Sexta-feira, 25 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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Círculo virtuoso na cobertura eleitoral

Por Luiz Weis em 19/08/2008 | comentários

Escrevendo no Estado, a analista Fátima Pacheco Jordão atribui o salto da candidata Marta Suplicy no último Ibope – onde aparece com 15 pontos à frente de Geraldo Alkmin – a ela ter respondido “mais convincentemente” às questões que sensibilizam o eleitor e que a imprensa vem destacando.


De fato, em relação a eleições municipais anteriores, a mídia dos grandes centros antecipou e aprofundou este ano a exposição dos problemas das suas cidades.


Não só isso, mas vem cobrando dos candidatos respostas mais substantivas às questões levantadas. Fátima cita o exemplo da Globo, que na semana passada pôs os prefeitáveis paulistanos a discutir assuntos que interessam diretamente à população, como saúde e coleta de lixo.


Decerto graças às próprias pesquisas, emissoras e jornais sabem que é isso que o público quer, incomparavelmente mais do que a cobertura do varejo das campanhas e a reprodução da intrigalhada que faz parte do jogo político.


Mas talvez se trate de algo além disso. Primeiro, nem o mais ácido dos críticos de mídia terá como negar que melhorou o padrão da abordagem jornalística das realidades urbanas, em especial tendo a eleição como pano de fundo.


Cada qual a seu modo, o Estado, a Folha e o Globo, por exemplo, têm gasto papel, tinta e inventividade em profusão para falar das mazelas paulistanas e cariocas, respectivamente.


Em segundo lugar, pode ser que a imprensa não esteja apenas atendendo (bem) à demanda do leitor, mas criando e reforçando essa mesma demanda.


Funcionaria mais ou menos assim. Ao dar seguidamente amplo espaço a um tema, ou variações em torno dele, é como se os meios estivessem dizendo ao público: “Olha aí, isso é importante”.


Os leitores não precisam ler a massa de matérias que encontram nos jornalões sobre as suas cidades. Por si sós, a sua frequência e destaque chamam a atenção para tais assuntos e, de quebra, induzem a que se confira a capacidade dos candidatos de lidar com eles.


Não é que o cidadão não saiba, pelo menos em termos gerais, quais os maiores problemas que o cercam. A diferença é que a imprensa os situa e hierarquiza – como procura fazer com tudo mais que divulga. O resultado, no caso, é uma espécie de legitimação das preocupações do público.


Amanhã, quando lhe pedirem para assinalar o que espera da cobertura da sucessão municipal, o entrevistado estará à vontade para dizer que o jornalismo deve dar prioridade não à disputa política em si, mas aos problemas urbanos e aos projetos dos candidatos a respeito.


Ou seja, o que a imprensa, tendo aprendido com o seu desempenho em eleições passadas, já vem fazendo agora com razoável competência. Os sociólogos mais pedantes chamam isso de “mecanismo de causação circular”.


Para os que valorizam a função do jornalismo como promotor e mediador do debate público, e acham que nesse sentido a imprensa vem fazendo a coisa certa na campanha eleitoral que está aí, melhor falar em “círculo virtuoso”.


P.S.


A partir de hoje, com o início do horário eleitoral, a mídia escrita tem uma incumbência extra: passar o pente fino nas promessas e nos currículos ostentados pelos candidatos – umas, muitas vezes fantasiosas; outros, muitas vezes siliconados. Os jornais já fizeram isso em outras eleições, mas têm muito chão para melhorar.

Todos os comentários

  1. Comentou em 20/08/2008 Ney José Pereira

    Isso é muito pouco. E muito semelhante à própria eleição. Desses ‘diagnósticos’ os cidadãos e as cidadãs estão fartos e fartas. No caderno ‘Cotidiano’, por exemplo, da Folha que é o caderno que trata dos problemas das cidades em vez da coluna à página C2 ser disponibilizada ao debate dos problemas urbanos para a apresentação de ‘prognósticos’ (soluções) ela é ocupada com contos, crônicas e aulas, o que deveria ser feito no caderno de cultura que é a ‘Ilustrada’. Aliás, enquanto a FolhaCultural não vender todos aqueles CDs de Bossa Nova de novo nada haverá, mas, de bossa… haverá muito. Quando a Folha tinha ombudsman reclamava diretamente a ele ou a ela, mas, agora a Folha tem, em vez de ombudsman (que sugere o que ver e o que ler), ela tem otavioman (o protetor do otavio). Então, resta reclamar ao Observatório da Imprensa. Observação: A imprensa está (ou é) tão ruim, que quando ela faz nada mais do que uma reles obrigação ela é exaltada. Exaltada por um crítico da Imprensa!.

  2. Comentou em 20/08/2008 Ivan Moraes

    ‘Os sociólogos mais pedantes chamam isso de “mecanismo de causação circular”: Kkkkkkkkkkk! E os nao-sociiologos mais ignorantes finalmente quase acreditam que a media voltou a falar pela boca…

  3. Comentou em 19/08/2008 sueli schiavelli jabur

    excelente artigo, claro e completo, a imprensa deve mesmo estar sempre atenta, e isenta,

  4. Comentou em 19/08/2008 Patrícia Valino

    Weis, o que mais gosto nessa sua coluna aqui do OI é que você não passa 100% do tempo procurando defeitos nos trabalhos dos outros. Sabe elogiar também, quando há mostras de um bom trabalho. Acho que um observatório é isso, trazer à luz o que não é bom, claro, mas principalmente saber destacar o que é bom também, para servir de exemplo para os profissionais da área e futuros jornalistas. Adorei este texto, parabéns!

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