Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Caras do Brasil

Por Mauro Malin em 22/11/2006 | comentários

Décimo-terceiro para Bolsa Família ou militares da reserva unidos em defesa de colega acusado de ter sido torturador: o que expressa melhor a cara de um Brasil fora do tempo?


O Estadão deu ampla cobertura ao almoço de solidariedade ao coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra. O Globo fez um pequeno registro. Não se noticia a presença de oficiais da ativa, o que infringiria os regulamentos.


Segundo o coronel da reserva Geraldo Cavagnari, fundador e pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos (NEE) da Unicamp, em entrevista ao Observatório em 2004, o pensamento mais retrógrado só tem curso entre oficiais mais antigos.


Esse pensamento foi ilustrado ontem pelo ex-ministro e coronel da reserva Jarbas Passarinho (“Como se fosse crime defender com risco da própria vida a nossa pátria”, na reportagem do Estadão).


Cavagnari havia falado sobre o caso Herzog e a reivindicação de abertura dos arquivos (ver “Sentido político do acesso aos arquivos da repressão”). Explicara que


      …ainda é muito forte dentro das Forças Armadas o núcleo, numericamente bem pequeno, de remanescentes dos grupos que participaram da conspiração que levou ao golpe de 1964, serviram durante o regime militar e participaram da repressão e da tortura.


Mas só do posto de tenente-coronel para cima’, especificara. ‘Até o posto de major, com certeza a oficialidade não tem compromisso com esses episódios e acha que é preciso abrir os arquivos’. Os oficiais das novas gerações, segundo o pesquisador da Unicamp, não têm por que assumir a responsabilidade por fatos que se revestem de significado histórico, mas não institucional.


Entretanto, como existe solidariedade corporativa, exacerbada no caso dos militares, o país ainda está sujeito a ‘recaídas’ como a expressada, na opinião de Cavagnari, pela nota do Centro de Comunicação Social do Exército (Cecomsex) divulgada em 17 de outubro (de 2004), juntamente com supostas fotografias do jornalista Vladimir Herzog.


Como se vê, houve agora nova “recaída”, reação a uma decisão da Justiça de São Paulo em processo movido por vítimas da tortura, que pode levar a uma revisão da Lei de Anistia, como já ocorreu no Chile, na Argentina e no Uruguai.


Essa lei foi decretada por um ditador, João Batista Figueiredo, no início de seu governo, último de um general. Ela é injusta na medida em que protege quem cometeu crimes que iam muito além do cumprimento do dever, seja no governo, seja na oposição. É doloroso, foge à tradição brasileira de contemporizar (mas só com integrantes de alguma das elites, porque o povão não goza desse privilégio), mas tem que ser dito.


Ela é politicamente nefasta na medida em que recobre com um véu de silêncio o debate sobre o uso da violência sem regras para governar e para tentar derrubar o governo.


O espírito da anistia deve prevalecer, mas no exame da História não pode haver leniência em face de determinados crimes, tais como qualificados pelas leis da época em que foram cometidos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/11/2006 Eduardo Guimarães

    Mauro, não creio que me equivoquei em nada. Você – e vários outros observadores da imprensa daqui do OI -, parecem achar que a imprensa faz muito quando noticia algum assunto polêmico, como se fosse direito da imprensa escolher o que noticiar. Noticiar este ou aquele assunto não é a questão. A questão é COMO noticiar. Nesse caso das vítimas de Ustra que o estão processando, são pessoas inocentes que foram barbaramente torturadas. Não assaltaram bancos, não seqüestraram ninguém. Nada fizeram além de ter idéias que divergiam do governo do país. Por isso foram seviciadas das formas mais bárbaras. Mulheres, velhos, crianças foram torturados. Será que preciso lembrar os métodos do ‘Regime’? Não se trata de debater. Debater o que? É preciso debater sobre o estupro de uma criança na frente do pai para obrigá-lo a confessar alguma coisa? A imprensa deveria dizer claramente que é uma vergonha o tal almoço de militares em solidariedade a um criminoso do pior tipo, a um monstro sem alma, a um ser desprezível como poucos podem ser. Enquanto a humanidade aceitar ‘discutir’ como proceder em relação a torturadores, este mundo continuará o inferno que é. Torturador tem que ser preso para o resto dos seus dias. Incomunicável. Não há o que discutir.

  2. Comentou em 24/11/2006 Marco Costa Costa

    Temos muito a lamentar que jovens que diziam lutar contra um sistema que manietava a boca de meia dúzia de privilegiados da época, tenham perdido a vida de forma brutal e monstruosa. No entanto, vale dizer que a classe média, principalmente os proprietários da mídia estavam proibidos de falar e escrever algo que fosse contrario ao sistema vigente. A imprensa de oltem é a mesma de hoje, querem pôr que querem liberdade de expressão e total democracia, para escrever e falar o que bem entendem, dos mais fracos politicamente, logicamente? Por isto se faz necessário leis que coloquem um freio em tudo aquilo que a imprensa for publicar, se não teremos muitas escolas bases pela frente. Atualmente, temos uma imprensa que está mais voltada para a fofoca política do que para fatos relevantes que venham trazer benefícios para a classe trabalhadora. Não estamos confundindo ninguém, estamos clareando as mentes poluídas.

  3. Comentou em 23/11/2006 Marco Fedeli Fedeli

    Caro Sr. Mauro: Sou leigo sobre leis mas concordo com seu texto. Vou até um pouco mais além. Acredito que a lei da anistia tanto serve para o militar, por suposto, o torturador acusado, quanto para as vitimas se eram participantes ativos de movimentos de esquerda. A lei inclusive premiou com pensões especiais quem de alguma forma foi preso ou perseguido pelo regime militar. Se as pessoas que abriram o processo tem total certeza do que dizem e se isso pode ser provado acho que caberia realmente abrir o processo não só contra o militar mas contra todos os que se envolveram em crimes no período. De um lado os que excederam o dever e do outro lado os que praticaram sequestros, roubo a bancos, contrabando de armas, assassinatos, etc. Obviamente a punição se considerados culpados deveria ser anulada em razão da lei da anistia ainda em vigor, lei essa que ninguém quis mexer até agora. Ninguem iria preso, mas pelo menos a história ficaria mais as claras e destituida da roupagem ideológica que ambos os lados costumam usar. A direita não chama de golpe de Estado mas de revolução e a esquerda não queria implantar uma ditadura à la Fidel, URSS, Coréia; mas lutava pela democracia.

  4. Comentou em 23/11/2006 Péricles Magalhães

    “Não se deve… não se deve remexer no passado! Aquele que recorda o passado perde um olho. Aquele que o esquece perde os dois”!
    (Alexandre Soljenítsin no seu “Arquipélago Gulag”).

  5. Comentou em 23/11/2006 Rodrigo Medeiros

    Mauro merece aplausos por ter coragem de citar que não foram apenas os militares que usaram a violência. Seria interessante discutir papéis que podem ser considerados inéditos na imprensa brasileira, como a participação da Min. Dilma Roussef em assaltos a banco e do hoje jornalista/comentarista Franklin Martins em um seqüestro. Oportuno também avaliar as indenizações e promoções póstumas a Lamarca, desertor, traidor e assassino de um oficial da PM paulista desarmado. Palmas Mauro.

  6. Comentou em 23/11/2006 Luciano Cavalcante

    Gostaria de saber do autor do comentário o que ele acha se algumas das vítimas – ou seus parentes sobreviventes – decidissem processar alguns desses terroristas que iam contra a lei daquele momento e que mataram ou roubavam, ou agrediam, aqueles que estavam ali apenas para cumprí-la? Ou seja, temos aqui dois pesos e duas medidas?

  7. Comentou em 23/11/2006 Marco Tognollo

    Os milicos ‘só defenderam a democracia’….essa foi ótima. Mas há, no OESP de hoje entendimento de juristas – no caso, o Helio Bicudo, de que a anistia não se aplica aos torturadores….. Pior de tudo é ler as abobrinhas que o Jarbas Passarinho escreve no Estadão…..bom, se escreve ainda, nem sei mais, pois ignoro esta figura…….

  8. Comentou em 23/11/2006 Marnei Fernando

    Concordo plenamente… temos que apontar os holofotes para esta questão por respeito ao sofrimento de tantos brasileiros e em respeito à lei… Se os militares americanos são obrigados a enfrentar seus desmandos, como no caso das atrocidades contra presos iraquianos, por que não os militares brasileiros também serem cobrados pelos atos desumanos cometidos pelo excesso de poder e soberba? Concordo plenamente em descortinar esses episódios lamentáveis…

  9. Comentou em 23/11/2006 Marco Costa Costa

    Todos são ditadores, seja no Iraque ou na vossa redação. Ou vc ainda encontra diferenças entre ditadores? Esta para nascer um sistema no mundo onde nós poderemos fazer o que bem entende. Capitalismo, Democracia, Comunismo, Socialismo, Nazismo, entre outros ismos sempre terá o ditador de plantão, ou não?

  10. Comentou em 23/11/2006 victor seixas

    não entendi a alfinetada no bolsa família no início do texto… faz uma critica pessoal e depois não desenvolve…

  11. Comentou em 23/11/2006 Eduardo Guimarães

    mauro, e digo mais: a Lei da Anistia foi feita porque ações criminosas que poderiam gerar processos criminais na Justiça existiram muito mais por parte do Estado do que por parte da guerrilha. Ninguém tem notícia crível de um militar sendo pendurado em pau-de-arara, tomando choques elétricos nos genitais ou sendo sodomizado por um cabo de vassoura; ninguém tem notícias de mães, irmãs ou filhas de militares sendo estupradas na frente deles; ninguém tem notícia de de desaparecimento de filhos de militares depois de terem sido seqüestrados pela resistência… Mas é extremamente esclarecedor ver como órgãos de imprensa que se dizem democráticos dão suporte a torturadores. Essa é a imprensa que temos no Brasil. Quando não defende abertamente gente como Ustra, silencia sobre ela.

  12. Comentou em 23/11/2006 Marco Costa Costa

    Será que a solidariedade corporativista exacerbada existe somento no ambiente militar? Vale lembrar ao texteiro de plantão que a mídia de uma forma geral é useira e vezeira na defesa da classe dos inocentes jornalistas. Quanto à figura do ditador, este não existe só no militarismo, com certeza no seu site tem aqueles que dão as ordens ditatoriais aos subordinados daquilo que deve ou não escrever, bem como censurar este ou aquele comentário que não lhe agrade.

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