Sexta-feira, 22 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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CÓDIGO ABERTO > Desativado

Da Novacap ao valerioduto III

Por Mauro Malin em 05/01/2006 | comentários

Publica-se hoje (5/1) no Estado de S. Paulo crítica à estréia da minissérie JK. A maior preocupação do texto é avaliar se o primeiro capítulo funcionou para capturar ibope. Nessa linha, o convencionalismo estético vira virtude. Com o álibi paradoxal da popularização da História do Brasil: “O conteúdo, disposto a levar até a massa um trecho significativo de sua história (ou ao menos despertar nela a fome de informações), não pode se dar ao luxo de dispensar os moldes convencionais do entretenimento televisivo nem de abrir mão de algum didatismo para alcançar público tão grande e heterogêneo”.


Ou seja: os clichês e exageros seriam justificados pela necessidade de “levar até a massa um trecho significativo de sua história”. Mas o trabalho historiográfico está fraquinho, apesar da assistência de Ronaldo Costa Couto, bom e honesto conhecedor da História do Brasil. A preocupação principal da crítica logo emerge: “A audiência respondeu bem”.


Interesse histórico


Mas suponhamos que o interesse em “levar até a massa um trecho significativo de sua história” esteja de fato presente em alto grau. Nada melhor, para isso, do que mostrar como o presente e o futuro têm relação com o passado. Digamos que seria uma boa técnica.


Daí o interesse que assume a constatação, feita no primeiro tópico desta série, de que o Banco Rural, grande parceiro do valerioduto, tem uma origem empresarial muito vinculada a JK. E aprendemos com a atual presidente do banco, Kátia Rabello, em entrevista, que seu avô, Jacques Corrêa Rabello, fez a Pampulha quando Juscelino Kubitschek era prefeito de Belo Horizonte (nomeado, como eram todos os interventores estaduais e prefeitos no Estado Novo).


Sabemos que uma obra de ficção não tem obrigação de ser estritamente fidedigna. Além disso, a História não é algo que tenha transitado em julgado. Sempre a revisitamos com os olhos de hoje. Que são os nossos. Mas voltamos assim à oportunidade aberta para a minissérie JK, que será ou não desperdiçada. Sua maior ou menor qualidade historiográfica tem repercussão, e no Brasil isso é dramático, política e cultural.


Veja-se que vinculação interessante fez um leitor em comentário para este blog:


“BH foi o laboratório para Brasilia. Na sua construção, com o avô de JK, iniciou-se a parceria entre as metalúrgicas, as construtoras e o serviço público. BH foi erigida para fazer frente ao avanço de SP; não conseguiram (obviamente, segundo Paul Singer) e ainda destruíram Juiz de Fora e toda a sua Zona da Mata, pois em apenas três anos (de 1894 a 1897) torraram o equivalente a três décadas de impostos gerados pelo café, ou 2 milhões de libras esterlinas; torraram 37 mil contos de réis em três anos e 250 mil contos de reis em 25 anos. JK nasceu e cresceu politicamente neste ambiente; fez seu teste na modernização de BH e travou a batalha final com Brasília. Os dados estão por aí; quem quiser, basta procurar na Fundação João Pinheiro. Não tenho a menor dúvida que a estrada foi aberta com BH, pavimentada por Vargas e sistematizada com Brasília. Valerioduto é apenas uma tentativa de substituir as empreiteiras pela publicidade”.


Informo ao leitor que estou à procura de historiadores e de outros intelectuais que tenham informações sobre o assunto. Caso essa linha de articulação se confirme, será melhor mudar o título do tópico. A Novacap não seria, no contexto jusceliniano, o início, mas o meio do caminho até o valerioduto.


Contra a ditadura


É mais ou menos consenso que JK, inadvertidamente, deu uma contribuição ao advento da ditadura militar. Mas foi depois uma vítima dela. Golpeado de maneira covarde e torpe. Veremos como a minissérie tratará o episódio de seu depoimento a um suboficial num IPM (Inquérito Policial-Militar). Eu ouvi uma versão contada pelo falecido Evandro Carlos de Andrade. Segundo Evandro, uma humilhação verbal teria feito JK sair de lá decidido a se matar. José de Magalhães Pinto, governador de Minas Gerais que conspirara ativamente para o golpe, soube que Juscelino estava armado e praticamente o pôs no avião para o exílio.


Muitos episódios dramáticos foram transformando JK em um dos símbolos da resistência à ditadura. Até hoje sua morte, em 1976, não foi esclarecida. Carlos Castello Branco ouviu dias antes, e publicou no Jornal do Brasil, um boato antecipado sobre a morte de JK num acidente, boato que o deixou, e a seus leitores, de orelha em pé.


O Estadão publica hoje, junto à crítica do seriado, uma carta de Maria Estela Kubitschek Lopes, filha adotiva de JK, dirigida a ele, a D. Sarah e à irmã, Márcia, também falecida. O tom é amorosamente apologético. Não cabe à filha fazer um balanço crítico. Muita gente boa torcerá com ela para que a minissérie cumpra da maneira mais competente o papel que dela espera Márcia: “Tenho certeza de que será o resgate de sua vida e sua obra, que tentaram apagar fazendo com que você sofresse as amarguras do exílio e todas as perseguições”.


Juscelino Kubitschek gostaria de saber que nenhum outro presidente brasileiro, depois dele, foi levado ao exílio.

Todos os comentários

  1. Comentou em 06/01/2006 marcelo rezende fernandes

    Não resta dúvida que Minas Gerais é muito mais do que imaginamos. Tratex, Magalhães Pinto, Eduardo Azeredo, Marcos Valério, Clésio Andrade, Aécio Neves, Rural, Agrimisa, BMG, Real, Unibamco, Credireal, Bemge, Itaú de Minas (lembram-se?) Como se vê, um Estado Capitalista há muito tempo. Quem sabe o berço do Caixa 2. E eu sou mineiro. É mole?? UAI!!

  2. Comentou em 06/01/2006 Hamilton Neto

    Morei nos EUA, entre 89 e 95 e li uma reportagem no New YorK Times que, infelizmente, não tive o bom senso de guardar. O Jornalista dizia que, vasculhando os arquivos do Pentágono – Os arquivos com mais de vinte anos estão abertos aos jornalistas – encontrou um recomendação dos militares americanos aos militares brasileiros e chilenos de dar um jeito no Juscelino Kubitschek e no Salvador Allende pois, embora democratas, não eram alinhados. O Jornalista conclui comentando sobre as estranhas circunstâncias das mortes dos dois.
    Não tenho meios, mas vocês poderiam tentar localizar esta reportagem.

  3. Comentou em 06/01/2006 marcos moraes

    Perdi seu mail!

    Por favor, reenvie!

    MAM

  4. Comentou em 06/01/2006 Marcelo Monteiro

    Para quem gosta de mais informação e nome aos bois, eis os empreiteiros que financiaram o golpe de estado de 1964. Quantos deles nasceram com JK? Empreiteiros que serviram à ditadura Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre. Foram diversos os empreiteiros que serviram à ditadura militar de 1964 no Brasil. Pequenas e médias empresas construtoras se tornaram gigantescas empreiteiras. Obras imensas, muitas desnecessárias, foram construídas com dinheiro público. A infra-estrutura, atualmente obsoleta, de que o Brasil precisava foi construída com uma dívida externa que levará muitas gerações para ser paga. A ditadura implantada através do Golpe Institucional de 1964 no Brasil foi apoiada e financiada por diversas empresas nacionais e estrangeiras. Estas não financiariam um golpe de forma gratuita, naturalmente deveria haver um retorno financeiro ao investimento. Houve, mas os resultados foram desastrosos. Veja aqui [um]a relação dos grandes empreiteiros que foram beneficiados pelos governantes militares durante todo o período ditatorial entre a década de sessenta e oitenta. http://pt.wikipedia.org/wiki/Empreiteiros_que_serviram_%C3%A0_ditadura

    Nota de Mauro: Não tenho como avaliar cada item da lista. É preciso levar em conta que a Wikipedia é uma obra coletiva livre na qual têm sido encontrados erros ou mesmo fraudes (ver, no blog Código Aberto, de Carlos Castilho, É possível confiar na Wikipedia?) A presente advertência é feita em caráter genérico, mas com preocupação específica em relação à lista, que pode conter equívocos.

  5. Comentou em 05/01/2006 marcos moraes

    Esse JAques Correia Rabello, avô da Katia, deve ser parente de Francisco Correia Ferreira Rabello, amigo íntimo do avô de JK, e conselheiro fiscal da cia popular de diamantina, montada por aquele, para atender ao chamado de Rui para enriquecer o país.

    Esta cia. tinha como objetivos tornar diamantina uma rica cidade à americana, CONSTRUINDO E VENDENDO PREDIOS!!!

  6. Comentou em 05/01/2006 oscar caralho caralho

    vai se foder!!!!!!!!!!tomá no cú!!!!!!!!!!!
    filha da puta!

  7. Comentou em 05/01/2006 marcos moraes

    Se vc quiser saber mais me envie um mail, pois tenho umas 10 páginas escritas sobre a construção de BH e como esta acabou com JF, com dados, livros,etc e tal.

    MAM

  8. Comentou em 05/01/2006 Ylana Katová

    O valor de JK é indiscutível, porém não é mera revisão histórica que esta se fazendo. A discussão sobre JK é um marketing eleitoral da política desenvolvimentista Petista ou PeSeDebista, não importa. Ele pode ser boa o ruim, mas é propositalmente exposta.

  9. Comentou em 05/01/2006 Jadila Couto

    O que vos faz tão pequeno e mesquinho o alma crítica?! É a certeza de saberes que jamais terás atitudes originais e pensamentos autênticos que o torne também uma parte singular da história… ou a certeza de que entrarás para ela somente as sombras dos que vives a criticar?! O que mantem acesa a chama da tua inveja…? será a tua mínima capacidade de admirar o outro ou a tua alma mínima repleta de dispeito e inveja?! Não podes simplesmente assistir e admirar sem olhos vermelhos de inveja…ama a intenção da obra; admira a ousadia do autor e curte… aplaude e deixe-se tomar pela boa intenção dos que fazem. Desprenda-se da arrogancia dos que somente criticam

  10. Comentou em 05/01/2006 Francisco das Chagas Alves

    Está certo que fatos fazem a História. Mas fatos e versões sempre vão compor a História. Ela sempre será assim para ser entendida – digamos didaticamente. Assim, é comum a edulcoração da história de um vencedor, em que as cenas menos edificantes são normalmente excluídas. Aí entra a participação da minissérie da Globo na emolduramento de fatos que já são populares, fazem parte do mito JK. Certamente acrescentará uma versão com grande peso no imaginário brasileiro. Arrisco até afirmar que influenciará grande parte de nossos mestres pelo país afora.

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