Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Custos caem e grandes empresas jornalísticas voltam a investir em coberturas internacionais

Por Carlos Castilho em 11/10/2007 | comentários

A cadeia de televisão ABC dos Estados Unidos decidiu reativar o funcionamento de sete posições de correspondente estrangeiro em três continentes pondo fim a uma política de redução da cobertura jornalística internacional vigente há pelo menos uma década.


 


Mas o fim do período de vacas magras na cobertura internacional não significa necessariamente que os jornais poderão recuperar os leitores desiludidos com a pasteurização e uniformização do noticiário mundial. O dilema agora vê editorial e tem a ver com a concorrência dos correspondentes free lancers e weblogs de jornalistas cidadãos.


 


O principal argumento para mudar de estratégia é exatamente o mesmo que deu origem à drástica redução do número de correspondentes full time no exterior: custos. Se antes era caro demais, agora, paradoxalmente, ficou barato ter repórteres operando no exterior.


 


A tecnologia é a responsável por esta mudança de rumo, pois agora o mesmo profissional pode operar câmeras digitais, fazer a edição de imagens e sons m computador, produzir textos e publicar tudo isto na página do jornal, emissora ou página noticiosa na Web, usando transmissões de banda larga via telefone por satélite, que opera em qualquer parte do planeta.


 


As outras quatro grandes redes de televisão que dominam o mercado norte-americano no jornalismo internacional também já aderiram à digitalização embora sem a mesma intensidade que a ABC. A NBC, CBS, CNN e Fox já haviam feito algumas tentativas parciais, mas já admitiram que a concorrência acabará obrigando-as a serem mais agressivas na cobertura internacional.


 


O uso intensivo da alta tecnologia em informática e telemática na cobertura jornalística no exterior foi feita às custas de empregos de cinegrafistas, fotógrafos, produtores e secretarias. Agora o correspondente passa a ser uma espécie de solitário “pau para toda obra”. Com menos pessoal e tecnologia mais barata, o custo de manutenção de um correspondente caiu vertiginosamente.


 


A rede ABC gastará com os novos correspondentes no Rio de Janeiro, Seul (Coréia do Sul), Dubai , Nova Delhi e Bombaim (ambas na Índia) . Jacarta (Indonésia) e Nairobi (Quênia), o mesmo que gasta com o escritório em Paris, segundo informações da emissora reproduzidas pelo jornal Hollywood Repórter.


 


Vai ser muito interessante observar como os grandes jornais e redes de televisão desenvolverão sua política editorial em matéria de cobertura internacional porque os correspondentes convencionais enfrentarão a concorrência de weblogs locais, cuja agilidade, diversidade in formativa e visibilidade externa são bem maiores do que a dos enviados estrangeiros.


 


No caso da televisão é inevitável que as estrelas acabem se impondo porque a audiência vai sempre preferir as caras conhecidas  a um anônimo repórter estrangeiro. Mas no caso dos jornais, os blogueiros locais têm maiores chances de aparecer, principalmente em países do Terceiro Mundo.


 


Esta saudável concorrência dos free lancers gera também uma outra conseqüência. Os correspondentes estrangeiros têm muita dificuldade para contextualizar a informação local e tendem a se orientar pela agenda da mídia do país de origem. Esta deficiência é crônica e de alguma forma estrutural, porque o correspondente corre contra o tempo no esforço para captar as minúcias da realidade local.


 


Na era dos blogs estas diferenças de enfoque tendem a se tornar gritantes como mostra a comparação da cobertura da televisão americana no Iraque e o material publicado em blogs locais, ou nas reportagens da imprensa ocidental sobre países africanos.


 


A exigência de conhecimentos em informática e telemática favorece a escolha de profissionais mais jovens e que já tem intimidade com equipamentos de alta tecnologia. Mas, haverá uma inevitável perda de qualidade editorial, porque o posto de correspondente estrangeiro era tradicionalmente entregue a jornalistas experientes, especialmente nos Estados Unidos e na Europa.

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  1. Comentou em 12/10/2007 Ricardo Camargo

    A perda da qualidade editorial, a meu sentir, viria muito menos da questão da inexperiência do que da falta de um arcabouço de conhecimentos anteriores que permita ao profissional a identificação dos nexos entre as pistas que se colocam diante de seus olhos. E o salário de quem está ainda no início é muito diferente daquele do profissional que já tem um nome e é, em si mesmo, um chamariz para o jornal escrito, falado ou eletrônico.

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