Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Críticas à imprensa: Onde há fumaça pode haver fogo

Por Carlos Castilho em 14/02/2006 | comentários


(Antes de tudo uma explicação: estive fora do ar desde sábado devido a um travamento no meu computador que impediu o acesso ao disco duro. Já foi tudo resolvido)


Os comentários feitos ao texto anterior sobre os xingamentos em weblogs reforçaram uma dúvida ou inquietação surgida desde que o escândalo mensalão contaminou a blogosfera brasileira. Há tempos venho me dedicando à leitura dos comentários nos blogs políticos nacionais porque fiquei impressionado com dois fenômenos: a profunda frustração com os políticos; e a crescente irritação em relação à imprensa.


A primeira é bem conhecida mas a segunda é mais dificil de ser constatada porque a visibilidade das críticas só poderia acontecer através da própria imprensa. Os blogs passaram então a funcionar como uma espécie de válvula de escape da opinião pública e, embora não possam ser considerados uma amostra científica da opinião pública, servem, pelo menos, como uma fumaça capaz de identificar onde pode haver fogo.


É possivel ver muita fumaça em comentários sobre o caso da infeliz expressão ‘idiotas de plantão’, que tocou num nervo sensível de várias pessoas. Ressentimentos vieram a tona mostrando que nem tudo são flores na relação entre os jornalistas e seu público.


O simples fato desta fumaça ter sido percebida gera, na minha opinião, a necessidade de uma análise do problema porque ele envolve a própria essência do jornalismo, já que nossa profissão não existe sem o público. A necessidade desta avaliação da nossa realidade informativa aumenta ainda mais quando se percebe claramente em vários comentários que muita gente já associa os jornais aos políticos e ao governo, embora as pesquisas dêem à imprensa um grau de credibilidade muito superior ao dos partidos, do poder executivo e do legislativo.


As críticas à imprensa nos comentários de blogs podem ser vistas como uma manifestação de uma minoria e portanto desconsideradas ou como a expressão de que algo não funciona bem na relação entre os jornalistas e seu público. A primeira hipótese significa assumir que o problema não existe, enquanto a segunda implica um exame de consciência num momento bastante difícil por conta da radicalização que normalmente surge em períodos pré-eleitorais.


Os leitores acham que os jornalistas são donos da verdade, enquanto os profissionais da informação reagem às críticas como se fossem agressões pessoais. O importante, e que pode ser feito, é procurar analisar e contextualizar o que o outro lado está dizendo. Sem isto caminharemos para o distanciamento mútuo, que prejudica mais o jornalista do que seu leitor.


Me arrisquei muito neste post porque mexi numa abelheira, mas acho que tenho o dever de dialogar com os leitores mesmo correndo o risco de errar ou ser mal interpretado. Eu acredito no jornalismo como uma grande conversa e não como um discurso ex-catedra.


Aos nossos leitores: Serão desconsiderados os comentários ofensivos, anônimos e os que contiverem endereços eletrônicos falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/02/2006 Francisco das Chagas Alves

    É dito que somos um país de poucos leitores. Concordo. Causa ou efeito, escândalo sempre foi a palavra mágica para a imprensa. Não só aqui. Mas por estas bandas, ‘vou acabar ficando nu para chamar sua atenção’ tem sido sempre a fórmula para vender. Então, não descarto a hipótese de se forçar a aparição de algum. E a internet – penso eu – vem acirrar a briga, que é semelhante ao fim da feira: mercadoria demais para poucos interessados. Não vejo – regra geral – grandes altruísmos na imprensa. Nem pequenos. Ela se coloca, sem se vexar, como mais um produto na prateleira. Eu, leitor, não consigo enxergar interação com a imprensa. Antes de mim, o jornalista tem em mente seu emprego, seus pares, sua intervenção no tabuleiro político – não necessariamente nessa ordem. Acho que a imprensa escrita no formato atual tem seus anos contados. A ela deve caber o boletim do bairro, da pequena cidade. Como somos um país de poucos leitores… O cotidiano nacional e mundial está na internet. Talvez aí a notícia tenha menos a cara de um produto à venda.

  2. Comentou em 16/02/2006 Markus Wolf

    Crise é uma época de oportunidades. Mas também de oportunistas. Tanto na política quanto na imprensa. O problema é que agora qualquer denúncia contra o governo é imediatamente taxada de ‘golpismo’. Me incomoda muito esse mau humor contra a imprensa. Revela implicitamente um certo autoritarismo por parte de alguns eleitores e políticos, uma vontade mal disfarçada de tentar pôr um freio no trabalho jornalístico. Dá-se a impressão de que agora é proibido criticar o governo. Essa mania de teoria conspiratória que tomou conta de parte do país já está irritando. Evidentemente excessos foram cometidos, mas como já foi citado no Observatório da Imprensa algumas vezes: Waldomiro Diniz, Marcos Valério e Delúbio Soares não foram invenção da mídia.

  3. Comentou em 16/02/2006 Miguel do Rosário

    prezado carlos, muito pertinente esse seu post. Mostra uma consciência democrática e uma reflexão inteligente sobre o que está acontecendo. Também acompanho blogs políticos e seus comentários. Você viu fumaça? Eu concordo com o comentarista Eduardo Guimarães: vejo labaredas a km de distancia. Falta agora você dar um passo adiante e ter coragem de tirar a conclusão lógica: a imprensa tentou um golpe político em 2005, e isso foi muito irresponsável e anti-democrático. Claro que o PT errou em fazer Caixa 2, mas a maneira como o problema foi super-dimensionado, amplificado até o absurdo, foi uma agressão à democracia só comparável ao clima golpista de 54 e 64. O povo se viu enganado, confuso, depressivo. Acrise foi escandalosamente usada pela mídia com objetivos partidários e isso foi imperdoável. Criminalizou-se o PT, Lula, presidente eleito com 54 milhões de votos. Até hoje continuam a fazer isso. Foi particularmente absurdo verificar que se tornou um esporte nacional detratar o governo Lula, como se isso fosse muito democrático. Quando as manifestações populares começaram a surgir, ironicamente a favor do governo, a mídia as desqualificou, como se o povo, os estudantes, os trabalhadores só pudessem se manifestar em linha com a opinião dos donos de jornal.

  4. Comentou em 16/02/2006 Sérgio Piccinato

    Prezado sr. Castilho,
    Pelo seu curriculo profissional e vivência,
    sabe o que está acontecendo e porque(ou deveria saber).Li jornais e revistas a minha
    vida inteira e atualmente muito pouco;visito
    o OI quando o trabalho me permite e pouco
    vejo televisão;acompanho bastante a Imprensa
    no rádio e estou satisfeito.O desgaste maior
    que sinto em relação à certa imprensa é a
    percepção que estão me tratando como um
    idiota,um Hommer se preferir e enquanto per-
    durar esse sentimento temo ter de continuar
    somente com a BandNews,Carta Capital e o OI
    três veículos onde sinto que sou respeitado
    e tenho/posso ter atenção.Se me permite perguntar,onde/quem repercutiu a Carta Capital n 378 (fev.),na qual há uma sóbria
    entrevista com o presidente Hugo Chávez? Ou
    então a declaração do sr.Jacques Julliard,
    diretor de redação do Nouvel Observateur ,em entrevista na mesma edição,que declara:
    ‘…Chamar uma rodovia de Ayrton Senna é sinal de subdesenvolvimento:é o esporte que
    substitui o resto da civilização.'(pag.40)
    As mazelas da imprensa devem ser denunciadas
    e execrados seus autores,mas a Imprensa de
    bom nível também deve ter espaço.Um abraço
    cordial,Sérgio.

  5. Comentou em 15/02/2006 Werner Muller Ciriaco

    nada contra um jornalista dar o opinião, isso é necessário, sempre existiu, inclusive; mas que o faça de modo claro: assuma a parciliadade, oras! o problema maior eh travestir-se de imparcial; é assim que se engana o povo; é assim que a imprensa maldita escolhe e derruba os governantes; é assim que ela se torna no maior poder do Estado. Outrora ela era considerada um aparelho ideológico do Estado, a serviço do Estado. Hoje é ela que determina o Estado. faz o que quer. E quando qalguém ousa ter a petulÂncia de desafiá-la, o jornalista já quer processar por injúria, ‘poisfoi cometido uma difamação de toda uma classe de tra balhadores honestos’ e se defende ‘ que ele tem a liberdade de expressão etc etc etc’ e toda esta rasgação de seda ignominiosa. que me desculpem os jornalistas, mas 99% desta classe é podre!

  6. Comentou em 15/02/2006 Werner Muller Ciriaco

    A grande questão é: Por que os jornalistas podem ludibriar a quem eles quiserem e um leitor de blog não pode descarregar suas opiniões, seus desabafos de modo verdadeiros? E daí que disseram palavrões? antes palavrões verdadeiros do que eufemismos sendo usados com o intuito de enganar. Tem advogado aí que é louco pra ficar famoso processando alguém por calúnia, injúeria e estas adjacências, ao invés de se preocuparem com problemas maiores, inerentes à profissão exercida por eles. Isso é maior perda tempo: abarrota o judiciário de processos improfícuos baseados nestes direitos de personalidade enquanto muita gente, que realmente precisa, aguarda ao bel prazer da justiça o término dos processos, os quais, por diversas vezes, provoca prejuízos financeiros a quem mais precisa e depende da nossa justiça. a morosidade da justiça já é uma tradição, agora com estes verdugos e oportunistas que ficam processando por xingamentos tende a piorar! Tantas coisas a serem feitas na porra do Brasil e ainda tem gente que se sente no direito de ludibriar com lindas palavras; subestimam a inteligência do leitor e quando são zingados querem seus 15 minutos de fama prá ver se ‘descola’ um troco ou se ‘arruma’ um emprego.Enfim, A hipocrisia, a meu ver, está em querer encher o saco dum juiz por ter sido chamado de fdp e achar um absurdo ferir a liberdade de expressão jornalistas.

  7. Comentou em 15/02/2006 Odracir Silva

    Se os jornalistas nao querem o feed back, entao pq fazer um blog? ou seraa q eles querem somente o reconhecimento? Acho que haa uma grande diferenca entre escrever um artigo de jornal e um post no blog. O artigo de jornal sempre vai mostrar o q o autor quer. No blog talvez nao haja mais este monopolio. O autor do post teraa q interagir com os leitores e vai ter o seu post esmiucado. Se a percepcao do autor for diferente da percepcao dos leitores, qual ee a versao correta? Sobre os abusos, acho q sempre existiu… ou seraa que os jornais/revistas sempre publicam todas as cartas mandadas para a redacao? O problema ee que agora haa uma maior transparencia… nao haa mais uma (grande) editorializacao da secao ‘cartas’.

  8. Comentou em 15/02/2006 Daniel Cittadella Dominico

    Há algo de podre nas relações entre jornalismo-poder, de sobremodo quando o poder é político. Medel é um dos grandes acadêmicos que conceituam o jornalismo como o primeiro poder. Um poder absolutista sem dúvidas. A princípio, a profissão foi o sonho idílico de denunciar abusos contra a sociedade. Entretanto, caímos no ‘fado Rousseau’. O fado da corrupção. Aquele mesmo que fez com que Robespierre começasse a revolução francesa como revolucionário e saísse (se esta é a palavra certa?) como ditador decapitado. Fidel Castro governa Cuba ditatoriamente a pretextos ‘heróicos’ socialistas.
    Uma das grandes certezas que venho aprendendo, é a de que toda revolução sempre acaba em um regime ditador de regras e conceitos. Esse é o destino (e por que não o presente?) da mídia. Saímos da revolução e caminhamos a passos largos para a grande dominação. Certa está a sabedoria popular: ‘Quanto maior é a altura, maior também é a queda’.

  9. Comentou em 15/02/2006 Fabio de Oliveira Ribeiro

    A tendência da imprensa de vender tragédias parece associado a dois fatores: 1º notícias boas não vendem jornais; 2º notícias ruíns vendem, mesmo que não sejam tão verdadeiras e acabem sendo desmentidas em edições posteriores. Karl Marx desenvolveu o conceito de alienação para explicar a ambiguidade da relação que existe entre o trabalhador e o produto de seu trabalho. Este conceito não se ajusta muito bem ao jornalismo, mesmo que o jornal seja uma ‘mercadoria’. É que a necessidade de produzir notícia, produz também dois outros tipos de alienação: 1º o descompromisso com a verdade do que é noticiado, e 2º a certeza da transitoriedade da edição jornalistica. Quem quiser refletir sobre o assunto deve considerar isto. Felizmente, a interatividade está reduzindo a alienação do jornalismo pois ao produzir sua ‘mercadoria’ o jornalista pode ser imeditamente contestado e ser obrigado a refazê-la sob pena de ser publicamente ridicularizado. A inversão de papéis é evidente. Quem acostumou a publicamente ridicularizar deve agora aprender a ser vítima do mesmo tratamento. Tempos interessantes estes, não acha?

  10. Comentou em 15/02/2006 Fabio de Oliveira Ribeiro

    Já tive a oportunidade de afirmar que:
    ‘Quando mais leio os jornais, mais fico perplexo e me descubro desinformado. Alguns jornalistas parecem ser tangidos por um demônio, um Graffiacane dantesco que brande seu longo chicote em que está escrito em palavras de fogo a seguinte frase: AVANTE, EIS O TERROR DO MOMENTO. Nasci em 1964. Portanto, tive o desprazer de crescer vendo a imprensa assustar a população brasileira com o perigo comunista, colocando-nos desde crianças contra os terroristas e outros oposicionistas. Enquanto a população ficava inerte sob o terror da hora, ninguém percebia ou queria perceber que alguns milicos abusavam nos quartéis, nos presídios e, principalmente, na administração pública (privada de um punhado de generais, coronéis e seus vassalos).Na década de 1980, foi a vez de a esquerda dar seu troco demonizando todos os militares. Mesmo os militares que ajudaram a desmontar o regime militar acabaram sendo culpados por todas as mazelas do país. E tudo por um punhado de cargos bem remunerados, viagens ao exterior, etc… Na década de 1990 foi á vez dos ecochatos ficarem nos aterrorizando com uma hecatombe. Puro alarmismo. A hecatombe ecológica tarda, mas provavelmente não aconteceu (e não acontecerá) porque nem o melhor supercomputador do planeta é capaz de fazer um modelo razoável do clima em escala global.’ Sustento estas afirmações e direi mais a seguir.

  11. Comentou em 15/02/2006 Eduardo Guimarães

    Caro Carlos Castilho,
    Vamos dar nomes aos bois. O colunista Clóvis Rossi, da Folha de São Paulo, de uns tempos para cá deu de chamar leitores que acusam a mídia de ‘descerebrados’ e de ‘idiotas de plantão’.
    Vou lhe contar uma coisa: certamente estou entre aqueles a que o colunista em questão
    se referiu. Só que durante anos eu fui seu ‘interlocutor freqüente’, conforme definição dele mesmo em sua coluna. Inclusive, em 2000 e em 2004 ele citou meu nome e meus pontos de vista em sua coluna – o nome e os pontos de vista de quem agora virou ‘idiota’. O que mudou? Mudou que eu comecei a reclamar da atuação da imprensa na crise política. Então passei a dar exemplos que sustentassem minha afirmação. Depois comecei a perder a paciência com a desfaçatez que só fazia crescer. A folha começou a acobertar tucanos e a tratar como fato qualquer denúncia contra petistas. Daí, por conta de minha reclamações progressivamente veementes, virei ‘idiota’. O fato é que esses jornalistas ganham fortunas para dizerem o que seu patrões querem, e seus patrões querem que digam suas próprias opiniões políticas, nascidas de conchavos em intermináveis almoços, jantares e fins de semana compartilhados entre políticos tucanos, pefelês e os famigerados ‘publishers’.
    Você diz que ‘onde há fumaça, há fogo’. Perdoe-me, Carlos, mas as labaredas do incêndio podem ser vistas de quilômetros de distãncia.

  12. Comentou em 15/02/2006 Marcos Silva

    Este Post já me alegra por discutir ou permitir esta discussão: A imprensa precisa de limites e parametros para que possa ser avaliada e controlada no seu intuito de agradar ou prejudicar a ‘bola da vez’. No entanto, a maioria se nega a sequer discutir esta questão se protegendo no escudo da ‘liberdade de imprensa’. E a ‘responsabilidade da imprensa’, onde fica?
    Não seria importante que a própria imprensa criasse estes parametros? esperar que alguem faça pode ser pior!

  13. Comentou em 15/02/2006 Isabel Silva

    A irritação em relação à imprensa é justa.A LIBERDADE DE IMPRENSA é cantada em verso e prosa.E o DIREITO DO LEITOR de saber a verdade dos fatos,como fica?Sou assinante de um Jornal de S.PAULO,mas se quiser saber a verdade,tenho que passear pela INTERNET para descobrí-la.Realmente, a profissão de jornalista não existe sem o público e ele está ficando esperto.

  14. Comentou em 15/02/2006 Luis Prado

    Acho que este post está relacionado com o anterior em um ponto: a censura. Estamos em excluir os comentários ofensivos e abusivos mas quando falamos em alguma regra para a imprensa a grita é geral. Não devemos nos esquecer que assim como temos o ‘idiota de plantão’, nas redações também existe o que posso chamar de ‘idiota da redação’ que acredita ser o dono da verdade, que pode caluniar, que transforma acusados em culpados antes de qualquer centensa judicial, e quando se pensa em alguma maneira de se coibir este tipo de comportamento eles logo gritam ‘censura’. Precisamos de uma imprensa livre,mas presisamos urgentemente acharmos uma maneira de nos protegermos destes abusos.

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