Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CÓDIGO ABERTO > Desativado

‘Dádiva de Deus’ e praga de Asmodeu

Por Luiz Weis em 11/11/2007 | comentários

ANDRADE, C. D. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1998.

ARBEX, J. Showrnalismo a notícia como espetáculo. São Paulo: Casa Amarela, 2001.

BARROS, M. Memória inventadas – a infância. São Paulo: Editora Planeta, 2003.

FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2000.

MORAES, D. Planeta mídia tendências da comunicação na era global. Campo Grande: Editora Livre, 1998.

ORLANDI, E. P. A linguagem e seu funcionamento as formas do discurso. Campinas: Editora Pontes, 1996.

PÊCHEUX, M. 'Role de la Mémoire', in Historie et Linguistique, trad. José Horta Nunes, O Papel da Memória, Campinas: Editora Pontes, 1983.

ROMÃO, L. M. S. O litígio discursivo materializado no MST: a ferida aberta na nação. Ribeirão Preto: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, 310 p. (Tese de Doutorado), 2002.

A imprensa bateu o bumbo que era de esperar diante do anúncio das dimensões estimadas das reservas do petróleo nosso no Campo Tupi – algo entre 5 bilhões e 8 bilhões de barris a coisa de 6 mil metros abaixo do nível do mar, numa faixa que iria do Espírito Santo a Santa Catarina.


 


Aqui e ali, críticos como os colunistas Janio de Freitas, na Folha, e Suely Caldas, no Estado, torceram o nariz ou às proporções divulgadas do oceano de ouro negro submerso na costa brasileira ou à oportunidade do anúncio, ou ainda  à decisão do governo – corretíssima, a meu ver, de suspender as licitações para a exploração de 41 campos na área. Mas o tom predominante, nos diários dos últimos três dias, foi o de que um pouco de alegria não faz a mal a ninguém, como se escreveu.


 


Mas, sem querer ser desmancha-prazeres nem espírito-de-porco, faltou até agora no noticiário “contextualizar”, com mil desculpas pelo palavrão, a informação de que o Brasil tirou a mega-Sena. Ou, nas palavras de Lula, que “foi uma dádiva de Deus”.


 


O contexto é agridoce.


 


Claro que num mundo movido a petróleo, antes tê-lo. E antes tê-lo mais do que muito. Agora, só não enxerga quem não quer que o petróleo e o seu primo-irmão, o carvão, combustíveis fósseis ou hidrocarbonetos, são uma praga de Asmodeu, também conhecido – entre uma penca de outros nomes e apelidos – como Lucifer, o diabo em pessoa.


 


A partir de amanhã, na Espanha, cientistas e representantes de 140 países estarão reunidos para preparar o documento final sobre o efeito-estufa, o aquecimento da Terra, o maior pesadelo que a humanidade (que o criou) vai experimentar com crescente intensidade ao longo deste século.


 


O Brasil, um dos cinco maiores agentes da mudança climática, por causa das queimadas na Amazônia, vinha ou vem se apresentando como parte da solução para ao menos conter os limites da poluição global, com a revolução da energia de biomassa chamada etanol – o álcool de cana, milho e o que mais der, para substituir os derivados de petróleo, a começar da gasolina.


 


Não parece pedir demais que a mídia inclua esse fator nas reportagens e análises sobre o novo papel global do Brasil, que o presidente Lula já vê a caminho de entrar para o clube dos nove chamado Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo).


 


Simplificando as coisas, como é que fica: vamos ajudar a poluir o mundo com o nosso petróleo tupi e ao mesmo tempo vamos ajudar a despoluir o mundo com o combustível ecologicamente amigável, o álcool renovável que fomos os primeiros a usar?


 


P.S. A vizinhança pega fogo e a mídia não dá a mínima


 


Sou do tempo em que existia em São Paulo um diário chamado A Gazeta Esportiva.


 


O cujo tinha dois slogans. Um, “Oba-oba, isso sim é que é jornal”, contribuiu para o léxico do ofício com a expressão “oba-oba”, pejorativo para auto-elogio (como o que a Folha fez em página inteira neste domingo, numa publimáteria sobre a sua circulação e o seu leitorado).


 


O outro slogan, “Se A Gazeta Esportiva não deu, ninguém sabe o que aconteceu”, vem a calhar a propósito do escandaloso silêncio da mídia brasileira sobre o que de mais dramático aconteceu na Cúpula Ibero-Americana em Santiago do Chile.


 


Não me refiro ao episódio em que Juan Carlos, o rei da Espanha, fez o que não sei quantos chefes de Estado ou governo gostariam de fazer com o mais novo ditador das Américas, Hugo Chávez, mandando-o calar-se. Isso rendeu, apropriadamente, notícia de primeira página.


 


Mas o que marcou a Cumbre, como dizem os hispânicos, ou a Cimeira, para os portugueses, foi o estado-de-guerra entre a Argentina e o Uruguai, criado pela decisão do presidente da República Oriental, Tabaré Vasquez, de autorizar o funcionamento, na fronteira com a Argentina, da poluidora papelera finlandesa, sem ao menos avisar o vizinho Kirchner, que soube da má notícia pela mídia – durante a conferência.


 


“Você passou dos limites”, disse o argentino ao homólogo uruguaio. Que mandou fechar uma ponte na fronteira entre os dois países, “para evitar protestos” [manifestações argentinas em território uruguaio contra a fábrica que o governo de Buenos Aires vinha pedindo pelo amor de Deus a Montevideu que não colocasse em operação].


 


No papel de mediador, o rei da Espanha quebrou a cara, com perdão pelo lesa-majestade. A presidenta chilena, Michelle Bachelet, ficou como aquela dona-de-casa diante de dois convidados que só faltaram se agredir durante o jantar.


 


Leiam as edições online dos diários portenhos, uruguaios e chilenos e verão que não exagero. Está feia a coisa.


 


Quem o fizer verá que o nome de Luiz Inácio Lula da Silva só aparece nas matérias quando alvo das ironias do despeitado petrotirano Hugo Chávez.


 


E ainda vem o Estado dizer hoje, numa legenda, que “Lula roubou a cena” da Cúpula!


 


P.S. 2 As pernas de Rogéria e os processos contra Renan


 


Na mosca o comentário a seguir, da coluna Dora Kramer, também no Estado, mas de sexta, sob o título “Decoro”:


 


“Enquanto no Senado o presidente licenciado, Renan Calheiros, responde a quatro processos por quebra de decoro, na Câmara foto do travesti Rogéria de camisa e salto alto, em exposição do fotógrafo Luiz Garrido, causou indignação na direção da Casa.

Primeiro, tentou-se esconder a foto, mas diante da recusa da curadora, a mostra foi cancelada. As pernas de Rogéria foram consideradas uma ameaça à integridade física, psíquica e moral de menores de idade, em atenção ao Estatuto da Criança e do Adolescente.

Já em relação a determinadas decisões, votações, acertos, conchavos e absolvições de mensaleiros, sanguessugas e afins, o Parlamento não demonstra o mesmo zelo para com a integridade física, psíquica e moral de menores e maiores.”

Todos os comentários

  1. Comentou em 13/11/2007 arnaldo boccato

    Sobre las papeleras: do jeito que andam as leis no mundo todo, fica difícil imaginar uma nova Boregaard no Rio da Prata, ainda mais uma fábrica com novas tecnologias (pra quem não lembra, era uma fábrica de papel e celulose que acabava com o meio ambiente nas cercanias de Porto Alegre nos anos 70). Hoje as empresas se borram de medo de perder acionistas (e levarem pesadissimas multas) se não mantiverem políticas e ações estupidamente rigorosas em relação ao meio ambiente tanto em seus países de origem como no dos outros. Para Kirchner é melhor envolver a imprensa e o país numa cruzada contra o projeto uruguaio que enfrentar a realidade interna. A aceitar seus argumentos, todas as indústrias de papel e celulose do Brasil situadas na bacia do Paraná seriam uma ameaça ao meio ambiente argentino, o que ele e o mundo sabem, ‘não cola’. Com mais essa, fica definitivamente consolidada a política da bravata na América Latina, que já tem como seus maiores expoentes Hugo Chávez e Evo Morales. Lula, por supuesto y por las gracias de todos los cielos, não chega nem a ser aprendiz dessa escola.

  2. Comentou em 13/11/2007 Thiago Costa

    –Não me refiro ao episódio em que Juan Carlos, o rei da Espanha, fez o que não sei quantos chefes de Estado ou governo gostariam de fazer com o mais novo ditador das Américas, Hugo Chávez, mandando-o calar-se. Isso rendeu, apropriadamente, notícia de primeira página.–

    Um critico da midia comrrompido pela propria. Que pena.

  3. Comentou em 13/11/2007 Fernando Schweitzer Schweitzer

    Que comentário direitista, parece q estou lendo O Globo na década de 70.

    Sem comentários aos comentários!

  4. Comentou em 12/11/2007 carlos santana

    Um homem que venceu nove eleições, sobreviveu a um criminoso golpe de estado, ser chamado de ditador: é o fim da picada. Arrume outro boi de piranha meu caro Luis. Deixe de endeusar a criatura do Franco, esse rei espanhol fajuto, e a prepotência espanhola, cujo império foi criado com o roubo do ouro, e o massacre de milhões de pessoas.
    O Chavez está coberto de razão ao chamá-los de fascistas.
    Com relação ao petróleo: o que você esperava de comentaristas que trabalham na folha e no estadão?

  5. Comentou em 12/11/2007 José Orair da Silva Silva

    Pouco depois do episódio com o presidente Chaves, o rei acabou de perder as estribeiras e a majestade abandonando a reunião por não gostar do que falava o presidente da Nicarágua, Sr. Daniel Ortega. Realmente andam um tanto quanto complicadas as relações dos reis espanhóis com os seus antigos súditos…Quanto à descoberta do petróleo que, segundo o nosso caro Luiz Weis, é uma praga de Asmodeu, os acionistas da Petrobrás entenderam como uma benção e ficaram muito felizes com a valorização das ações… Quem estará certo?

  6. Comentou em 12/11/2007 Luiz Carlos Bernardo

    Não diria que a descoberta de reserva de petróleo no Campo Tupi é ‘dádiva de Deus’ ou ‘praga de Asmodeu’ (expressão que Jânio Quadros gostava de proferir). Até porque, se é descoberta (e não é tão recente assim) é porque já existia a reserva. E existem inúmeras no território brasileiro. Agora, de fato, é uma preocupação futura, pois vamos poluir ainda mais o planeta terra. E porque incentivar tanto o plantio de cana? Descortina-se uma profunda incoerência. Sorte de uns, azar de outros. E vice-versa. Quem viver verá.

  7. Comentou em 12/11/2007 Marco Antônio Leite

    O rei Juan Carlos, da Espanha, não significa nada perante ao grande comandante Hugo Chávez, como também a nós brasileiros. O Brasil dá de lavada na Espanha quando entra em campo com os nossos soberanos e soberanas. Este é um país privilegiado na geração de reis, temos os reis Pelé e o Roberto Carlos, como também temos as rainhas Xuxa e a Hortênsia, de lambuja ainda nos damos ao luxo de ter na suplência, o Reimario e o Reilulla. Portanto, nesse aspecto a Espanha é café pequeno. Viva Chavéz, o novo Fidel da América do Sul!

  8. Comentou em 12/11/2007 Carlos Lorenzo Stojkovic

    Eu vi o vídeo ¿Por qué no te callas? Foi muito engraçado!!! Parecia dois alunos de escola primária brigando na hora do recreio. Chávez conseguiu a proeza de aproximar, ainda que por alguns instantes, o ex-primeiro ministro da Espanha, Asnar, ao elogiar o atual, Zapatero, por ter reprimido o venezuelano quando Chávez chamou Asnar de fascista. Zapatero e Asnar vivem uma relação mais tensa do que Lula e FHC. Luiz Weis, você tem certeza de que esta papelera é poluidora? Argentina diz que sim; Uruguai nega. Apesar de ter ocorrido um acidente há uns meses atrás, a Botnia alega ter tecnologia suficiente. Segundo especialistas dessa área, as papeleras que não usam cloro podem ser enquadradas como não causadoras de danos ambientais. O que a imprensa Argentina não fala é sobre os métodos de produção questionáveis, segundo Greenpeace, das papeleras de Puerto Piray, Tucuman, Santafe e Alto Paraná. Quanto à cobertura da imprensa brasileira, me parece que seria mais importante situar este conflito Uruguai vs Argentina no contexto do Mercosul. Será que vai repercutir no bloco? Se eu não estou enganado, no próximo mês(?) os países membros vão se encontrar. É pouco tempo para apagar o incêndio, e Uruguai passará a ‘faixa’ presidencial temporária para Argentina. A novela promete…

  9. Comentou em 12/11/2007 Euclides Rodrigues de Moraes

    Sr. Weis, Não sei se o Senhor leu a matéria publicada na revista Época com a mão do Senador Renan Calheiros, entendo que ultrapassou as medidas, pelo andar da carruagem está valendo tudo até usar a mãe para atacar alguém. Acho que esse assunto deveria merecer uma análise mais detalhada, pincipalmente aqui no OI, pois há muito que a pena deixou de ir além do criminoso sendo aplicada a este e seus familizares.

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