Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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De que serve um jornal hoje em dia?

Por Luiz Weis em 14/05/2007 | comentários

Mais batido que tamborim no Carnaval é o conceito de que, na era dos canais noticiosos 24 horas por dia e, principalmente, da informação instantânea na internet, a função dos jornais mudou: sai de cena a notícia seca, entra no seu lugar a notícia articulada, aquela que, diriam os portugueses, liga o nome à p´ssoa, ou, diriam os americanos, liga os pontos.

Oferecer ao leitor essas conexões de sentido, com perdão pelo academicismo, deixou de ser tarefa e atributo de comentaristas ou editorialistas. As próprias matérias, sempre que possível, devem trazer elementos que permitam dar perspectiva à informação crua – as coisas que uma coisa pode ter com outras coisas.

Uma oportunidade, nesse sentido, o noticiário político do Estado deixou de aproveitar. O assunto em si nem é de tirar o fôlego, mas se presta ao tipo de correlação entre os fatos que se tornou, por força da tecnologia da informação, a mercadoria que o leitor tem o direito de receber da mídia impressa.

Vejam só. Ontem, o Estado publicou uma curiosa entrevista com o deputado democrata, isto é, ex-pefelista, Alceni Guerra, do Paraná.

Diz ele que o problema do seu partido não é nem o isolamento na oposição a que parece estar fadado na medida em que uma parte dos políticos tucanos, ligados aos governadores Aécio Neves e José Serra, vai arrastando a asa para o Planalto.

Mais grave para o DEM, o ex-PFL, é que a sua base social, o agronegócio – representado no Congresso pela chamada base ruralista – só tem a ganhar com o empenho do presidente Lula em promover o biocombustível, pressionando os Estados Unidos para abrir o seu mercado ao etanol brasileiro.

E daí? Daí que, explica Alceni, ‘o partido, que não tem eleitorado urbano, nem vocação para o lado social da política, não ficará apenas encurralado. O DEM pode desaparecer.’

Se a cartada do biocombustível levar a mesa, raciocina o deputado, haverá pencas de recursos para o governo alavancar a economia em grande escala. Esse cenário poderá ter duas consequências.

Uma, no Congresso: a bancada do agronegócio, ‘efusiva’, não terá o menor interesse em criar problemas para o Planalto. Outra, nas urnas: ‘os votos do setor vão nos faltar nas próximas eleições.’

E Alceni arremata: ‘Neste caso, o DEM terá o mesmo destino do Partido Libertador de Raul Pilla, que fez fez oposição ao governo JK: vai desaparecer.’

Hoje, o Estado volta a falar da bancada ruralista. Com base numa pesquisa, o jornal informa que ela passou a abarcar este ano 20% dos 513 deputados e 15% dos 81 senadores. E a matéria passa a falar de outros grupos de interesses no Congresso. Nenhuma tentativa de explicar aquele crescimento.

Terá ou não relação com a política do governo para o agronegócio? Poderá ou não tirar o gás do oposicionismo do velho PFL rebatizado? Enfim, nada sobre as causas, nada sobre as possíveis consequências.

Escrevi acima que o assunto não é de tirar o fôlego, e o leitor que chegou até aqui haverá de concordar. Mas nem por isso os jornais estão isentos de pesquisar e dar ao leitor o contexto da notícia que lhe diz respeito. É para isso que existem hoje em dia.

***

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