Terça-feira, 22 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

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Contexto, a nova palavra chave do jornalismo

Por Carlos Castilho em 16/03/2007 | comentários


Quando os jornais e a televisão tinham o monopólio da agenda de notícias oferecida ao público, a assimilação de informações era muito mais simples. Mas depois do surgimento da World Wide Web, como veículo de comunicação, qualquer notícia passou a ter dezenas de enfoques possíveis, o que complicou extraordinariamente a preocupação por entender o que está acontecendo.


A Web deu a milhões de pessoas a possibilidade de publicar notícias e participar da formação da agenda pública através de comentários e novas informações sobre o que é publicado. Um simples crime passional passou a ter dezenas de versões diferentes, na medida em que testemunhas, parentes, desafetos, vizinhos, amigos e colegas, tanto do agressor como da vítima, passaram a ter, potencialmente, a possibilidade de serem ouvidos.


não há mais coincidência sobre o que é notícia. Por exemplo, o esperado aumento da colheita de cana pode ser visto por um lado positivo (os usineiros vão faturar muito), por outro negativo (os ambientalistas esperam uma devastação ambiental), os trabalhadores sem terra cobrarão maiores salários, o preço do álcool pode cair provocando a alegria dos donos de automóveis mas o desânimo dos exportadores, e por aí vai.


A notícia em si já não tem mais tanta importância pois o que vale é o contexto, ou seja as circunstâncias em que ela teve ou terá lugar. A determinação do contexto torna-se a principal função do jornalista, que além de apurar a notícia segundo as regras convencionais (o quê, quando, porquê, como) está tendo agora de dar igual prioridade à descrição dos diferentes contextos sociais, econômicos, políticos e culturais onde o fato aconteceu.


Quem já trabalhou numa redação jornalística sabe que a simples apuração de uma notícia já é um processo complexo e que toma muito tempo, se for bem feita. Se tomarmos agora que o contexto também deve ser investigado, verifica-se que a sobrecarga de trabalho aumenta proporcionalmente, tornando óbvio que um profissional não pode dar conta de tudo.


Como as redações jornalísticas foram enxugadas ao máximo, por conta de políticas de contenção de gastos, não é necessario muita imaginação para verificar que a manutenção de uma qualidade mínima na produção de notícias contextualizadas exige mais gente do que a que conseguiu manter seus empregos na imprensa.


É aí que entra o chamado jornalismo cidadão, ou seja, pessoas comuns participando do processo de coleta, edição e publicação de notícias. Sem elas, a cobertura local, o monitoramento de governos municipais e a informação policial passam a ser inviáveis porque os jornais, rádios e TVs não tem gente para estar nos lugares onde os fatos acontecem dentro de uma cidade.


Em teoria, o jornalismo cidadão pode até ser uma solução para os dilemas da imprensa, mas o problema é bem mais complexo do que a simples incorporação de mais gente na coleta de notícias.


A idéia de contexto está diretamente associada à da diversidade de visões sobre a realidade social em que vivemos. Não há mais uma única verdade, mas sim várias, sem que uma seja melhor do que a outra. São simplesmente diferentes. Isto significa que tanto a visão do usineiro como a do ecologista, do bóia fria, do exportador e a do dono de um carro movido a álcool são qualitativamente iguais porque correspondem a uma parte da realidade.


A incorporação da idéia de contexto ao quotidiano das redações e dos jornalistas cidadãos faz com que profissionais e amadores sejam obrigados a abandonar atitudes rígidas, tipo dono da verdade, para adotar posturas mais flexíveis.


A realidade com a qual o jornalista se defronta diariamente é demasiado complexa para que ele tenha a pretensão de querer entendê-la em sua totalidade. O jornalismo sai de uma era das posturas absolutas, tipo certo ou errado, bom ou mau, alto ou baixo, grande ou pequeno, para entrar numa fase de relativização de tudo e todos. Não vai ser fácil esta mudança, mas ela é necessária e inevitável, porque o mundo fora das redações já mudou e vai mudar mais ainda.

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/03/2007 José Antonio Oliveira

    A verdade absoluta, imutável, a explicação definitiva, sobre qualquer fenômeno,até então não é conhecida. Temos é a melhor explicação possível daquele fato ou fenômeno, em constante aprimoramento, principalmente, pela ampliação das discussões e pesquisas. O contraponto é justamente a tentativa de manter o status quo, pelo controle da geração de conteúdos. Isso ocorre também no mundo científico. Cada vez mais a indústria de tecnologia financia e controla as pesquisas. Seguindo sua lógica, que é a da própria sobrevivência e ganho, desvinculada das reais necessidades da população. Vide o grande número de problemas que afligem os brasileiros, os investimentos em pesquisas para soluciona-los, a desproporção quanto aos investimentos naquilo que em existe maior propabilidade de retorno financeiro. No mundo científico e midiatico existe uma grande convergência, dominada por conglomerados. Nossos governantes, incluindo os brasileiros, apesar dos discursos, se prendem à iniciativas tímidas, sem uma perspectiva histórica. Senão porque essa dificuldade para se legalizar uma rádio comunitária? E a dependência da industria farmaceutica privada para pesquisas, ou mesmo realização de encontros cientificos na área médica? A Internet não ficará imune a essas tentativas de controle. exemplos recentes e antigos nos mostram que não. Os lobbies são eficientes. Temos uma boa briga pela frente.

  2. Comentou em 21/03/2007 Rafael de Araujo Aguiar

    Cara Ylza,

    É essa tendenciosidade que não pode haver.

  3. Comentou em 19/03/2007 Lúcia Nunes

    Cara colega Izabel Guimarães: acho que deste no ponto. Contexto é tão somente isto que descreves, ou seja, buscar as origens de um problema, de um acontecimento. Encontrar o fio da meada, e, na medida do espaço disponível, desenrolar a maçaroca das informações, às vezes até conflitantes… Um desafio e tanto para os profissionais da informação, que somos nós, os jornalistas. Quem acha que a nossa profissão é dispensável pensa parecido com quem se automedica: esses médicos pensam que sabem tudo… É uma verdade que não somos a cura para os males do mundo (nem mesmo os médicos curam sempre seus pacientes), mas se ficarmos somente no relato, na mera descrição, apenas reportaremos, no sentido mais básico do termo. Isso exige uma certa ousadia, com muita prudência, é claro… Espero ter acrescentado algo ao debate. Leve adiante seu projeto de estágio para conclusão de curso. Boas idéias são sempre alvissareiras. Parece muito bom.

  4. Comentou em 19/03/2007 Izabel Guimarães

    Quando eu era estagiária da TV Globo, imaginei para o nosso projeto de conclusão um programa que se chamaria ‘Contexto’. A idéia era inserir fatos tratados como isolados na história recente… ex: de onde vem as enchentes, quando começaram, quais são os fatos que levaram a ela etc.
    Sei que o ‘contexto’ neste caso está sendo aplicado de outra forma, mas em um caso ou em outro sinto que falta profundidade na cobertura jornalística… falta aquela coisa fundamental de se olhar para os diferentes ângulos do fato.

  5. Comentou em 19/03/2007 Humberto Carvalho

    Desde o surgimento do jornalismo, a palavra-chave chave para seu sucesso é CONTEXTO. É só notarmos como os jornalistas que a utilizaram se destacaram, tiveram sucesso na profissão (sucesso não é fama). O modelo de jornalismo praticado em nosso país está falido há muito. Só Zeus sabe até quando ele e nós iremos aguentá-lo.
    O surgimento de um gênero jornalístico denominado investigativo é apenas uma das provas de que um jornalismo sério de apuração está falindo, precisando uns jornalistas que fazem o trabalho correto se afirmarem como especiais, Investigativos, por desempehnarem bem o principal fundamento da profissão, a apuração.

  6. Comentou em 19/03/2007 Ylza Costa

    Continuam existindo prioridades. Devastação ambiental é prioridade. Lucro de usineiros é terciário.

  7. Comentou em 19/03/2007 Francisco Bezerra

    O que a imprensa fazia e tenta timidamente minimizar na atualidade tem nome, é falta de respeito pela inteligência dos interlocutores. Não vislumbro no horizonte mudanças assim tão radicais, posto que o poderio continua secularmente intocado nas mãos das quatro famílias da realeza, com ramificações nas sesmarias do parlamento. A trave no olho do contexto é a falácia da ‘formação de opinião’ que a imprensa teima em não despir.

  8. Comentou em 18/03/2007 Lúcia Nunes

    A idéia de ‘abandonar atitudes rígidas’, grifado pelo jornalista Carlos Castilho combina com a WWW. Um enfoque bem realista, dada a profusão de informações da internet. Além disso, apresenta-nos uma visão ampla, mas discutível, a meu ver ver. Tendo a concordar o prof. e jornalista José Malveira, de Limoeiro, no Ceará. Concordo que o ‘contexto’ é importantíssimo, mas a ‘relativização’ é uma possibilidade perigosa no exercíico de nossa profissão. Aliás, tem sido muito incentivada nesta ‘nova era’ a da ‘pós-modernidade’. Tal como o prof. Malveira considero que a verdade não é relativizável. Ela pesa e muito na balança dos acontecimentos do mundo. Por exemplo, no comentário do advogado (perdoe-me, esqueci seu nome) neste espaço, os jornalistas são meros estudiosos da ‘era Bush’, ou seja, é a extrema arrogância de quem está no poder (em todos os seus escalões). Ou seja: o assessor de Bush cinicamente afirma que ‘nós’ somos um império, ou seja, ‘construímos a realidade, a criamos, enquanto vocês (jornalistas) a analisam, estudam…’ É inaceitável tal coisa. Quando nos confurdirmos com a WWW devemos nos lembrar das constituições dos países, no que elas tê de universal: respeito aos direitos humanos, transparência na gestão pública, salários dignos, educação, saúde pública, etc. Se formos relativistas nestas questões teremos, infelizmente, mais meninos e meninas mortos pelas ruas…

  9. Comentou em 18/03/2007 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Ciente disto, o governo Bush passou a empregar a ‘boa e velha’ técnica da NAZISTA de propaganda como substituto da informação para convencer seus cidadãos de autorizar uma guerra no Iraque com base em informações falsificadas. Reproduzo aqui um fragmento bastante ilustrativo sobre a forma como o governo da maior potência se comporta em relação a informação: ‘“Um ‘consultor sênior’ de Bush, cujo nome não foi revelado, declarou recentemente ao jornalista Ron Suskind que pessoas como Suskind eram membros ‘do que nós chamamos de comunidade baseada na realidade’: aqueles que ‘acreditam que as soluções emergem do estudo judicioso da realidade discernível’. Contudo, ele explicou, ‘esta não é mais a forma através da qual o mundo realmente funciona. Nós somos um império agora e, quando agimos, criamos nossa própria realidade. E, enquanto você estiver estudando esta realidade (…) agiremos mais uma vez, criando outras novas realidades, que você poderá analisar também, e é assim que se organizam as coisas. Somos os atores da história, e você, todos vocês, serão encarregados apenas de estudar o que fazemos’. ‘ Eliot Weinberger no seu livro Crônicas da Era Bush (Record, 2006)

  10. Comentou em 17/03/2007 José Lima Malveira

    A imprensa vive hoje um desses momentos históricos em que convencionalmente dizemos que está havendo uma de “mudança de paradigma”. Entre o pasmo e uma espécie de encantamento, testemunhamos uma multiplicação extraordinária das facetas da realidade. Uma simples comprovação disso são os telefones celulares dotados de câmara fotográfica, que transformaram seus proprietários em milhões de potenciais fotojornalistas. As explosões no metrô de Londres foram o primeiro indício dessa tendência: fotografias de baixa resolução ocupando as primeiras páginas dos maiores jornais do mundo, ainda com cheiro de enxofre e respingos de sangue. Foram os fatos literalmente vistos “por dentro”, ou seja, pelas vítimas. Na análise desse “contexto” — não há ironia no emprego desse termo —, não simpatizo com o termo “relativização”. Ele nos passa uma idéia de absoluta falta de peso, como se fosse impossível a construção de algum tipo de verdade. Prefiro imaginar que, agora, mais olhos e mentes são responsáveis pela construção da realidade da notícia, o que incrementa o seu poder e inibe sua manipulação muitas vezes irresponsavelmente grosseira.

  11. Comentou em 17/03/2007 Silas Leite da Silva

    Considero a impossibilidade de apresentação de uma única visão sobre os acontecimentos e contextos sócio-políticos extremamente positiva.
    Hoje já não existem ‘oráculos’ como há poucos anos e, sem dúvida, graças à internet e aos blogs já não se fica tanto tempo sem se ficar ao menos em dúvida. Outro fator, infelizmente não disponível para a maioria da população, é a Tv a cabo. Foi vendo um canal de TV a cabo que soube de uma ação do governo do DF há poucos dias…além de casas e barracos, foram derrubadas igrejas e templos. Sem querer concluir se a ação é correta ou não, posso afirmar que o jornal Correio Braziliense não publicou uma linha sequer sobre o incidente, e por acaso, vi na TV o que a imprensa local omitiu. Cabe lembrar, a esse respeito, que a derrubada de alguns barracos na Via estrutural, por ordem judicial, durante o governo Cristóvam Buarque, rendeu primeira página no mesmo jornal.
    Prova de que o que o jornalista Carlos Castilho denomina neste bom artigo ‘dezenas de enfoques possíveis’ é , por exemplo, eu poder escrever aqui no Observatório da Imprensa. Se houvesse, à época da edição do debate Collor X Lula pelo Jornal Nacional, internet e blogs como existem hoje, não seria exagero algum afirmar que nossa história teria sido diferente.
    Viva a diversidade! Vive la Diference!

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