Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Desativado

De que serve um jornal hoje em dia?

Por Luiz Weis em 14/05/2007 | comentários

Mais batido que tamborim no Carnaval é o conceito de que, na era dos canais noticiosos 24 horas por dia e, principalmente, da informação instantânea na internet, a função dos jornais mudou: sai de cena a notícia seca, entra no seu lugar a notícia articulada, aquela que, diriam os portugueses, liga o nome à p´ssoa, ou, diriam os americanos, liga os pontos.

Oferecer ao leitor essas conexões de sentido, com perdão pelo academicismo, deixou de ser tarefa e atributo de comentaristas ou editorialistas. As próprias matérias, sempre que possível, devem trazer elementos que permitam dar perspectiva à informação crua – as coisas que uma coisa pode ter com outras coisas.

Uma oportunidade, nesse sentido, o noticiário político do Estado deixou de aproveitar. O assunto em si nem é de tirar o fôlego, mas se presta ao tipo de correlação entre os fatos que se tornou, por força da tecnologia da informação, a mercadoria que o leitor tem o direito de receber da mídia impressa.

Vejam só. Ontem, o Estado publicou uma curiosa entrevista com o deputado democrata, isto é, ex-pefelista, Alceni Guerra, do Paraná.

Diz ele que o problema do seu partido não é nem o isolamento na oposição a que parece estar fadado na medida em que uma parte dos políticos tucanos, ligados aos governadores Aécio Neves e José Serra, vai arrastando a asa para o Planalto.

Mais grave para o DEM, o ex-PFL, é que a sua base social, o agronegócio – representado no Congresso pela chamada base ruralista – só tem a ganhar com o empenho do presidente Lula em promover o biocombustível, pressionando os Estados Unidos para abrir o seu mercado ao etanol brasileiro.

E daí? Daí que, explica Alceni, ‘o partido, que não tem eleitorado urbano, nem vocação para o lado social da política, não ficará apenas encurralado. O DEM pode desaparecer.’

Se a cartada do biocombustível levar a mesa, raciocina o deputado, haverá pencas de recursos para o governo alavancar a economia em grande escala. Esse cenário poderá ter duas consequências.

Uma, no Congresso: a bancada do agronegócio, ‘efusiva’, não terá o menor interesse em criar problemas para o Planalto. Outra, nas urnas: ‘os votos do setor vão nos faltar nas próximas eleições.’

E Alceni arremata: ‘Neste caso, o DEM terá o mesmo destino do Partido Libertador de Raul Pilla, que fez fez oposição ao governo JK: vai desaparecer.’

Hoje, o Estado volta a falar da bancada ruralista. Com base numa pesquisa, o jornal informa que ela passou a abarcar este ano 20% dos 513 deputados e 15% dos 81 senadores. E a matéria passa a falar de outros grupos de interesses no Congresso. Nenhuma tentativa de explicar aquele crescimento.

Terá ou não relação com a política do governo para o agronegócio? Poderá ou não tirar o gás do oposicionismo do velho PFL rebatizado? Enfim, nada sobre as causas, nada sobre as possíveis consequências.

Escrevi acima que o assunto não é de tirar o fôlego, e o leitor que chegou até aqui haverá de concordar. Mas nem por isso os jornais estão isentos de pesquisar e dar ao leitor o contexto da notícia que lhe diz respeito. É para isso que existem hoje em dia.

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 14/05/2007 Rafael Braga

    As grandes editoras (de jornais e revistas) deram um tiro no pé em meados da década de 1990.
    Acabaram com a maioria dos Centros de Informação (Dedoc da Abril, BD da Folha). Era alí que se fazia esse mergulho. Era lá que se juntava o pão com a mortadela.
    Vou contar uma historinha: chegou-se a cogitar no Dedoc da Abril a dispensa da biblioteca, pois como os espaços no prédio da Abril são ´alugados´, cada unidade de negócio tem os seus custos, perceberam que o aluguel poderia diminuir se a biblioteca fosse dispensada. Ela ocupa mais ou menos 30% do espaço utilizado pelos centro de documentação. Logo seriam 30% a menos de custo.

    Parece piada, mas não é!

  2. Comentou em 14/05/2007 Bender Arruda Dutra

    O papel fundamental de informar e denunciar às incoerências com coerência, respeito e a boa ética, ao próximo, sendo imparcial ao noticiar ao leitor o que se passa nos bastidores do Brasil…etc. -so é conhecimento quando é passando adiante e lembrar que ‘Todo ponto de vista é a vista de um ponto.’

  3. Comentou em 14/05/2007 Jâmas R. H.

    Me permitam desconsiderar a notícia e comentar o título:
    ‘De que serve um jornal hoje em dia?’ Do jeito que os jornalecos se propagam, com a tríade ‘sexo, futebol e desgraça’, só servem para forrar piso para pintar parede.
    A notícia na Web é muito mais limpa nesse ponto. É possível ler só aquilo que lhe interessa, sem a necessidade de virar páginas e páginas com os assaltos e mortes do dia anterior.

  4. Comentou em 14/05/2007 alvaro marins

    Aqui em casa os jornais são muito úteis. Eu pego na lixeira do prédio parte de algum exemplar jogado fora e forro a gaiola do passarinho. Para os pintores de parede eles também são muito úteis para forrar o chão quando estão trabalhando. Algumas faxineiras também o utilizam para limpar vidros. Nas barracas de feira dos peixeiros já os vi cobrirem as caixas de isopor com gelo para manterem a temperatura fria por mais tempo.

  5. Comentou em 14/05/2007 Marco Costa Costa

    Um jornal serve para diversas situações, para ler é sua principal utilidade, para embrulhar peixe, para reciclagem e até para limpar erda. Da mesma forma que o DEM deverá desaparecer, a mídia impressa não esta imune desse vírus. A mídia de papel, tem pôr obrigação de denunciar os mandos e desmandos daqueles que se elegem em nome do eleitor e, se eleito for defender os interesses da população brasileira. Já o jornal tem um compromisso ético com o leitor do ponto de vista, se possível, noticiar somente a verdade, sem sofismas ou dizer meias verdades.

  6. Comentou em 14/05/2007 Dante Caleffi

    Raul Pilla,levava vantagem sobre o seu equivalente ,ex-pefelista,Rodrigo Maia, era surdo e usava aparelho.Quando se entediava, com o interlocutor,desligava. O líder ‘dem-goso’,Rodrigo Maia,corre o risco de se tornar, líder dele mesmo.Partido sem bandeira, ideologicamente , errático,a ponto de substituirem a denominação de anacrônico ,para ridículo.

  7. Comentou em 14/05/2007 JOSE ORAIR Silva

    É preciso lançar, enquanto é tempo, uma campanha pela preservação dos demos…

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