Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Começou!

Por Luiz Weis em 16/05/2006 | comentários

Certo como a noite que se segue ao dia, começou a malhação.

O Judas da hora em São Paulo é aquilo que se supõe seja a defesa dos direitos humanos.

A contribuição das autoridades paulistas para o fomento desse clima de linchamento moral não pode ser subestimada.

Não se sabe o que é mais patético: o senso de desorientação exibido pelo governador paulista Cláudio ‘Nada deu errado’ Lembo desde que o PCC, para ostentar seu poderio, deflagrou a guerra ao Estado, ou a assombrosa tentativa do delegado Godofredo Bittencourt, diretor do Departamento de Investigações Sobre o Crime Organizado, de tapar o sol com a peneira.

Ontem, quando os ataques do PCC às forças de segurança já beiravam a marca de 150, de um total da ordem de 270, com 28 policiais militares e civis mortos, o doutor disse que “o crime organizado está tentando mostrar a sua força”.

Imaginem quando mostrar de verdade.

Apenas previsível portanto o clamor por mais “dureza” e menos “frouxidão” na repressão ao banditismo.

O que impediria o endurecimento é a visão lírica, bem intencionada e contraproducente dos humanistas. É o que se lê e o que se ouve.

Como se políticas de segurança duras e burras resolvessem alguma coisa. E são poucos, esparsos e desconexos os sinais de vida inteligente no aparato de segurança em todo o país.

O endurecimento pelo endurecimento, do gênero atirar primeiro, perguntar depois, decerto fará muitas baixas nos cardumes de sardinhas da bandidagem – e os civis presumivelmente inocentes de praxe. Mas deixará praticamente intacta não só a cúpula do crime-empresa, como e em especial a sua “sofisticada organização”, para tomar de empréstimo o termo consagrado pelo procurador-geral da República em outro contexto.

“Em 12 horas, polícia mata 13 suspeitos nas ruas”, informa o Estado de hoje.

Palavras de um PM ao jornal: “Vamos virar o jogo. Aqui um foi para o inferno. Mas vamos matar mais de 20. De menos um em menos um, essa onda de ataque chega ao fim.”

Os policiais “têm sangue nos olhos”, na apta descrição do repórter Alvaro Magalhães, mas não têm idéia do que está acontecendo.

E o que está acontecendo continuará a acontecer com “a Rota na rua” de que falava Paulo Maluf e com a legalidade no lixo.

O crime compensa quando é eficiente, estruturado e em dia com os recursos tecnológicos que agregam riqueza e poder aos que os dominam. E quando os criminosos-empresários fazem uso de uma arma que o Estado de direito não pode – nem deve – ter: a ausência completa de limites no emprego da força para se impor aos rivais, às populações e aos serviços de segurança.

Se o Estado agir do mesmo modo, a diferença será enorme – mais para nós outros, que teremos novos motivos para gritar “chamem o ladrão” – do que para eles.

O nervo do problema é este: o crime-empresa é mais competente do que o poder público que tenta combatê-lo.

Tem dinheiro a rodo – e sabe o que fazer com ele.

O Estado não tem dinheiro a rodo e muitas vezes não sabe o que fazer com o pouco que tem. Move-se por processos penais anacrônicos e por infindáveis guerrilhas burocráticas. Sem falar que bandidos corrompem policiais, agentes penitenciários, advogados, administradores judiciais, juízes, políticos, o escambau. A recíproca não é verdadeira.

A repressão dura e burra faz um estrago danado na periferia do crime e nem por isso atinge a sua espinha dorsal. O crime cresceu extravagantemente no Brasil nas últimas décadas não por excesso de leniência, mas por escassez de inteligência dos que lhe devem mover guerra.

O resto, como pôr a culpa no respeito aos direitos humanos, é pior do que o silêncio. É brincar de me-engana-que-eu-gosto.

P.S.

Da série ‘Números são como baionetas. Pode-se fazer tudo com eles, menos sentar em cima:

O Estadão diz que a população prisional paulista é de 138.116 pessoas (120.601 no sistema penitenciário e 17.515 nas cadeias da Secretaria de Segurança). Diz também, em outra matéria, que o PCC ‘conta pelo menos com 130 mil homens’ nas prisões. Se assim é, 9 em cada 10 presos são filiados ao que a imprensa chama Partido do Crime. E se assim é, não tem sentido se referir ao PCC como ‘facção’.

Enquanto isso, numa entrevista à Folha, o sociólogo Cláudio Beato, coordenador do Centro de Estudos em Criminalidade de Segurança da Universidade Federal de Minas Gerais, falando do ‘gigantismo do sistema prisional de São Paulo’, diz que este tem ’40 mil pessoas’. Ou a Folha comeu o algarismo 1 na transcrição da entrevista, ou o sociólogo não sabe o que é gigantismo.

***

Os comentários serão selecionados para publicação. Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas, que contenham termos de baixo calão, incitem à violência e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/05/2006 Ricardo de Oliveira

    Ah, os doze anos de governo FHC de que muitos lembram aqui… Será que algunas dessas memórias prodigiosas sabem o que é o Foro de São Paulo? Sabem quem são seus fundadores? Sabem quem foi seu ‘presidente’? Sabem que as Farc participam? Sabem de alguma relação entre Farc-PT-PCC? Sempre é muito bom e conveniente ficar na superfície das coisas/fatos, não é mesmo?

  2. Comentou em 17/05/2006 Fabio de Oliveira Ribeiro

    Caro Weis

    Você parece que não compreende a lógica do Estado, por isto vou ensinar-lhe:-

    1º) A culpa pelos celulares serem usados pelos detentos não é dos servidores (carcereiros, diretores de presídios, delegados, etc…) permitirem que os aparelhos entrem nos estabelecimentos prisionais, mas das empresas de telefonia que deveriam arrumar um jeito de fazê-los parar de funcionar;
    2º) A responsabilidade pelo poder crescente dos criminosos é dos grupos de direitos humanos, mas não dos agentes estatais que não punem a CORRUPÇÃO POLICIAL porque tem medo ou porque recebem parte do butin proporcionado pelos marginais;
    3º) A culpa do rancor dos marginais em relação aos seus sócios (delegados, investigadores, carcereiros, direitores de presídios etc…) é a sua incapacidade de aceitar que alguns bandidos podem ficar livres e impunes sob suas insignias enquanto eles são mantidos presos.
    4º) Os governadores e secretários de estado tem mais o que fazer (viajar com passagens pagas pelos contribuintes, nomear parentes, fraudar licitações, etc…) e não podem se preocupar com um serviço historicamente ineficiente;
    5º) Em última instância a responsabilidade pela merda pública deste país é dos contribuintes, se não contribuissem as coisas estariam melhor porque os corruptos abandonariam seus postos no Estado.

  3. Comentou em 17/05/2006 dioniso artuffo

    o que pudemos observar, neste episódio inédito de ampla demonstração de força e poder dos criminosos, foi o nascimento ( pode parecer exagero)de um poder paralelo aqui no Estado de São Paulo, o mais rico da nação brasileira. Quando a autoridade estabelecida se torna incapaz de atender as demandas básicas ( saúde, educação, moradia, segurança,etc.), principalmente aquelas provenientes dos segmentos mais carentes da sociedade, criam-se as condições mínimas e necessárias que propiciam o surgimento, nessas parcelas da população abandonadas à sua própria sorte, de um sentimento difuso de insatisfação e revolta. Com a desqualificação, o enfraquecimento e o desmantelamento dos movimentos e associações populares, que poderiam tornar visível e palpável essa sensação vaga de profunda desolação e desesperança, restou, inconscientemente,àqueles que optaram pela ação criminosa ou que para ela foram empurrados pela necessidade de sobreviver, a tarefa de dar uma direção, mesmo que equivocada e inconsciente, a esses sentimentos. Durante doze anos de governo tucano, a imprensa comportou-se como se não tivessemos governo de Estado e visivelmente poupou a administração do PSDB e do PFL. Nunca fez uma avaliação honesta e isenta desse governo ou desgoverno. Mesmo neste triste episódio, a imprensa comportou-se cinicamente, protegendo vergonhosamente os grandes responsáveis por esse descalabro.

  4. Comentou em 17/05/2006 Nádja Cristina Pereira

    Na minha opinião, essa crise de violência, tem fundamento social. A grande maioria das pessoas q entram no mundo do crime é pq estão financeiramente falidas (ou nunca tiveram nada).
    No Brasil há muitas injustiças salariais e diferenças sociais gritantes. Me respondam: Pq 1 médico, q fica muitas vezes 2 dias s/ dormir p/ trabalhar em plantões e tem resp. d vida ou morte das pessoas (o q é justo), ganha 5.000,00 quando muito e 1 deputado, q trabalha de 2ª a 6ª 6 horas p/ dia e não vemos resultado algum, ganha 15.000,00 no mínimo? Pq?
    Esse tipo d pergunta q não quer calar influencia á muita gente a entrar no mundo do crime.
    E ainda muita gente na mídia critica igrejas evang. q é o único meio de tirar essas pessoas do mundo do crime. Entregar a vida á Deus é o único meio d quebrar essa corrente do mal.
    Mas gente, vamos manda e-mail´s p/ o Sr. Presidente. á este respeito. Só enchendo o saco deles, isso td vai mudar.

  5. Comentou em 17/05/2006 Silvio Monteiro

    Muito bom o comentário e gostaria de perguntar, ja antevendo outra materia, porque não usar as roletas de bancos nos presidios. Nos que nao somos bandidos temos que deixar na porta do banco. Agora, pedir o impossivel para as Cias. de Telefonia e o fim da picada. Se possivel visitem o site de nossa cidade http://www.viamaohoje.com.br onde tem uma enquete que pergunta: ‘Porque a ANATEL cala as rádios comunitárias e não cala os celulares dos presidios?’

  6. Comentou em 17/05/2006 Renato Monteiro Pires de Campos

    Não sei precisamente o número da população prisional paulista, mas no programa Roda Viva de segunda-feira, 15, da TV Cultura, se falava em 140 mil presos.

  7. Comentou em 16/05/2006 ubirajara sousa

    É claro que não serão medidas de emergência que irão desbaratar uma organização de tal porte. Contudo, são necessárias. Bloqueadores de celulares; suspensão da visita íntima etc. Contudo, somente políticas estruturais de inclusão social serão capazes de reduzir a atuação de tais organizações. Agora, o que fazer para o povo de São Paulo perceber quem é o responsável direto por tudo o que ocorreu? Por que atribuir ao Governo Lula, com menos de quatro anos, a responsabilidade pelo caos? Não repassou verbas, não desenvolveu políticas social e outras ‘cositas mas’, é o que dizem. Mas, esse problema nasceu agora, há 3 anos e meio, ou tem décadas de existência? E quem estava no poder, durante todos esse tempo (quer no estadual, quer no federal)? Talvez isso explique a disposição do psdb e do pfl de não levarem a discussão do assunto para o campo da política partidária. Mas eu pergunto: por que não? Acho que ora de discutirmos os problemas nacionais à luz de refletores mais potentes. É hora de acordar do sono hipnótico a que nos submeteu essa mídia serviçal. É hora de valorizarmos os grandes valores humanos que ainda restam (com multa luta) na Imprensa nacional.
    Luiz Weis, mais uma vez: PARABÉNS.

  8. Comentou em 16/05/2006 gontranjunior nasser

    Não sei e não entendo até agora o que aconteceu aqui em são paulo, mas quero que pare, e pare já. E não volte a acontecer nunca mais !

  9. Comentou em 16/05/2006 maria gordette da Silva Gordo

    muito bem pensado e sensato. Gostei. Parabéns.

  10. Comentou em 16/05/2006 MCostaSantos Santos

    XXXXXXXXXX VERGONHA NACIONAL XXXXXXXXXXXXXXXXXXX

    Os poderes constituidos deste país a nível federal, estadual e municipal há décadas são irresponsáveis. Temos um congresso de FAZ-DE-CONTA. A população precisa saber quando irão realmente trabalhar e não se preocuparem sómente em desviar o dinheiro público.
    O povo clama por seus direitos civis.

  11. Comentou em 16/05/2006 Kleber Silva

    Os acontecimentos de São Paulo constituem uma tragédia anunciada e podem sem sombra de dúvida serem lançados na conta do tucanato por uma série de motivos . Em primeiro lugar porque o psdb já está a frente do governo daquele estado há mais de uma década e não fez nada de concreto para evitar que a situação chegasse a esse ponto . FHC cumpriu dois mandatos presidenciais com maioria no congresso e também nada fez , nenhuma medida , que coibisse o crime organizado . Tiveram inúmeras oportunidades para combater o crime organizado , mas abandonaram a população à mercê dos grandes criminosos . O PCC foi criado em 1993 e de lá para cá , a criança virou gigante . Será que as autoridades da época não perceberam ou simplesmente ignoraram a organização criminosa ,jogando-a para embaixo do tapete ( com fins eleitorais )? Para complicar ainda mais a situação , o atual governo de São Paulo ,permitiu que fossem concedidos 12.000 indultos no dia das mães para condenados que provavelmente engrossaram as filas dos malfeitores que aterrorizaram o estado .Infelizmente o povo de São Paulo está colhendo o que os políticos plantaram e estão pagando um alto preço . Aliás muito alto e amargo .

  12. Comentou em 16/05/2006 C. Cruz

    Esqueça minha observação no último comentário… já escreveu sobre o sensacionalismo.

  13. Comentou em 16/05/2006 C. Cruz

    O panóptico não está mais presente para disciplinar, e sim para conter massa de excluídos. Construir cadeia não resolve, sair matando não resolve. Weis, seria interessante vc falar sobre a cobertura sensacionalista que contribuiu para transformar a bagunça em caos na cidade.

  14. Comentou em 16/05/2006 Angélica Matos

    Muito conveniente a atitude da mídia de considerar antiética qualquer ligação política com a crise vivida pelo ESTADO de São Paulo. Para a mídia, ligar o PSDB e o PFL a qualquer fato que lhes façam perder voto é profundamente reprovável. Faço questão de lembrar, novamente, que a (IN)SEGURANÇA do Estado de São Paulo está sendo coordenado pelo PSDB há 12 (doze) anos e que, NESTES DOZE ANOS, O GOVERNO FEDERAL ESTEVE NAS MÃOS DO PSDB (FHC) POR 8 ANOS.

  15. Comentou em 16/05/2006 Antonio Prado da Silva Prado da Silva

    Sociedade desorganizada, crime organizado. A cidade de SP quase parou por bandidos filiados. Está na hora de fazer grandes protestos para mostrar a sua insatisfação diante de uma guerra não declarada em que o que aconteceu não será o primeiro e nem o último.

  16. Comentou em 16/05/2006 Pablo Amorim

    Caro Weis,

    Gostaria de saber por que o nome de Alckmin desapareceu de quase todos os canais de informação. Basta um rápida consulta nos mecanismos de busca de todos os sites (Globo, Uol, Terra, Nominimo, Folha, Estado) e não o encontraremos. Depois dirão que não há uma atuação parcial da mídia. Pelo que se percebe, a imprensa tem buscado responsabilidades em âmbitos absolutamente inacreditáveis. Já vem dizendo que o problema é o celular, como se há dez anos atrás fosse tudo tranqüilo. E como se bastasse arrancar as línguas dos presidiários. Depois, inventam que o problema é federalizado, embora saibamos que ele é estadual. O que há por trás disso? Será que a mídia continuará, em sua maioria, a reproduzir os discursos das autoridades?

  17. Comentou em 16/05/2006 Fabio Martins

    Sr. Weis. Em síntese ou em tratado, diria na essência: seu olhar e refletir sobre a tragédia do crime organizado e da desorgada repressão habitual, — como é de seu estilo, está irretocável. Desafortunadamente ali não está a sua verdade.Mas, a nua,crua,dura e pura verdade, que agride, fere e mata sentimentos, pensamentos,vidas e dignidade dos individuos e pessoas de Bem.Quanto ao agir em geral das ‘autoridades’, me parece que ao acompanha-lo, a maior sumidade em ficção de histórias de terror e os ilusionistas mais baratos ficariam profundamente desiludidos, por serem incapazes de realizar, divulgar e endeusar esse jeito de atuar ante milhões de pessoas, em diferentes graus, atingidas por uma tragédia, como esta deflagrada, em particular, contra a Cidade e o Estado de São Paulo.

  18. Comentou em 16/05/2006 José Silva

    Se os brasileiros amasem este País, como amam seus times de futebol, que chegam a ponto de brigar e matar para defender seus
    clubes, talvez nossos governantes fossem mais responsáveis.
    Mas como se diz por ai, cada povo tem o governo que merece.
    Quem for inteligente neste Pais, comece a juntar muito dinheiro e
    caia fora, va para um Pais onde o povo seja Patriota, porque isso aqui
    é terra de ninguem.

  19. Comentou em 16/05/2006 Rigoberto Alves

    Parabéns. Internet tem muita porcaria, mas pesquisando há pessoas comprometidas, como o Senhor, com a seriedade na gestão das políticas públicas.

    Abraços

  20. Comentou em 16/05/2006 Marcio Flizikowski

    Falou um monte e, na minha opinião, não disse nada. O que levou a situação atual? Qual estrutura permitiu o surgimento e fortalecimento do crime organizado que hoje opera como uma super indústria? Não acredito que bandidos sem formação e educação consigam estruturar mega-corporações, tão ágeis e eficientes como o crime organizado se apreseta hoje. Matar os bandidos nas ruas é apenas colocar band-aid na ferida. A solução é atacar a doença verdadeira. Onde moram e trabalham os grandes chefes do tráfico? Talvez a resposta esteja no Morumbi e na Av. Paulista… talvez…
    Bem, para concluir, há pouco tempo houve outra crise nas penitenciárias em São Paulo. Na época foi prometido que seriam instalados sistemas de bloqueio de telefones celulares. Quem prometeu e não cumpriu? Quem governava São Paulo?

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