Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Cinema mostra a guerra que a imprensa desdenha

Por Carlos Castilho em 25/12/2007 | comentários

Os dois últimos filmes lançados sobre a guerra no Iraque foram muito além da contabilidade macabra dos mortos em atentados com carros-bomba ou das imagens chocantes de iraquianos mutilados e mulheres desesperadas neste país árabe invadido pelos Estados Unidos, em março de 2003.


 


Os filmes Leões e Cordeiros (Lions for Lambs) e No Vale das Sombras (In The Valley of Elah) debruçam-se sobre a vergonha íntima e a crescente desilusão de boa parte dos americanos com uma guerra que eles começam a renegar.


 




 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


Não são produções alternativas de orçamento barato. São películas interpretadas por atores do primeiro time de Hollywood, com orçamentos generosos, mas com um objetivo crítico claramente delineado da primeira à ultima cena.


 


Mas se trata de uma crítica que vai além da retórica pacifista. Ela procura mostrar como um número cada vez maior de norte-americanos já não consegue mais conviver com a convicção de que seu país se tornou um promotor de atrocidades e, mais do que isto, uma  nação cujos dirigentes estão destruindo, material e moralmente, uma geração inteira.


 


Leões e Cordeiros é uma narrativa não-linear de três conversas que desnudam três realidades diferentes da guerra no Afeganistão: o diálogo entre uma jornalista e um senador norte-americano mostra a cumplicidade de ambas instituições na produção de uma ficção política sobre o desenrolar da invasão; uma perturbadora discussão entre um professor universitário e um aluno sobre o imperativo moral de fazer algo; e o derradeiro desabafo de dois jovens soldados (um negro e um hispano) sacrificados durante uma operação fracassada, organizada por burocratas militares em Washington.


 


É impossível sair do cinema sem a incômoda sensação de que se trata de uma guerra inútil, sem vencedores, na qual as principais vítimas são jovens que, se regressarem, terão perdido quase todos os seus ideais. No Vale das Sombras é ainda mais implacável ao desnudar o fenômeno da perda de valores e esperanças, com a agravante de que amplia a análise para os veteranos de outras aventuras bélicas norte-americanas.


 


O filme estrelado por Tommy Lee Jones, é baseado em fatos reais, e mostra luta de um pai, veterano do Vietnam, em esclarecer a morte de mais um filho em conseqüência da guerra no Iraque. A narrativa é pesada e lúgubre porque mostra a crescente desilusão de um americano típico com o seu exercito e a trágica constatação de que seu filho foi transformado num delinqüente torturador e viciado.


 


O rapaz foi morto a punhaladas por um colega de farda no auge de uma discussão fútil, depois esquartejado e queimado por outros companheiros, num crime que seus superiores tentaram ocultar, mesmo sabendo que o pai da vitima era um ex-sargento do exército que já havia perdido um filho, também militar.  


 


O que impressiona é o fato de o cinema ter sido capaz de mostrar em 90 minutos uma realidade que a imprensa diária, jornais, rádios e televisão simplesmente não aborda. Mostrar principalmente a sensação de vergonha, da vontade de esquecer, ou de simplesmente apagar, algo que já começa a tirar o sono de muitos sobrinhos do Tio Sam.


 


A imprensa parece que simplesmente decidiu esquecer o Iraque e só dá noticias quando alguma bomba mata mais de 100 pessoas. A chacina diária já não dá mais manchete e os jornais perderam a sensibilidade para os horrores em curso tanto no lado iraquiano como entre as tropas invasoras.


 


A mídia brasileira segue o padrão da norte-americana e a guerra entrou no rol das coberturas burocráticas, com menos emoções do que o pregão da Bolsa de Valores. A imprensa tem todas as ferramentas para despertar da letargia que ela mesma provocou na opinião pública, mas perdeu para o cinema o papel de consciência crítica nesta guerra que provavelmente vai entrar para a história como uma das mais sujas dos anais militares.

Todos os comentários

  1. Comentou em 21/01/2008 Kassia Mota

    Ontem fui ao cinema, vê “Eu sou a lenda”, não sou uma cinéfila, mais tenho a meta de ir ao cinema uma vez por semana. O filme de direção por Francis Lawrence, tem o Will Smith e a sobrinha da Sônia Braga, Alice Braga. Nada de novo: Depois descobri que é uma adaptação de um romance, paranóias norte-americanas: Depois que uma guerra biológica acontece, mutantes começam a surgir sobre a Terra. Um militar cientista continua na cidade tomada pelos mutantes, sozinho, quatro anos depois, nos escombros que restaram de São Francisco, este homem deixa sua casa fortificada todas as manhãs e sai para procurar suprimentos pela cidade e pesquisar a cura para tal anomalia.
    Quando chego em casa vejo na globo o filme “ Con Air – A rota de fuga”, com Nicolas Cage de direção de Simom West, mais paranóias norte-americanas: Prisioneiro, ex-militar, em liberdade condicional pega carona em um vôo que transporta os piores criminosos do País. Mas quando este grupo toma o controle do avião e planeja sair do país, ele resolve lutar para salvar o vôo.
    Na véspera do reveillon fui ao cinema e assisti, a história de outro militar norte-americano, “No vale das Sombras”, o filme se contrapõem os exemplos acima, mostrando um outro lado da guerra que Bush, a imprensa, o cinema norte-americano, não fazem questão de propagar: a destruição moral, não apenas nos países atacados, mais a seus cidadãos tb.

  2. Comentou em 12/01/2008 Alexandre Weiss

    Aos dois artigos abaixo os dois estão precisando se internar num Hospicío vocês estão dementes que porralouca é essa!!!!

  3. Comentou em 09/01/2008 Ivan Moraes

    ‘que dizer de Sadan o infame e assassino ditador? Que dizer do fundamentalismo islâmico e os aviões lançados contra as torres,? que dizer do porra-louca do Irã? E, finalmente, o que dizer do tiranete bufão da Venezuela’: Opus Dei?!?

  4. Comentou em 03/01/2008 Aluizio Amorim

    Castilho, e o que dizer de Sadan o infame e assassino ditador? Que dizer do fundamentalismo islâmico e os aviões lançados contra as torres,? que dizer do porra-louca do Irã? E, finalmente, o que dizer do tiranete bufão da Venezuela, irmanado com os terroristas do hezbolah? É muito engraçado: os terroristas, fundamentalistas e toda essa escumalha botocuda quando pode ruma para os EUA e para os países desenvolvidos na Europa. Por que diabos não imigram para o Irã, Venezuela, Cuba, China, Arábia Saudita, Egito…? Abraço do Aluízio amorim – http://oquepensaaluizio.zip.net

  5. Comentou em 03/01/2008 Alexandre Weiss

    É uma vergonha como a nossa grande imprensa trata do assunto GUERRA DO IRAQUE, nos mostra apenas os atentados terrorristas a cada dia, não mostra as operações militars Americanas naquele território nem se quer fala disso, não fala do jogo politíco na região, não mostra a vida dos Iraquianos e como eles convivem com a guerra, não divulga sobre as prisões ilegais naquele território e também fala muito pouco sobre o Islã e a ala radical que é responsável por esses atentados contra os Americanos e até os pobres Iraquianos, a imprensa não tem se aprofundado nesse tema e apenas apresenta notícias quentes só falando sobre atentado terrorrista nos Jornalões e na Tv, do jeito que a imprensa brasileira trata do assunto nos faz transparecer que todos os Iraquianos são um bando de loucos e que a guerra que os EUA criaram é santa é prá salvar o mundo e trazer democrácia e os pobres Iraquianos são os culpados por ela, a nossa imprensa está ébria por Etanol e não mostra o óbvio de que está guerra se trata de uma guerra de domínio geopolítico e pelos recursos naturais presentes naquele território.

  6. Comentou em 31/12/2007 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Os americanos precisam rever o filme A TRÁGICA FARSA, filme em que um jornalista desempregado, cinico e pragmático ajuda a construir o mito de um lutador iniciante imbatível e depois vê o mesmo ser desconstruído na porrada durante uma disputa de título mundial dos pesados. As contradições da sociedade americana presentes estão estampadas naquela clássico de Bogart: notícias x propaganda; verdade x mitologia; negócios x realidade. Se a imprensa americana não parar de confundir PROPAGANDA com REALIDADE vai submeter seu novo campeão de faz-de-conta ( o USArmy) ao ridículo de ser nocauteado Iraque. Quer saber… Os gringos até que merecem. Está mais do que na hora do USARmy ser nocauteado mesmo, portanto, espero que a PROPAGANDA continue sendo confundida com BOM JORNALISMO nos EUA.

  7. Comentou em 31/12/2007 Marco Antônio Leite

    A imprensa nacional não difere do comércio de uma padaria. Todos os dias à padaria vende pão quente, acompanhando esse raciocínio a imprensa vende a notícia quente, põe quente nisso, fervendo. Algumas vezes compramos pão amanhecido, como também lemos notícias requentadas, mas isso não altera o objetivo dos comércios em questão, ou seja, vender, vender e vender. As guerras do Iraque e do Afeganistão não mais adoçam o café da manhã dos leitores ou ouvintes, pôr isso, vamos procurar outras notícias espetaculares para satisfazer o belo e prazeroso café da manhã dos poucos privilegiados que ainda podem adquirir a imprensa de papel.

  8. Comentou em 31/12/2007 Norman Cohn

    Gentis, exportamos aos EUA nossa oposição. Exportação de oposição responde pelo nosso superávit: enquanto a máquina estatal, com todo seu poder de propaganda e seus tentáculos espalhados por inúmeros órgãos da mídia, usa da linguagem abrasiva para corroer todo ensaio de oposição em ‘golpismo’, a oposição do Brasil é evacuada junto com a soja. O Brasil é um caso extremo e mais perverso: onde mais a oposição real nos veículos da mídia é constituída por duas pessoas? Dois colunistas-blogueiros – Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo – são selecionados a dedo por ‘monitores da mídia’ como exemplos de intolerância e de perigo para a democracia; eles, não aqueles que descarregam processos sobre suas costas. A maioria da esquerda brasileira capitulou diante do governo Lula. Não só capitulou, como não sabe mais do que falar: se o governo é aquele que eles queriam, de que, afinal, podem falar? A esquerda viajou: ela agora monitora o Oriente Médio e a Política Externa Americana. Só que esta exportação é lixo: eles têm oposição. Praticamente só falam da guerra do Iraque: imagine algo como Comedy Central ou a Pacifica Radio no Brasil! Chomsky, Paul Krugman, Michael Moore! Lá não se ‘dialoga’. Debate-se: Elliot Abrams é chamado de war criminal em rede nacional e ninguém acha nada demais. Letterman demole O´Reilly (Fox) no ar: tema? Iraque. A mídia é concentrada, mas bem melhor que a nossa.

  9. Comentou em 30/12/2007 GILVAN SILVA JR. JUNIOR

    A PARTIR DAS QUESTÕES QUE VOCÊ CASTILHO NOS APRESENTA, PODEMOS PERCEBER CLARAMENTE OUTRAS VEIAS DE DISCUSSÃO ACERCA DA REALIDADE IRAQUIANA, OU SEJA, A RESISTENCIA IRAQUIANA ANTE A INSANIDADE NORTE-AMERICANA E COMO ESSA INSANIDADE MAIS UMA VEZ SANGROU A NÓS OCIDENTAIS, ASSIM COMO A PROPRIA GUERRA DO VIETNÃ. ALÉM DE JOVENS NORTE-AMERICANOS SACRIFICAREM SUAS VIDAS, VALE DIZER QUE FORÇOSAMENTE JOVENS LATINO-AMERICANOS ESTÃO NESSA BRIGA POR OBJETIVOS MERAMENTE POLITICOS E ECONOMICOS. UM ABRAÇO.

  10. Comentou em 30/12/2007 cristiano vieira machado vieira

    Castilho, gostei do seu post e da sua visão sobre o poderio bélico dos EUA e conseqüências que as armas fazem

  11. Comentou em 30/12/2007 Carlos Sete

    Cidade de Deus, Tropa de elite, Bicho de sete cabeças cumpriram um papel muito importante para esclarecer nossa sociedade acerca da realidade nua a crua em que vivemos. A imprensa brasileira vive o jargão americano de que ‘ uma má notícia é uma boa notícia’ e para isso vivem apresentando apenas fatos, muitas vezes cinematográficos como explosões, atentadose rebeliões, e não apresentam o que há por trás do que é mostrado. Por isso procuro fontes alternativas de informação para compreender melhor o mundo. O cinema e o livro consegue desempenhar o papel de esclarecedores muito melhor do que a imprensa.

  12. Comentou em 30/12/2007 Alberto Santana

    Brilhante!!!!!!!
    Num país em que a imprensa testa hipóteses, em que as dissimulações valem muito mais do que os fatos, em que a teoria vale mais que a realidade, não é um surpreendente um jornalista reconhecer a existência da imprensa currupaco. Contudo, caro xará, a imprensa reitera esse comportamento desde os tempos do império. Nada vai mudar enquanto esses grupelhos, de pouquíssimas famíglias, fascitóides e entreguistas manipularem os grandes meios de comunicação desse país. Esses ‘poderosos de pés de barro’ incutem, na mente da classe média brasileira, que Copacabana e a Avenida Paulista estão localizados ao lado da Quinta Avenida, em Nova York. A realidade é bem mais crua. Outro país, outra realidade e outros tempos. É preciso virar o olho para o próprio umbigo.

  13. Comentou em 29/12/2007 Braulio Signorelli Amereno Amereno

    Mais uma vez, vocês acertaram na ‘veia’, posso de dizer que reaprendi a ler jornal com o ‘Observatório’, com a internet procuro ter acesso aos jornais internacionais (apesar do meu inglês sofrível), porque a cobertura da nossa imprensa no que se refere a política internacional deixam a desejar.

  14. Comentou em 29/12/2007 Octavio Tostes

    Belo post, Castilho. Na veia. Abs

  15. Comentou em 29/12/2007 Evandro de Morais

    E ainda dizem por aí que o Iraque hoje está melhor que na época do Sadam… e por fala em Sadam, onde estará Osama BinLaden?

  16. Comentou em 28/12/2007 Anne Borges dos Santos

    A imprensa brasileira realmente não é mais a mesma como já foi há algum tempo. Hoje nota-se que as informações vem cumpriando o papel da função narcotizante, tão discutida pelo estudioso da comunicação, Paul Lazarfeld. São muitas informações passadas que o receptor não consegue assimilar todas, passando essas a ser um narcótico social. É o que vem acontecendo com as notícias de corrupção, violência, como dessa guerra no Iraque. As pessoas já estão habituadas a lerem nos jornais, por exemplo quantas pessoas morrem por dia no Iraque, já não é mais surpresa, e ainda dizem que isso não vai mudar. E a imprensa tem grande culpa nesses pensamentos pela maneira de como vem pasando as informações.

  17. Comentou em 28/12/2007 Marcos André Lessa

    Não são os primeiros nem serão os últimos filmes capazes de mostrar o que a imprensa diária não aborda. ‘Mera Coincidência’; ‘O quarto poder’, ‘S1mone’, ‘Syriana’, ‘O senhor das armas’…

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