Quinta-feira, 24 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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Candidatos não levam segurança a sério

Por Mauro Malin em 17/07/2006 | comentários

Não explorar a crise da segurança pública seria um imperativo de decência política e fator de credibilidade da democracia, que enfrenta em situação temerária o quadro de desigualdade social. Mas os candidatos estão longe de trilhar esse caminho. Todos têm culpa no cartório, nenhum fez algum diagnóstico que sequer se aproxime da complexidade dos problemas.


Não estão sozinhos na negligência.


“Sociedade brasileira” é uma expressão muito vaga, mas governos, universidade, imprensa, Ordem dos Advogados, empresas e outras instâncias preferiram fingir que não estavam entendendo os efeitos da distribuição de renda perversa, da urbanização alucinada, da sobrevivência de mecanismos de repressão exacerbados durante a ditadura militar – como a tortura, herança, por ordem de antigüidade, da Inquisição e da escravidão.


A escassez de debates é tão grande que podem ser reunidos numa lista com algumas dezenas de nomes todos os especialistas, com ou sem aspas, ouvidos regularmente sobre o assunto pela mídia brasileira. Mas diga-se que muitos deles falam com propriedade dos problemas. E quase nunca são acatados por quem toma decisões. Alguns se queimaram exercendo funções de governo.


Carandiru precedeu PCC


A fundação do PCC é posterior ao massacre do Carandiru. Foram usadas como fermento a violência e as condições degradantes nas prisões. As autoridades – do Executivo e do Judiciário, para não falar do ausente Legislativo – não atentaram para a situação que se estava criando ao se aumentar o ritmo de prisões e condenações, em nome da “segurança pública”.


O mundo é um teatro, a política é mais teatral do que a vida cotidiana.


No espisódio da Favela Naval, em Diadema, em 1997, quando o policial militar “Rambo” matou com um tiro um homem a quem acabara de revistar num bloqueio, a atitude do governador Covas foi tíbia. Quem assistiu à entrevista coletiva do governador pela televisão não pode ter esquecido como ele procurou se desvencilhar do problema remetendo-o para o comando da PM. Decepcionante, para quem tinha fama de homem de fibra.


Assim como, cinco anos antes, o então governador Luís Antônio Fleury procurou se desvencilhar do episódio do Carandiru entregando a cabeça de seu secretário de Segurança, Pedro de Campos, que chegara a apontar como candidato à sua sucessão. Mas Fleury havia feito campanha defendendo a pena de morte. A surpresa foi apenas como ele se procurou se desobrigar do comando que efetivamente exercia.


As autoridades driblam a mídia para driblar o povo. É um jogo.


No ano passado, em entrevista ao Observatório da Imprensa, o então secretário da Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa, disse que não havia mais nas prisões casos de violência sexual. Nas últimas semanas, repetem-se indicações de que acabar com as violações de presos foi uma das medidas adotadas pelos líderes do PP para se impor dentro das cadeias. Mas isso Nagashi não mencionou. Como se o fim da violência sexual tivesse sido uma conquista de avanços no sistema prisional paulista.


Tiros para o alto


A relação com a mídia é um jogo até quando se trata de atos meritórios. Quem deu à Rede Globo o direito de acompanhar a ação policial que libertou um menino seqüestrado, exibida ontem (16/6) no Fantástico? Será que aquela encenação toda fez bem à criança? Por que nenhuma autoridade chamou às falas os policiais que deram tiros para o alto em comemoração à libertação do garoto? Desde quando policiais têm direito de fazer isso? Por que a Rede Globo exibiu tudo, tiros para o alto inclusive, sem uma mísera palavra de crítica? Mas a emissora vai criticar seus parceiros de exploração midiática da desgraça alheia?


De todo modo, não se conte com a televisão para entender os problemas. A televisão é guiada pelo critério da audiência.


Os principais jornais fazem agora um esforço meritório para pelo menos ter um diagnóstico dos problemas subentendidos quando se fala em “combater a criminalidade”. Porque na verdade não existe um “combate à criminalidade” que não passe pelas enfrentamento dos fatores que tornam o crime uma atividade atraente, que não passe por políticas contra as múltiplas causas da violência armada.


No Estado de S. Paulo de domingo (16/7), para destacar apenas uma das reportagens importantes dos últimos dias, o repórter Bruno Paes Manso tratou com franqueza de um tema que quase sempre é varrido para debaixo do tapete, o consumo de drogas. E na festejada Vila Madalena.



Condomínio Maracanã


Hoje, publica-se no Estadão reportagem sobre um conjunto “habitacional” inaugurado em outubro pela CDHU paulista que dista da rua nada menos do que 210 degraus de escadaria. Nem os Correios chegam às casas. Só as Casas Bahia chegam. Como encontrar nessa situação o conceito de “cidadania”?


A ação estatal aberrante denomina-se Condomínio Maracanã e a reportagem (de Felipe Werneck) a localiza “ao lado de uma favela no Jardim Santo André, em Santo André, no ABC”.


E pode ter certeza, leitor, de que esse Condomínio Maracanã será computado como uma benfeitoria na propaganda eleitoral dos candidatos Geraldo Alckmin e José Serra.


O PT e seus aliados também vão explorar na campanha eleitoral meias ou falsas realizações. Criou-se no Brasil uma sintaxe de campanha eleitoral da qual se tornou difícil fugir.


Mas se a mídia desmascarar as fraudes ajudará o eleitor a escolher os melhores. Ou a evitar os piores, que é outra maneira de ver a mesma coisa.



Segredo de governo, não de Estado


A divulgação pelo The New York Times de informações consideradas secretas pelo governo americano recebeu importante apoio dos reitores de cinco escolas de comunicação americanas, publicado no Washington Post. O texto, traduzido ontem (16/7) pelo Estadão, diz a certa altura: “Sabemos que o governo freqüentemente alega estar preocupado com a segurança nacional quando na verdade teme que a revelação se mostre política ou pessoalmente constrangedora”. E dá exemplo de documentos do Pentágono que revelavam como os presidentes Eisenwoher, Kennedy e Lindon Johnson haviam enganado os americanos sobre o papel dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã.


Proximidade do Oriente Médio


Quem imagina que a guerra no Oriente Médio está longe do Brasil deve pensar na importância no Brasil das colônias de sírios e libaneses, de palestinos, de muçulmanos, de judeus. Deve pensar nas conseqüências de uma piora nas condições econômicas mundiais. Deve ler reportagem de hoje na Folha (do correspondente Sérgio Dávila) sobre posição da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos a respeito da tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, assunto que tem sido negligenciado pela mídia.


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Todos os comentários

  1. Comentou em 18/07/2006 Benedito Elói de Freitas Freitas

    É lamentável a convulsão social em que vivemos sobre todos os aspectos. Assim como uma áarvore boa dá bons frutos e uma árvore má dá maus frutos, assim acontece com a sociedade no mundo de hoje. A falta de educação de berço, no seio da família, afeta sobremaneira a sociedade, as instituições públicas e privadas, o governo e a nação. Procuremos salvar a família, que é a origem da sobrevivência do homem na sociedade.

  2. Comentou em 17/07/2006 Fábio Carvalho

    Organizações criminosas dentro dos presídios prosperam ante à ausência de Estado, que nem o direito à vida garante aos apenados e não tem qualquer controle sobre a disciplina de internos. Amontoá-los não é rigor, como acreditam alguns adoradores de Saulo Abreu, mas justamente o contrário. No Brasil, essas organizações nascem antes do Carandiru. O ex-professor do Iuperj, Edmundo Campos Coelho (‘A Oficina do Diabo’, pesquisa sociológica nos presídios flumineneses, que foi a campo em 1983), entre outras formulações, afirma que:

    1) A Lei de Segurança Nacional é uma raiz das organizações criminosas nos presídios, pois não só permitiu como forçou o convívio de presos comums com presos políticos. Foram os presos políticos que instituíram a caixinha e levou aos criminosos comuns a percepção de que a ação em grupo tinha vantagens sobre a individual. Os presos políticos, aliás, introduziram no Brasil o assalto a banco, no final dos anos 60: uma investida que requer planejamento e hierarquia funcional.

    2) O discurso de assegurar os ‘direitos dos presos’ foi desastroso. Ele constitui, para os presos, em uma alteração unilateral da regras do jogo. O detento sempre capitaliza a seu favor a suposta política de ‘humanização’ e passa a ignorar exigências de reciprocidade. ‘Não se retribuem direitos, reclamam-se direitos’, escreveu o sociólogo.

  3. Comentou em 17/07/2006 Marcos Simões

    A violência deve ser explorada, sim. Caso contrário, cai no esquecimento como caiu o maior roubo de dinheiro público do Brasil: o caso Banestado. Inconcluso e arquivado, dormita no MPF. Um rosário de ‘bons nomes acima de qualquer suspeita’ figuram no rol de beneficiados do envio de 250 bilhões de dólares (estimado) aos paraísos fiscais. Dinheiro público desviado ou remessa sem pagamentos de impostos voaram nos aviões Franco CC5 nos idos de 96 a 2000. Todos se calaram, silenciaram, abafaram, esqueceram. Quanta maldade, quanto crime, quanta miséria vemos hoje fruto dessa quadrilha do colarinho ‘de’ branco impune! Essa dinheirama, restituída ao caixa, teria evitado esse caos social. O convite midiático é para esquecer a violência em São Paulo, deixando-a fora do debate para enganar o cidadão sobre a responsabilidade exclusiva do (des)governo da hora. A imprensa tentou em 2002 e está tentando em 2006. Pobre imprensa. Pobre Brasil.

  4. Comentou em 17/07/2006 Wagner Maia

    Se tem algo que eu não posso me expressar é sobre a situação interna dos presídio. Nunca precisei ver o mundo desse ponto de vista… mas os familiares, com toda dor e respeito creditado aos imigrantes que vejo conviverem pacificamente sentem a dor das tragédias internacionais, não somente do país em que possuem ou possuíram raízes culturais. Na ocasião do recente bombardeio travado por Israel noticiado na Tv, eu fazia um lanche num a lanchonete de uma chinesa. Ela me servia um ‘xixarada’. A expressão facial da garçonete alterou-se quase que instantâneamente, de um sorriso para um ar introspectivo. ao ouvir o noticiário internacional. Fatos da vida. Paguei meu lanche sem saber se agradecia pelo suco de abacaxi complementar, ou dava meus concentimentos pela pátria distante.

  5. Comentou em 17/07/2006 Angelina Marine

    Em:http://www.camara.gov.br/sileg/integras/14531.htm
    De (‘Marcola’) (21/08/01)
    ‘Então, o PCC foi fundado por isso e por causa da chacina do Carandiru, onde foram assassinados 111 presos. Estou dentro de uma prisão onde morrem 111 presos. Eu me sinto inseguro, doutor. O PCC foi fundado porque não tinha para onde correr. Se a gente reclama, se a gente manda ofício, ninguém toma nenhuma atitude, ninguém olha para o preso, principalmente porque é pobre; 98%, 99% da população carcerária é miserável. Isso quer dizer alguma coisa e o preso sabe disso. Ele sabe que o pé-rapado vai para a prisão e o Deputado, não. O preso sabe disso. Então, isso revolta o preso. Como é que ele pode pensar em se reabilitar, sendo que só tem repressão dentro da prisão?
    Dentro da prisão não existe uma política sincera e real de reabilitação do ser humano. Não existe isso, nunca existiu. Pode ser que venha a existir. Essa é a esperança. E o PCC luta em função disso, por uma política de reabilitação, onde o ser humano seja respeitado como ser humano. Não é porque eu cometi um erro, que tenho de ser tratado como um monstro, porque o Lalau cometeu um erro e não é tratado como eu sou tratado. E o erro dele leva ao meu erro, porque ele rouba do povo e deixa todo mundo na miséria. Eu sou um pé-rapado, um pé-de-chinelo. Desculpe a palavra, mas é isso que acontece. ”
    Isso foi em 2001……..

  6. Comentou em 17/07/2006 Marco Antônio Leite Costa

    Infelizmente no Brasil nada é levado a sério, seja pelos falsos democratas da política, da quase extinta classe média, pela famigerada imprensa festiva, a qual se presta para falar mal de pobre e, enaltecer a elite do momento. Aqueles que detêm os poderes econômico e político estão mais preocupados em ganhar, ou então, subtrair dinheiro das caixas fortes do sistema na mão leve, do que numa melhor distribuição de renda. Caso persista essa perversa e raívosa discriminação com o povo mais pobre, não poderemos nos assustar com o aparecimento de muitos marcolas da vida. Desta forma, num futuro não muito distante teremos que enfrentar uma guerra cívil de consequências desastrosas.

  7. Comentou em 17/07/2006 Fabio de Oliveira Ribeiro

    Seu artigo é excelente. Deveriamos enviar um Projeto de Lei à Câmara dos Deputados para que seu texto fosse impresso e enfiado goela abaixo de todas as pessoas que ocupam e ocuparam cargos públicos eletivos, concursados e de confiança nos últimos 20 anos. Contudo, caso isto fosse possível e realizado os artifices deste quadro desolador teriam apenas uma dor de estômago. A única coisa que estes caras temem é a CAMPANHA DO VOTO NULO, porque ela coloca em risco os cargos e salários que eles adoram desfrutar e destribuir entre amigos e parentes. Os candidatos da situação e da oposição não têm nem decência, nem honestidade, nem humildade para reconhecer que são CULPADOS pela situação que vivemos. Não têm o menor compromisso com a melhora das condições de vida da população. E, portanto, NÃO MERECEM nossos VOTOS. Merecem sim é um solene pé-na-bunda dos eleitores. Todos eles. Todos sem exceção, do PSDB ao PT…

  8. Comentou em 17/07/2006 alisson quaresma

    Vão retirar os brasilieros que estão em israel/libano/siria e vão levar pra onde ? Pra São paulo ?? Só pode ser piada né !!
    Uma coisa que nenhum candidato falou até hoje é a questão crucial da segurança pública do Brasil : UNIFICAÇÃO DAS POLICIAS !!!

  9. Comentou em 17/07/2006 Júlio César Alberton

    Todos os títulos narrados estão em perfeita sintonia com a verdade. A real verdade, pois existe a falsa verdade que os meios de comunicações, principalmente a tv, e explicitamente, a TV Globo tentam impor. Não é nehum preconceito contra esta rede, pois toda pessoa com um pouco de discernimento encontra na programação e nos atos desta rede mensagens subliminares. Parabéns por expor claramente a verdade.

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