Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Como lucrar com as entrevistas de Jefferson

Por Luiz Weis em 10/02/2006 | comentários

A entrevista do então deputado Roberto Jefferson que introduziu no léxico político brasileiro a palavra mensalão não foi uma iniciativa da Folha, que a publicou em 6 de junho do ano passado. Ele mesmo contou que tinha partido dele a idéia de procurar o jornal.


Hoje, no que não tem cara de mera coincidência, o mesmo Jefferson comparece na Folha, via blog do colunista Josias de Souza, e no Estado, com duas entrevistas quase idênticas em separado – chamá-las de exclusivas não seria correto, porque evidentemente a força do termo está no seu caráter singular.


Não é impossível que também nesses casos a iniciativa sido do político cassado, que parece contar com uma assessoria de imprensa que sabe como se fazem as notícias.


E daí? Daí que, quando uma fonte procura a mídia dizendo ter revelações a fazer, o que disso resulta deveria ser lido com um pé atrás. Porque não existe, ainda mais em política, esse negócio de revelação desinteressada, mesmo na incerta hipótese de ser verdadeira.


Só que o pobre do leitor, não sabendo quem tirou quem para dançar – o informante ou o caçador de informações –, deixa de ter uma referência valiosa para julgar o que lê.


Órgãos de mídia parecem achar um desdouro jogar limpo com o público, informando que Fulano de Tal os procurou para dizer isso ou aquilo – e não o contrário, como o distinto é sempre levado a crer.


No caso em questão, haja pé atrás – não bastasse a fama que Jefferson carrega nas costas.


No mesmo dia em que a CPI dos Correios afinal aprovou a convocação do ex-diretor de Furnas, Dimas Toledo, o ex-presidente do PTB dá a dois jornalistas de diferentes veículos a sua versão do chamado esquema de Furnas – cuja parte visível seria a tal da lista de autenticidade duvidosa com os nomes de 156 tucanos, pefelistas e políticos de outros partidos que teriam recebido por fora perto de R$ 40 milhões em 2002.


Jefferson diz que Dimas o procurou em abril do ano passado com uma oferta de mensalão. Seriam R$ 1,5 milhão para o seu partido – e outro tanto para o PT.


Dimas ocupava uma diretoria de Furnas por indicação do PTB. O presidente Lula o tirou do cargo em maio.


Pausa para reflexão. Até agora, quando se falava no caixa 2 alegadamente administrado pelo doutor Dimas, o PT não estava na mira. Salvo na primeira entrevista de Jefferson, em que ele disse que o partido recebia R$ 1 milhão (metade para o PT mineiro, metade para o nacional). Uma sindicância interna de Furnas concluiu que isso não era verdade.


Na lista que Dimas nega ter feito e assinado em papel timbrado da estatal – o que, cá entre nós, um operador experiente dificilmente faria –, não há nenhum beneficiado do PT.


Jefferson diz na Folha que Dimas “cobria o PSDB. O PSDB mineiro inteiro, o PFL mineiro inteiro, o PMDB mineiro inteiro”, além de oferecer cobertura também para o PTB e o PT.


Sempre segundo o cassado, a idéia partiu do então ministro da Casa Civil, José Dirceu. O negócio não deu certo porque o presidente teria vetado – por razões políticas.


Lula teria dito: “Não, esse cara é um traidor. Ele é tucano. Botamos R$ 1,5 bilhão na Cemig [Centrais Elétricas de Minas Gerais] para fazer o programa Luz para Todos nas favelas e ele só botou placa do governo do Aécio.”


Na semana passada, Jefferson afirmou ter recebido R$ 75 mil do dimasduto. Agora, nas entrevistas, diz: “No que me toca, a lista é verdadeira. No resto ela tem lógica política e se assemelha à verdade.”


Detalhe – ou mais do que isso, quem sabe:


Em dado momento da entrevista a Josias de Souza se lê: “A pressão que eu recebi [para manter Dimas no cargo], até do… Não vou falar.”


Em dado momento da entrevista a Ana Paula Scinocca, do Estado, se lê: “Eu recebi enorme pressão. Não quero mais falar. Cansei de ódio. Me tira fora dessa.”


Pode-se acusar Jefferson do que se queira. Menos de não ter senso teatral.


O que parece ter sido momentaneamente esquecido pelos editores dos dois jornais que deram títulos de página inteira para as novas narrativas jeffersonianas.


Enquanto elas não forem corroboradas, terá bom lucro o leitor que comprá-las pelo que valem e revendê-las pelo que o seu autor quer que se ache que valem.


***

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