Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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DaMatta adverte que raça não é assunto simples e indolor

Por Mauro Malin em 25/02/2006 | comentários

O antropólogo Roberto DaMatta não tem a menor ilusão de que a questão racial seja assunto simples e indolor no Brasil. Adverte que não há leis indiscutíveis, mas apóia o sistema de cotas, porque explicita a existência e os direitos do “outro”, do negro, ou do não-branco.


– O ex-ministro Célio Borja fez em entrevista ao Observatório uma comparação com dificuldades ocorridas durante a tramitação do Estatuto do Índio, mais de trinta anos atrás.


Roberto DaMatta – Índio é muito diferente de negro. Tem outra cultura, outra língua, outra religião. O índio não pertence mesmo à sociedade brasileira. Em alguns casos, quando entrou, se arrebentou. O negro, não. É parte constitutiva do Brasil. Os escravos e os senhores construíram o Brasil. Nesse sentido, tem uma razão de ser, essa iniciativa do Estatuto, que eu nem conhecia. Chama a atenção. É como o sistema de cotas. Às vezes para se criar igualdade é preciso separar um pouco as coisas. Criar um outro. Não existe nenhuma lei que seja completamente defensável ou completamente indefensável. Todas as leis são arbitrárias. Toda regulamentação tem um ponto de partida. Esse ponto de partida não é onisciente. É uma perspectiva.


Se o camarada é negro, se ele está no movimento negro, se os negros do Brasil construíram a sociedade e foram explorados, escravizados, torturados, chicoteados, o Estatuto chama a atenção.


Sou a favor do sistema de cotas. É preciso primeiro criar uma certa alterilidade, chamar a atenção, ainda que isso seja desagradável, mas tem que fazer. Para depois até dissolver, não precisa mais de cota.



– O senador Paulo Paim diz que será o homem mais feliz do mundo quando o Brasil anunciar o fim do sistema de cotas, por ter-se tornado desnecessário.



R.DM. – Penso da mesma maneira. Mas não podemos perder de vista que o sistema de cotas coloca o problema da clivagem. É complicado saber quem é negro e quem não é. Tem o problema da classificação. Vejo aqui um livro de futebol, um livro bonito, Brasil, um século de futebol, com fotografias antigas. Tem fotografias do Bangu em 1910, um “time branco”. Branco para os nossos olhos. Se um alemão olhar aquilo, para ele metade são negros.


Outro problema. No sistema de cotas já se descobriram meninos brancos, não muito brilhantes, que para entrar na universidade se dizem afro-descendentes. Como se vai fazer? Algo científico para determinar gene? Será um sistema nazista no Brasil. Mas às vezes é preciso fazer algo assim para poder acabar.


É melhor se ter um sistema de cotas que é uma coisa escrita por mim, por você, por outras pessoas, do que se ter um sistema implantado no coração que nunca foi discutido por ninguém, que era o sistema tradicional de lidar com as chamadas pessoas de cor no Brasil: assumir que são pessoas boas até que eles digam alguma coisa, aí nós ou mandamos prender ou falamos que são antipáticos e revoltados. Era isso que a gente fazia.

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