadas pelo país, e pouco ou quase importância nenhuma se dava, pois era mais ‘um pobre’ que morria. Felizmente, isso também está começando a aparecer para a toda a sociedade, para que haja uma conscientização, não só do governo – que é sua obrigação garantir a segurança pública – mas de todos nós, que muitas vezes julgam menos importante o genocídio na África ou o assassinato de poucas pessoas, moradoras de um morro qualquer nesse país parabéns pelo texto, publicado em uma hora mais que correta. Abs.

  20. Comentou em 06/03/2007 Paulo José Cunha Cunha

    Meu caro Luiz Weis,

    Veja que coincidência: na edição de hoje do ‘Primeira Página’, programa matutino (8 da manhã, de 2ª a 6ª) na TV Câmara, fiz uma menção toda especial a essa foto. Não comentei, não disse mais do que diz a própria foto (e como diz, e como diz tudo, e como dói, e como revolta!). Sei que é um lugar mais que comum mas, me diga aí, amigo: onde é mesmo que vamos parar, do jeito que as coisas andam? Receba o abraço do Paulo José Cunha

  21. Comentou em 06/03/2007 Polliana Coelho

    Merece um ESSO, um WORLD PRESS, um Pulitzer. E a vítima o que merece?
    Espero que essa imagem não apenas ganhe prêmios, mas também possa transformar essa nossa triste realidade.

  22. Comentou em 06/03/2007 Alfredo Moles

    Solo puedo sentir rabia y dolor.
    Inmensa pena por meu Rio…..

  23. Comentou em 06/03/2007 Karina Carvalho

    É uma imagem triste e marcante. Não podemos aceitar que esse tipo de coisa se torne normal. Fechar os olhos não é a solução.

  24. Comentou em 06/03/2007 Marco Costa Costa

    Não existe bala perdida. Na realidade o que existe é infância perdida no meio de uma guerra cível, que os caolhos dos governantes não querem enxergar. Às crianças, os adolescentes e os jovens em geral estão entregues a própria sorte. Sorte esta de não serem atingidos pôr balas dos bandidos fora da lei, bem como aqueles que deveriam zelar pela segurança da população carente. Contudo, foto não ganha jogo, a não ser o fotografo que tirou alguns dividendos e seu patrão que ficou com a parte do leão.

  25. Comentou em 06/03/2007 Ligia Catão

    De fato, a foto do colega Marcos Tristão é merecedora de prêmio. Mas não é só o país que está de ponta-cabeça. A imagem revela uma expressão maternal também inversa ao usual: um misto de dor e revolta contida.

  26. Comentou em 06/03/2007 Stela Martins

    Diante dos vários fatos (morte, dor, impunidade, preconceito) retratados na imagem que importam os pensadores de plantão? O artigo do filósofo, do funcionário público, da autoridade podem interromper a lágrima e a dor da mãe ? E nós? Vamos agir contra o ‘ninguém faz nada’ ? Somos todos responsáveis pela situação atual e o que fazemos além de criticar e reclamar? Ao artista responsável pela imagem: parabéns!

  27. Comentou em 06/03/2007 Paulo Mora

    Seria um caso de defender a vingança ? Não, né, a menina era pobre, negra e não foi morta por um ‘dimenor’. Não tem filósofo para falar por ela.

  28. Comentou em 06/03/2007 Edir Gillet

    Nós, jornalistas, vibramos com um furo ou uma foto/imagem. Logo em seguida cai a ficha : caramba, a mãe está sofrendo. A beleza plástica se mistura ao factual da morte, as indagações morais e legais. Meus parabéns ao fotógrafo. Meus pêsames a mãe.
    Edir Gillet
    Assessor de Imprensa Governadora Ana Júlia Carepa – Pará

  29. Comentou em 06/03/2007 tony knopp

    a picture is worth one thousand words and in this case none are necessary – well stated

  30. Comentou em 06/03/2007 Maria Luiza Santana Lobo

    Mais uma loba chora a perda de sua cria. Os lamentos – uivos silenciosos – se juntam no ar. Lamentos daquelas que, se pudessem, se atirariam contra os algozes de suas crias, como lobas feridas de morte. Não a sua, posto que esta já não a assusta.

    Mas a tenra morte, anacrônica morte, adiável, extemporânea, inacreditável morte prematura.

    Mais um ícone de nossos tempos desagregados, desgraçados, desesperançados, acrescido aos tantos outros, já esquecidos e não-vingados. As imagens do pequeno menino-joão são superpostas, agora, pelas imagens mais nítidas da menina-alana. Menos sorrisos, mais lágrimas, menos esperanças.

    E o mundo prossegue. A vida segue. E os homens, estes, se esquecem.

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