Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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China, essa imagem imprecisa

Por Mauro Malin em 26/01/2006 | comentários

Os jornais noticiam hoje (26/1) que a China já tem o quarto maior PIB do mundo. Visto com certo recuo, o dado é uma minudência, como diria o ministro da Justiça do governo de João Figueiredo, Ibrahim Abi-Akel, hoje deputado federal. Por sinal, um dos que colaboraram para atrapalhar as investigações, na CPI dita do Mensalão. Esquece, leitor. Voltemos à minudência. O dado é assim: China, 2,26 trilhões de dólares; Grã-Bretanha, 2,17 trilhões; França, 2,14 trilhões. Etc.


Para começar, quem pode confiar em estatísticas chinesas? São acusadas ora de superestimação, ora de subestimação. Nem nas americanas, nem nas européias dá para confiar cegamente. Então, esses 90 bilhões e 120 bilhões de dólares de diferença, respectivamente, merecem destaque?


Segundo ponto. Dá para comparar a produtividade das respectivas economias? Na Grã-Bretanha e na França, 60 milhões de habitantes produziram aquelas cifras em 2005. Na China, 1 bilhão e 300 milhões. É só dividir: 21,6 vezes mais gente, ou produtividade 21,6 vezes menor, certo?


Terceiro ponto: a desigualdade. No pé da reportagem do Estadão sobre o PIB chinês aparece um dado preocupante. A renda per capita da população urbana chinesa subiu para 1,311 mil dólares. A da população rural, para 406,8 dólares.


[Acréscimo em 27/1: cometi injustiça com a reportagem de Rolf Kuntz sobre o tema. Ele escreveu ontem (26/1) no Estadão (‘China e ìndia vão liderar expansão’): ‘Na China e na Índia, a população é tanto uma vantagem quanto um problema. O Produto Interno Bruto (PIB) chinês chegou a US$ 1,9 trilhão, mas o PIB por habitante corresponde a cerca de US$ 400 e é menor que o de uma centena de países.


A renda média urbana é o triplo da rural e há muita desigualdade entre regiões. Também a Índia continua com muita pobreza. Nos dois, são necessários enormes investimentos em infra-estrutura econômica e social, a começar pela área de saneamento. Chineses e indianos também terão de cuidar dos estragos ambientais causados pelo desenvolvimento econômico’.]


Essas médias são grandes agregados. Imaginem-se as disparidades entre grupos selecionados, como “novos bilionários” e “camponeses das regiões mais remotas”.


Manter a China unida e a maioria de sua população alimentada, na escola, com um mínimo de saneamento básico, é uma das grandes proezas humanas. O que não se pode é olhar apenas para o tamanho do bolo, sem ignorar que alguns comem fatias maiores e outros devem se contentar com microscópicas migalhas. Como no Brasil.


Hoje está em vários jornais a notícia de que o Google, a exemplo do Yahoo e da Microsoft, cedeu a imposições de censura por parte do governo chinês. (Ver Desigualdade sem liberdade.) Do ponto de vista da mídia, é preciso entender em que medida isso colabora para manter ou acentuar desigualdades. A questão da liberdade antecede, por exemplo, a da “inclusão digital”.

Todos os comentários

  1. Comentou em 26/01/2006 Ailton Souza Andrade

    A desigualdade sempre vem acompanhada de falta de liberdade que não é um problema chinês, mas global, pois a falta de acesso às informacões tem sido o principal problema da liberdade. A China, o Brasil, a Venezuela e tantos outros povos vivem a guerra da desinformação por conta dos interesses imediatos do capitalismo, que não querem perder suas colônias, portanto o problema não é o tamanho do PIB, ou quem está na frente de quem, e sim a concentração da riqueza. Não podemos admitir que se produza tanto e tanto qente viva em penúria em todos os cantos, seja na América, na Europa na Asia, na África. Isto significa a falência do capitalismo, que não proporciona bem-estar para todos sem distinção.

  2. Comentou em 26/01/2006 Diógenes Ventura

    Se você diz que não confia em nenhuma estatística, não deveria usá-las logo em seguida. E o assunto discutido é PIB, não PIB per capita, aprenda a separá-los. E, se você é tão fã da igualdade, por que não critica a desigualdade global, imposta por petrodólares e armas norte-americanos, com a conivência de seus admirados Grã-Bretanha e França? Finalmente, se o Ocidente bloqueia transmissões vindas do mundo árabe, sob pretexto de ‘terrorismo’, por que os chineses não bloqueariam conteúdo terrorista ocidental?

  3. Comentou em 26/01/2006 manoel nunes

    …concordo com o ponto de vista mostrado, é preciso analisar de forma mais técnica, não só contemplar o horizonte, além do mais a China é a China ‘emuralhada’ de sempre.

  4. Comentou em 26/01/2006 Mauricio Mattos

    A possibilidade de escassez de recursos naturais não se deve ao aumento de consumo de uma população ou outra o fato é que os nossos recursos são explorados de forma errada sem pensar nas conseqüências que podem acarretar a extração deste ou daquele recurso. E de que maneira pode ser minimizado os danos no meio ambiente.
    Mas independente do consumo da população chinesa e da possibilidade de escassez de recursos naturais. O é dados verídicos ou não, o governo chinês chama a atenção como um mercado emergente e uma potência política mundial, se o fato de ter uma mão de obra maior fosse o fator de maior impacto na economia o nosso pais estaria a frente de quase todos os paises europeus. O importante, querendo o não e isso é evidente, o crescimento deste pais que até pouco tempo era subjulgado por todos como um pais em decadência devido a queda do Império Soviético. É fato é que a China cresce e muito, e não será nenhum demérito a qualquer pais europeu ter um Pib menor que o chinês

  5. Comentou em 26/01/2006 RICHARD

    É muito fácil dizer que o crescimento da China é fantástico e o do Brasil ridículo.
    Os ‘comparadores’ – pois estudiosos não são – não comentam: que o chinês tem que sobreviver com U$ 2 por dia. Que num país de 1,3 bilhão de pessoas tem apenas 8 milhões de milionários. Que o país vive com a moeda subvalorizada. E esquecem de lembrar que enquanto a china crescia – décadas de 80 e 90 – nós, brasileiros, elegíamos ‘doutores’ submissos aos interesses internacionais e gastadores compulsivos (verdadeiros doentes mentais).
    A culpa disso tudo é da classe média, que votou, que aceitou migalhas, que não exigiu educação para todos, enfim, que se acovardou e hoje, enxerga o que não fez, e continua com medo do que tem que fazer.
    Comparar o Brasil com outros países não é comparar números. A Argentina está, literalmente, arrombada; perdeu 40% do PIB na crise econômica. A Venezuela cresce devido ao petróleo. A Índia é igual a China.
    E nós brasileiros temos é que esquecer os outros, varrer e desinfetar nosso País e ter mais autoestima. Essa doença de se desmerecer só reforça à elite gananciosa e os políticos corruptos.
    Precisamos de: escola decente, políticos lutadores, elite inteligente e valorização pessoal tipo ‘Sou brasileiro nunca desisto’.
    Conseguiremos isso com menos dívida e juros o que o presidente Lula vem fazendo com competência.

  6. Comentou em 26/01/2006 andrea o mesmo

    acho que uma parte da resposta está no que os chineses já vem fazendo – controle rígido da natalidade…

  7. Comentou em 26/01/2006 David Alves da Silva Silva

    Os chineses mostraram ao mundo que eles são donos dos seus narizes, impuseram as suas condições ao capitalismo. Quem quiser se estabelecer aqui, tem que rezar a nossa cartilha, se não quiserem está fora. Eles não são um bando de traidores como os comunistas do Leste Europeu e da Rússia, que venderam a alma do seu povo em nome do capitalismo selvagem.

  8. Comentou em 26/01/2006 andrea o mesmo

    é constrangedor ver o google aceitar esse tipo de imposição e praticar a auto-censura, o desejo de lucro sempre se sobrepõem a quaisquer outras considerações…

  9. Comentou em 26/01/2006 João Fabio Cese

    Preciso, de fato, foi o artigo do sr. Mauro. Vivemos muitas vezes a comparar alhos com bugalhos. A China, com sua monstruosa população, é parecida com outros países ditos desenvolvidos apenas nas estatísticas. E ‘estatísticas são como biquíni…’ – claro. Muito fácil é arrancar desenvolvimento quando não se respeitam direitos fundamentais, meio ambiente, regras internacionais de comércio, e por aí vai. A China cresce? Sim. O PIB deles é maior que o brasileiro? Sim. Agora,… você quer viver na China? Quer ser um agricultor na China? Ou prefere viver por aqui mesmo, onde existem direitos(ainda que às vezes questionáveis), defesa do meio ambiente(até demais) e outras gratas particularidades de países democráticos?
    Claro que acredito que mesmo assim o Brasil poderia crescer mais e melhor, e ser muito mais competente, com um governo melhor que o nosso atual. Mas daí a ter inveja da China – ou, pior, dos próprios chineses – são outros quinhentos.
    Você está certo, Mauro – é isso mesmo. E permita-me completar: definitivamente, ser como a China não deve ser o alvo do Brasil enquanto nação. Já trilhamos o caminho da democracia, e eles não. É melhor nos espelharmos em outro país.

  10. Comentou em 26/01/2006 Rinaldo Paes

    Parabéns. Apesar de estar comentando apenas o óbvio, no Brasil o óbvio vale muito. As notícias são jogadas na imprensa sem a menor preocupação de esclarecer. Aliás, principalmente neste momento, vem justamente com a intenção de confundir. Não dá pra comparar hoje e não será possível comparar nos próximos 50 anos, o Brasil à China ou à India. Se eles crescem 10% ao ano, é um crescimento vindo do ‘nada’ e crescer muito a partir do ‘nada’ é muito fácil. Basta ver o destaque que a imprensa dá para o ‘ROMBO’ do escândalo do PT. Primeiro: o esquema do Marcos Valério já vem de longe. Segundo: Mensalão na época do FHC era de 250 mil reais para passar a emenda da Privatização. Só no caso da Vale do Rio Doce, ela foi vendida por 3,3 bilhões de dólares sendo que a avaliação era de 37,8 bilhões de dólares. Uma pequena diferença de 34,5 bilhões de dólares ou 20% do total da dívida externa brasileira. Por que ninguém fala sobre isso? É muito pouco dinheiro? Este país, com tantas notícias boas no momento e tanta gente tentando melar… Que m….

  11. Comentou em 26/01/2006 Phil Leandro

    Mauro: Excelente comentário. Alguns adendos: 1- Não dá para esquecer que o Abi-Ackel, além de atrapalhar a CPI, esteve envolvido num escândalo de pedras preciosas quando ainda era ministro da Ditadura. 2- Mesmo sem podermos confiar nas estatísticas chinesas, é ponto pacífico que levamos um ‘banho’ deles. Há pouco mais de dois anos nós estavamos em 9º no ranking do PIB e eles em 15º. Hoje nós estamos em 15º e eles em 4º, ou 5º, ou 6º pouco importa. E o Pinóquio do Planalto ainda continua com as bravatas…

  12. Comentou em 26/01/2006 Renato Schoen

    A China passou de uma ditadura de esquerda para uma ditadura de direita. Ao adentrar no regime capitalista a China criou condições para crescer e tirar uma grande parte de sua população da miséria e se tornar um dos maiores consumidores de comodities do mundo, por isso o peso do avanço do seu PIB. Óbvio que esse número foi conseguido as custas de mais de um bilhão de pessoas, porém, imagine o que aconteceria se o PIB per capita chinês fosse equiparado com o da Inglaterra…. não haveria recursos naturais que dessem conta de sustentar tal consumo….

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