Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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‘Dádiva de Deus’ e praga de Asmodeu

Por Luiz Weis em 11/11/2007 | comentários

A imprensa bateu o bumbo que era de esperar diante do anúncio das dimensões estimadas das reservas do petróleo nosso no Campo Tupi – algo entre 5 bilhões e 8 bilhões de barris a coisa de 6 mil metros abaixo do nível do mar, numa faixa que iria do Espírito Santo a Santa Catarina.


 


Aqui e ali, críticos como os colunistas Janio de Freitas, na Folha, e Suely Caldas, no Estado, torceram o nariz ou às proporções divulgadas do oceano de ouro negro submerso na costa brasileira ou à oportunidade do anúncio, ou ainda  à decisão do governo – corretíssima, a meu ver, de suspender as licitações para a exploração de 41 campos na área. Mas o tom predominante, nos diários dos últimos três dias, foi o de que um pouco de alegria não faz a mal a ninguém, como se escreveu.


 


Mas, sem querer ser desmancha-prazeres nem espírito-de-porco, faltou até agora no noticiário “contextualizar”, com mil desculpas pelo palavrão, a informação de que o Brasil tirou a mega-Sena. Ou, nas palavras de Lula, que “foi uma dádiva de Deus”.


 


O contexto é agridoce.


 


Claro que num mundo movido a petróleo, antes tê-lo. E antes tê-lo mais do que muito. Agora, só não enxerga quem não quer que o petróleo e o seu primo-irmão, o carvão, combustíveis fósseis ou hidrocarbonetos, são uma praga de Asmodeu, também conhecido – entre uma penca de outros nomes e apelidos – como Lucifer, o diabo em pessoa.


 


A partir de amanhã, na Espanha, cientistas e representantes de 140 países estarão reunidos para preparar o documento final sobre o efeito-estufa, o aquecimento da Terra, o maior pesadelo que a humanidade (que o criou) vai experimentar com crescente intensidade ao longo deste século.


 


O Brasil, um dos cinco maiores agentes da mudança climática, por causa das queimadas na Amazônia, vinha ou vem se apresentando como parte da solução para ao menos conter os limites da poluição global, com a revolução da energia de biomassa chamada etanol – o álcool de cana, milho e o que mais der, para substituir os derivados de petróleo, a começar da gasolina.


 


Não parece pedir demais que a mídia inclua esse fator nas reportagens e análises sobre o novo papel global do Brasil, que o presidente Lula já vê a caminho de entrar para o clube dos nove chamado Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo).


 


Simplificando as coisas, como é que fica: vamos ajudar a poluir o mundo com o nosso petróleo tupi e ao mesmo tempo vamos ajudar a despoluir o mundo com o combustível ecologicamente amigável, o álcool renovável que fomos os primeiros a usar?


 


P.S. A vizinhança pega fogo e a mídia não dá a mínima


 


Sou do tempo em que existia em São Paulo um diário chamado A Gazeta Esportiva.


 


O cujo tinha dois slogans. Um, “Oba-oba, isso sim é que é jornal”, contribuiu para o léxico do ofício com a expressão “oba-oba”, pejorativo para auto-elogio (como o que a Folha fez em página inteira neste domingo, numa publimáteria sobre a sua circulação e o seu leitorado).


 


O outro slogan, “Se A Gazeta Esportiva não deu, ninguém sabe o que aconteceu”, vem a calhar a propósito do escandaloso silêncio da mídia brasileira sobre o que de mais dramático aconteceu na Cúpula Ibero-Americana em Santiago do Chile.


 


Não me refiro ao episódio em que Juan Carlos, o rei da Espanha, fez o que não sei quantos chefes de Estado ou governo gostariam de fazer com o mais novo ditador das Américas, Hugo Chávez, mandando-o calar-se. Isso rendeu, apropriadamente, notícia de primeira página.


 


Mas o que marcou a Cumbre, como dizem os hispânicos, ou a Cimeira, para os portugueses, foi o estado-de-guerra entre a Argentina e o Uruguai, criado pela decisão do presidente da República Oriental, Tabaré Vasquez, de autorizar o funcionamento, na fronteira com a Argentina, da poluidora papelera finlandesa, sem ao menos avisar o vizinho Kirchner, que soube da má notícia pela mídia – durante a conferência.


 


“Você passou dos limites”, disse o argentino ao homólogo uruguaio. Que mandou fechar uma ponte na fronteira entre os dois países, “para evitar protestos” [manifestações argentinas em território uruguaio contra a fábrica que o governo de Buenos Aires vinha pedindo pelo amor de Deus a Montevideu que não colocasse em operação].


 


No papel de mediador, o rei da Espanha quebrou a cara, com perdão pelo lesa-majestade. A presidenta chilena, Michelle Bachelet, ficou como aquela dona-de-casa diante de dois convidados que só faltaram se agredir durante o jantar.


 


Leiam as edições online dos diários portenhos, uruguaios e chilenos e verão que não exagero. Está feia a coisa.


 


Quem o fizer verá que o nome de Luiz Inácio Lula da Silva só aparece nas matérias quando alvo das ironias do despeitado petrotirano Hugo Chávez.


 


E ainda vem o Estado dizer hoje, numa legenda, que “Lula roubou a cena” da Cúpula!


 


P.S. 2 As pernas de Rogéria e os processos contra Renan


 


Na mosca o comentário a seguir, da coluna Dora Kramer, também no Estado, mas de sexta, sob o título “Decoro”:


 


“Enquanto no Senado o presidente licenciado, Renan Calheiros, responde a quatro processos por quebra de decoro, na Câmara foto do travesti Rogéria de camisa e salto alto, em exposição do fotógrafo Luiz Garrido, causou indignação na direção da Casa.

Primeiro, tentou-se esconder a foto, mas diante da recusa da curadora, a mostra foi cancelada. As pernas de Rogéria foram consideradas uma ameaça à integridade física, psíquica e moral de menores de idade, em atenção ao Estatuto da Criança e do Adolescente.

Já em relação a determinadas decisões, votações, acertos, conchavos e absolvições de mensaleiros, sanguessugas e afins, o Parlamento não demonstra o mesmo zelo para com a integridade física, psíquica e moral de menores e maiores.”

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