Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Crises de amanhã, soluções de ontem

Por Andrea Baulé em 07/11/2005 | comentários

Na reta final de seu governo truncado, o então presidente Fernando Collor pediu apoio ao PMDB. O ex-governador Orestes Quércia foi ao Palácio do Planalto mas recusou o que seria um “abraço da morte”. Nem Collor nem o PMDB saíram bem da história. Nas eleições de 1994 para presidente da República, Quércia teve votação humilhante, inferior à do conspícuo Dr. Enéas.

O maior alimento da suposta memória curta do povo brasileiro é a efetiva memória curta da imprensa do país. Leva-se tempo excessivo para enxergar que as soluções de ontem nunca servem para as crises de amanhã.




Guerra de traficantes


A atual “guerra” de traficantes nas favelas da Rocinha e do Vidigal, no Rio de Janeiro, começou em abril de 2004. A mídia registra os confrontos entre bandidos, e entre polícia e bandidos, mas é incapaz de fazer um diagnóstico lúcido, que ajude a população a cobrar políticas de segurança pública eficazes.


Nada vai além do terreno da constatação. É como se fotografar o problema fosse uma maneira de enfrentá-lo. A duração do problema, que revela antes de mais nada a incompetência policial, é um atestado negativo para o trabalho da imprensa.




Armas de fogo




E não é só em relação ao Rio de Janeiro. A televisão mostrou ontem, e os jornais divulgam nesta terça-feira, 28 de junho, estudo da Unesco segundo o qual 550 mil pessoas foram mortas no Brasil com armas de fogo entre 1979 e 2003.


Os defensores do referendo popular sobre porte e venda de armas cobram do Congresso a votação em tempo hábil de projeto que torne possível a consulta ainda neste ano.




Linchamento é pior do que impunidade


O Alberto Dines antecipa a pauta do programa do Observatório da Imprensa que será transmitido hoje à noite pela televisão. Fala, Dines.


Dines:


O ministro da Justiça Marcio Thomaz Bastos está nos jornais de hoje garantindo que não haverá nenhuma hecatombe. Ontem, o Estadão dizia que a Policia Federal iria deflagrar uma mega-operação contra os acusados de corrupção no âmbito do “mensalão”, Correios, IRB e agências de propaganda. O ministro agora garante que tudo será feito com competência, inteligência e calma.


Ainda bem. Pior do que a impunidade é o linchamento, a justiça sumária tem o mesmo efeito da injustiça. O que aconteceu com o Diretor Florestal do Ibama, Antonio Carlos Hümmel preso pela Opera Curupira é um exemplo dramático do denuncismo anti-denuncista. Na pressa de mostrar serviço no momento em que começava o bombardeio contra o governo, o Ministério Público e a Policia Federal prenderam um inocente. E a imprensa foi atrás. Mesmo inocentado, ficou o estigma. Entre a lentidão do judiciário e a sede de justiça a imprensa deveria funcionar como meio termo. É exatamente isso que vamos discutir hoje no Observatório da Imprensa pela televisão, às 22h30 pela TVE e pela TV-Cultura.




Bolha imobiliária e petróleo


A imprensa brasileira ainda não acordou para o perigo daquela que é considerada a maior bolha especulativa de todos os tempos: a bolha dos preços de compra e aluguel de imóveis em países ricos.


Quando estourar, ou mesmo ao se esvaziar em ritmo lento, a bolha imobiliária poderá provocar recessão nos Estados Unidos. O maior vilão nos Estados Unidos é o gigantesco déficit fiscal produzido pelo governo Bush.


A situação européia não é nada brilhante. A economia alemã está patinando.


A mais curto prazo, é preocupante a possibilidade de uma crise de energia em escala global.


Uma parada na economia mundial eliminaria do cenário o mais importante fator favorável à boa saúde da economia brasileira. Nesse caso, a famosa “governabilidade” estaria ameaçada.




Liberdade em risco




Mau sinal para a liberdade de imprensa foi a rejeição pela Suprema Corte dos Estados Unidos, ontem, de um pedido de análise do caso de dois repórteres, do The New York Times e da revista Time, ameaçados de ser presos por se recusarem a revelar suas fontes.



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