Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Candidatos não levam segurança a sério

Por Mauro Malin em 17/07/2006 | comentários

Não explorar a crise da segurança pública seria um imperativo de decência política e fator de credibilidade da democracia, que enfrenta em situação temerária o quadro de desigualdade social. Mas os candidatos estão longe de trilhar esse caminho. Todos têm culpa no cartório, nenhum fez algum diagnóstico que sequer se aproxime da complexidade dos problemas.


Não estão sozinhos na negligência.


“Sociedade brasileira” é uma expressão muito vaga, mas governos, universidade, imprensa, Ordem dos Advogados, empresas e outras instâncias preferiram fingir que não estavam entendendo os efeitos da distribuição de renda perversa, da urbanização alucinada, da sobrevivência de mecanismos de repressão exacerbados durante a ditadura militar – como a tortura, herança, por ordem de antigüidade, da Inquisição e da escravidão.


A escassez de debates é tão grande que podem ser reunidos numa lista com algumas dezenas de nomes todos os especialistas, com ou sem aspas, ouvidos regularmente sobre o assunto pela mídia brasileira. Mas diga-se que muitos deles falam com propriedade dos problemas. E quase nunca são acatados por quem toma decisões. Alguns se queimaram exercendo funções de governo.


Carandiru precedeu PCC


A fundação do PCC é posterior ao massacre do Carandiru. Foram usadas como fermento a violência e as condições degradantes nas prisões. As autoridades – do Executivo e do Judiciário, para não falar do ausente Legislativo – não atentaram para a situação que se estava criando ao se aumentar o ritmo de prisões e condenações, em nome da “segurança pública”.


O mundo é um teatro, a política é mais teatral do que a vida cotidiana.


No espisódio da Favela Naval, em Diadema, em 1997, quando o policial militar “Rambo” matou com um tiro um homem a quem acabara de revistar num bloqueio, a atitude do governador Covas foi tíbia. Quem assistiu à entrevista coletiva do governador pela televisão não pode ter esquecido como ele procurou se desvencilhar do problema remetendo-o para o comando da PM. Decepcionante, para quem tinha fama de homem de fibra.


Assim como, cinco anos antes, o então governador Luís Antônio Fleury procurou se desvencilhar do episódio do Carandiru entregando a cabeça de seu secretário de Segurança, Pedro de Campos, que chegara a apontar como candidato à sua sucessão. Mas Fleury havia feito campanha defendendo a pena de morte. A surpresa foi apenas como ele se procurou se desobrigar do comando que efetivamente exercia.


As autoridades driblam a mídia para driblar o povo. É um jogo.


No ano passado, em entrevista ao Observatório da Imprensa, o então secretário da Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa, disse que não havia mais nas prisões casos de violência sexual. Nas últimas semanas, repetem-se indicações de que acabar com as violações de presos foi uma das medidas adotadas pelos líderes do PP para se impor dentro das cadeias. Mas isso Nagashi não mencionou. Como se o fim da violência sexual tivesse sido uma conquista de avanços no sistema prisional paulista.


Tiros para o alto


A relação com a mídia é um jogo até quando se trata de atos meritórios. Quem deu à Rede Globo o direito de acompanhar a ação policial que libertou um menino seqüestrado, exibida ontem (16/6) no Fantástico? Será que aquela encenação toda fez bem à criança? Por que nenhuma autoridade chamou às falas os policiais que deram tiros para o alto em comemoração à libertação do garoto? Desde quando policiais têm direito de fazer isso? Por que a Rede Globo exibiu tudo, tiros para o alto inclusive, sem uma mísera palavra de crítica? Mas a emissora vai criticar seus parceiros de exploração midiática da desgraça alheia?


De todo modo, não se conte com a televisão para entender os problemas. A televisão é guiada pelo critério da audiência.


Os principais jornais fazem agora um esforço meritório para pelo menos ter um diagnóstico dos problemas subentendidos quando se fala em “combater a criminalidade”. Porque na verdade não existe um “combate à criminalidade” que não passe pelas enfrentamento dos fatores que tornam o crime uma atividade atraente, que não passe por políticas contra as múltiplas causas da violência armada.


No Estado de S. Paulo de domingo (16/7), para destacar apenas uma das reportagens importantes dos últimos dias, o repórter Bruno Paes Manso tratou com franqueza de um tema que quase sempre é varrido para debaixo do tapete, o consumo de drogas. E na festejada Vila Madalena.



Condomínio Maracanã


Hoje, publica-se no Estadão reportagem sobre um conjunto “habitacional” inaugurado em outubro pela CDHU paulista que dista da rua nada menos do que 210 degraus de escadaria. Nem os Correios chegam às casas. Só as Casas Bahia chegam. Como encontrar nessa situação o conceito de “cidadania”?


A ação estatal aberrante denomina-se Condomínio Maracanã e a reportagem (de Felipe Werneck) a localiza “ao lado de uma favela no Jardim Santo André, em Santo André, no ABC”.


E pode ter certeza, leitor, de que esse Condomínio Maracanã será computado como uma benfeitoria na propaganda eleitoral dos candidatos Geraldo Alckmin e José Serra.


O PT e seus aliados também vão explorar na campanha eleitoral meias ou falsas realizações. Criou-se no Brasil uma sintaxe de campanha eleitoral da qual se tornou difícil fugir.


Mas se a mídia desmascarar as fraudes ajudará o eleitor a escolher os melhores. Ou a evitar os piores, que é outra maneira de ver a mesma coisa.



Segredo de governo, não de Estado


A divulgação pelo The New York Times de informações consideradas secretas pelo governo americano recebeu importante apoio dos reitores de cinco escolas de comunicação americanas, publicado no Washington Post. O texto, traduzido ontem (16/7) pelo Estadão, diz a certa altura: “Sabemos que o governo freqüentemente alega estar preocupado com a segurança nacional quando na verdade teme que a revelação se mostre política ou pessoalmente constrangedora”. E dá exemplo de documentos do Pentágono que revelavam como os presidentes Eisenwoher, Kennedy e Lindon Johnson haviam enganado os americanos sobre o papel dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã.


Proximidade do Oriente Médio


Quem imagina que a guerra no Oriente Médio está longe do Brasil deve pensar na importância no Brasil das colônias de sírios e libaneses, de palestinos, de muçulmanos, de judeus. Deve pensar nas conseqüências de uma piora nas condições econômicas mundiais. Deve ler reportagem de hoje na Folha (do correspondente Sérgio Dávila) sobre posição da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos a respeito da tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, assunto que tem sido negligenciado pela mídia.


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