Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

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Crise na imprensa: sucessão de notícias ruins

Por Carlos Castilho em 03/09/2010 | comentários


Os prognósticos financeiros da imprensa, em escala mundial, mostram que não houve reversão nos indicadores da saúde corporativa, o que reforça a tese de que mudar custa muito dinheiro, mas não mudar pode sair ainda mais caro. Tudo porque as grandes empresas, tanto da mídia impressa como do audiovisual, vacilam diante do impasse entre esticar ao máximo as estruturas analógicas de produção e dar um salto no escuro na digitalização completa.


Esta transição de modelos tem como grande protagonista o miliardário australiano naturalizado norte-americano Rupert Murdoch, que está apostando suas fichas na imposição do acesso pago às notícias publicadas na internet. Os seguidores desta alternativa amargaram, na semana passada, dois grandes revezes. Primeiro, foi o informe da Associação Mundial de Jornais (WAN – World Association of Newspapers) revelando que a venda de jornais impressos em todo o planeta caiu mais 0,8% em 2009, chegando agora a um total de 517 milhões de cópias diárias nos 233 países pesquisados.


Depois veio outra notícia ruim para os grandes indústrias da comunicação com os rumores sobre a agonia do CBS News, um dos mais importantes telejornais da televisão mundial. O CBS News, que já foi uma espécie de bíblia informativa de milhões de norte-americanos quando Walter Cronkite era o seu apresentador, teve sua redação cortada até o osso, sobrando apenas 1.400 funcionários em toda a sua rede de repórteres, correspondentes estrangeiros, técnicos e produtores. Hoje o telejornal tem menos de cinco milhões de telespectadores no noticiário do horário nobre, uma cifra irrisória comparada à audiência de 56 milhões nos anos 1980.


O jornal inglês The Times, controlado pelo conglomerado News International, de Murdoch, perdeu 90% de seu público leitor depois da introdução de uma taxa de acesso diário no valor equivalente a 2,65 reais, e acesso semanal por cerca de 5,3 reais. Os números da queda foram passados anonimamente por funcionários do Times ao jornal concorrente The Independent, porque a News impôs uma férrea censura à divulgação de estatísticas sobre os acessos online.


Murdoch pretende ser o grande paladino da cobrança de acesso às notícias publicadas na Web tentando com isto encontrar a fórmula mágica capaz de garantir o fim das agruras financeiras da indústria mundial de jornais, traumatizada, em 2009, por uma redução de mais 17% na receita publicitária das empresas pesquisadas pela WAN.


Os movimentos do dono da News Corporation, que engloba o The Wall Street Journal, são observados com lupa pela maioria dos concorrentes, que inicialmente saudaram a audácia do bilionário de 79 anos mas agora já começam a vê-lo como um dom Quixote de uma causa que parece não decolar.


As estatísticas publicadas pela WAN mostram que na América Latina a queda de circulação paga de jornais foi da ordem de 4,6% em relação aos totais de 2009, uma redução mais aguda do que a registrada nos Estados Unidos, onde foi de -3,4% e menor do que na Europa, -5,6%. A circulação paga subiu apenas na Ásia (+1%) e, surpreendentemente, na África (+4,8%) .


Nos últimos cinco anos, ainda segundo a WAN , a circulação paga de jornais no mundo inteiro subiu 5,7%, alavancada basicamente pelo crescimento na Ásia (13%) e na África (30%) e por um modesto aumento de 5% na América Latina. Em compensação, a circulação paga nos Estados Unidos despencou em 10,6% no mesmo período, seguida pela dos jornais europeus com -7,9% e australianos, com -5,6%.


A publicidade nos jornais também seguiu um padrão descendente. Houve uma redução de 17,9% no faturamento publicitário da indústria mundial de jornais ao longo dos últimos cinco anos. Nos Estados Unidos, as perdas foram de 35%, enquanto na Europa a queda foi de 15% e a Ásia registrou um índice de -5%. A grande surpresa foi o crescimento de 46,5%, desde 2004, no faturamento publicitário dos jornais latino-americanos, movido basicamente pelo Brasil, onde a onda da recuperação econômica permitiu um aumento do consumo interno.


Segundo especialistas citados numa reportagem do jornal The Independent, a queda da circulação dos jornais no mundo inteiro não chega a ser catastrófica e nem representa a entrada no ‘corredor da morte‘ . O problema é que a redução é contínua, o que reforça a convicção de que não se trata de um fenômeno passageiro. É justamente esta constatação que está empurrando cada vez mais executivos das indústrias jornalísticas e da publicidade a colocar o acesso pago ou paywall (‘muro de pagamento’ no jargão inglês) como uma questão de mais de fé do que de razão.


Na verdade, a pobreza crônica de soluções inovadoras para o problema da fuga de leitores e anunciantes para a internet leva os executivos a apostarem tudo na cobrança de acesso,uma solução que até agora produziu mais decepções do que alegrias para a indústria dos jornais e revistas. Trata-se da mesma angústia que toma conta dos responsáveis pelos departamentos jornalísticos das três grandes redes de televisão dos Estados Unidos, que cortaram quase 20% de todo o seu pessoal nos últimos três anos para compensar a falta de anunciantes.


O que parece, no entanto, claro é a resistência dos executivos em optar por uma mudança que represente o abandono do modelo atual de receita. Há uma questão de custo embutida na troca de padrões, mas há também uma questão cultural muito mais difícil de ser alterada. São rotinas e valores muito antigos.


O maior deles é a questão dos custos da mudança. A digitalização dos processos de produção jornalística exige investimentos significativos, mas não é o seu volume que assusta os empresários da imprensa. É a incerteza quanto aos resultados. A convivência com a dúvida é extremamente desconfortável para homens de negócio acostumados a crer apenas nas certezas. Por isso eles têm tanta dificuldade em aceitar a tese de que não mudar pode sair ainda mais caro.

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/09/2010 Karla S M Coutinho

    Há inovações positivas, bem como imposições chamadas de inovação e instituídas sob pretexto de necessária renovação. Em sua maioria, a mídia costuma apoiar o status quo, a economia ortodoxa neoliberal, a qual tem receitado de forma que a classe média perca estabilidade e poder aquisitivo, em escala mundial. Além do mais, a postura de arauto dos poderes constituídos faz com que ela perca em credibilidade – faltam seriedade e compromisso. Assim sendo, a perda de público parece um caso, até certo ponto, de auto-imposição suicida.

  2. Comentou em 04/09/2010 Jose de Almeida Bispo

    Não há retorno. O futuro do jornal impresso é o mesmo da fotografia em preto e branco. Também não será muito diferente com as revistas: tem o mesmo destino já traçado, que tiveram os almanaques. Já a mídia eletrônica não interativa – a TV e o rádio – permanecerão, todavia com poder de fogo reduzidíssimo, em permanente competição com os canais de áudio e video da rede.

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