Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Críticas 100% certas

Por Luiz Weis em 22/05/2009 | comentários

O físico Francisco Antonio Bezerra Coutinho e o médico Eduardo Massad, ambos professores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, assinam no Valor desta sexta-feira, 22, o artigo “A mídia poderia ajudar”.

O texto trata de um aspecto raramente mencionado da crônica dificuldade de muitos jornalistas em lidar com números – o que os autores chamam de “uso abusivo de porcentagens” nas matérias, enchendo a cabeça dos leitores com cifras que parecem uma coisa e signficam outra.

É o caso de dizer que, embora os professores tenham perpetrado em dado momento do artigo a nefanda expressão “pequenos detalhes”, como se pudessem existir detalhes grandes, as suas críticas estão 100% certas.

Confiram.

“O Brasil tem um problema educacional grave: são muitas as pessoas analfabetas ou funcionalmente analfabetas no país. Melhorar este padrão de educação tem sido, assim, tema de campanha de praticamente todos os candidatos à eleição ou reeleição a qualquer cargo eletivo no governo. O problema existe e a mídia pode ajudar a resolvê-lo. Entretanto, às vezes ela atrapalha em vez de ajudar. Como?

Para responder, vamos considerar não as pessoas analfabetas, mas os brasileiros alfabetizados, que leem jornais diários, publicações mensais, ouvem rádio e veem os noticiários nas TVs – têm, portanto, todo o direito de se considerarem informados dos fatos e capacitados a emitirem opinião abalizada sobre praticamente qualquer assunto. Ora, é exatamente nesse aspecto do grau efetivo de informação da população escolarizada que a mídia poderia, de fato, contribuir muito para sua elevação, se detivesse mais atenção em pequenos detalhes. E aqui queremos abordar apenas um dos hábitos desagradáveis de nossa mídia, enfatizando que é um problema do conjunto dela, sem nenhuma exceção. Trata-se do uso abusivo de porcentagens para ‘ajudar’ os leitores a avaliar melhor e/ou comparar os números apresentados nas reportagens. Vejamos alguns exemplos muito claros nesse sentido:

1) Perdendo tempo: a variação da cotação do dólar em porcentagem.

O dólar é invariavelmente apresentado como tendo subido (ou descido), digamos, 25% para o nível de R$ 2,00 por dólar. Foram dados dois números. E se o leitor desejar saber quanto ganhou (ou perdeu) em real terá que fazer contas. Suponhamos que o leitor tenha US$ 100 e queira saber quanto ganhou em reais. É fácil ver que quem tinha cem dólares agora tem R$ 200,00. Entretanto, não é tão fácil calcular quanto se ganhou. Podemos concluir que antes da subida os US$ 100,00 valiam R$ 160,00 e que o leitor ganhou R$ 40,00.

Se em vez disso tivesse sido apresentada a queda (ou subida) do dólar em reais e o valor final do dólar, a conta a fazer seria apenas uma (de soma ou subtração). Portanto, a noticia correta, informativa e simples seria: ‘o dólar subiu 0,40 centavos em relação à cotação anterior, fechando em R$ 2,00’.

Conclusão: Não há nenhuma vantagem em apresentar a variação porcentual do dólar. Seria desejável não usar porcentagens que levam à necessidade de se fazer mais cálculos para se chegar a um resultado útil.

Mas neste caso, diria o leitor, não se perdeu muito. Afinal são apenas cálculos extras. Veja a seguir como o uso de porcentagens vai levando o leitor à erros gradativamente mais graves.

2) Confundindo tudo: o aumento da produção do petróleo no Brasil em relação ao mundo.

Considere a seguinte notícia: ‘No Brasil o aumento da produção de petróleo em 2007 foi de 30%. Este aumento é espetacular quando comparado com o aumento da produção mundial que no mesmo período foi de apenas 5%’. Vamos agora mostrar que quem leu, ouviu ou viu essa noticia, não ganhou nenhuma informação relevante. Afinal, o aumento da produção em barris no Brasil foi maior ou menor que o aumento de produção do mundo? Pela notícia dada pode ter sido maior ou menor! Suponha que o Brasil tivesse produzido 10 barris de petróleo em 2006 e 13 barris de petróleo em 2007. O aumento de produção, três barris, daria um aumento porcentual de 30%. Por outro lado o aumento mundial de ‘apenas’ 5% seria maior se a produção mundial fosse de 100 barris. (5% de 100 ou 5 barris). Ao contrário, se a produção mundial de petróleo tivesse sido de 40 barris, o aumento de 5% teria sido dois barris, ou seja, menor do que o aumento da produção brasileira.

Em vez disso, o aumento deveria ser dado em barris de petróleo nos dois casos, para o Brasil e para o mundo. A vantagem seria que, diferentemente da situação em que são dadas variações porcentuais de duas grandezas diferentes, informação relevante teria sido transmitida.

Conclusão: O uso de porcentagem para comparar crescimento ou diminuição de coisas diferentes é errado. Quase invariavelmente pode dar uma impressão falsa das variações que se deseja comparar.

3) Errando feio: o uso de porcentagens em medicina.

Para terminar, vamos apresentar um exemplo de erro crasso que se pode cometer ao imaginar que percentagens podem ser promediadas, somadas ou subtraídas. Suponha-se, por exemplo, que dois pesquisadores médicos, X e Y, tenham resolvido fazer uma pesquisa sobre a eficiência de certo remédio. Para isso o doutor X escolheu 140 pacientes, tratou 100 com a droga em questão e 40 com placebo (substância inerte). Entre os tratados com a droga, 66 se recuperaram. Um sucesso de 66%. Entre os pacientes que receberam placebo 60% se recuperaram e assim o doutor X não tem muita dúvida de que o remédio é marginalmente eficiente. Já o doutor Y escolheu 700 pacientes, tratou 200 com a droga e 500 com o placebo. Entre os que tomaram a droga, 180 se recuperaram, isto é, 90% dos casos. Já entre os que tomaram placebo apenas 430 se recuperaram isto é, 86% dos casos.

Vale notar que nos dois estudos o porcentual de casos bem sucedidos entre os tratados é maior que o porcentual de casos bem sucedidos entre os que se trataram apenas com o placebo. Parece não haver dúvida que o remédio promete. Verdade? Infelizmente não! Deve-se perceber que juntando todos os casos, entre os tratados com a droga, ou seja, 300 indivíduos, apenas 246 foram bem sucedidos, isto é 82%, enquanto que entre os tratados com o placebo, 454 indivíduos, isto é 84%, curaram-se. O placebo, na população combinada das duas amostras, parece melhor que o remédio!

Caso o leitor fique, mesmo momentaneamente, surpreso com o exemplo, fica demonstrado que o uso abusivo de porcentuais já o está afetando. O resultado não é milagroso: apenas mostra os perigos de se tentar tratar proporções como se fossem números que podem ser promediados, somados, etc. Em geral não podemos fazer isto. A mídia poderia ajudar a educação brasileira usando frações mais parcimoniosamente e não a todo o momento e em todos os casos. Este exemplo foi tirado do livro ‘Why buses come in threes?’, [por que os ônibus vêm em trincas?] cujos autores são Rob Eastway e Jeremy Wyndham.”

Todos os comentários

  1. Comentou em 30/05/2009 SERGIO GRUSCA

    O pior é que no lugar de as pessoas, se virem forçadas a fazerem algumas continhas daqui e dali, há noticiário que demonstra o total conhecimento dos valores citados pelos jornalistas, por exemplo: UM CAMINHÃO CARREGADO COM 12 MIL TONELADAS, TOMBOU, AO FAZER A CURVA DA AVENIDA TAL……
    Teríamos algo semelhante a uma pirâmide de milho (doze milhões de quilos).
    Pior ainda, são os relatórios de empresas, tais como, FURNAS.
    Aqui em Minaçu, existe uma enorme represa, no Rio Tocantins.
    Segundo os informes oficiais, publicados, ela nunca chegou a preencher mais que 67% do seu potencial.
    Nunca ficou claro ao público, se isso se refere ao nível do espelho d´agua ou o volume.
    Nunca nos é explicado porque ela nunca encheu; se for falta de chuva,por que soltam as águas em plena época de sêca? (além daquela que move as turbinas).
    Cansei…..deixa as águas rolarem.

  2. Comentou em 30/05/2009 michel chad

    O uso exagerado de porcentagens nas matérias publicadas, muitas vezes denota uma arrogância do saber.
    Coloca o repórter num pedestral acima dos leitores, como um experto no assunto abordado.
    Assim ele pensa que ao reduzir as suas informações a estatísticas, principalmente a porcentagens(%), o escritor apresenta um domínio do assunto consistente, técnico e preciso.
    Quanto mais exato o valor, maior é a ilusão. Por exemplo: 78,7% dos leitores leem horóscopo ou 80% dos leitores leem horóscopo, qual das duas formas parece ser mais cientìfica?
    O uso de qualquer ferramenta linguistica, inclusive da estatística, pede bom senso de quem a cria.
    Questionamentos como:
    Qual o público alvo desta matéria?
    De fato, esta informação é mais esclarecedora se expressa por porcentagem?
    Posso arredondar esses valores (casas decimais) visando facilitar a compreensão do leitor?
    Nós leitores agradecemos 100%

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