Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CÓDIGO ABERTO > Desativado

De quem são os ´dedos sujos´

Por Luiz Weis em 06/06/2008 | comentários

Forte, claro e focalizado, o artigo abaixo do professor Rogério Cezar de Cerqueira Leite, da Unicamp, publicado na Folha de hoje, liga todos os pontos que precisam ser ligados para que apareçam os motivos da conspiração – aqui não hesito em usar a palavra – liderada em surdina pelos Estados Unidos, ‘com os dedos sujos de óleo’, diria o presidente Lula, contra o biocombustível brasileiro extraído da cana-de-açúcar.

O título é ‘O Lobo e o Etanol’ [assim, com maiúsculas].

‘O Lobo começou acusando o Etanol de ser proveniente de monocultura. Ora, esqueceu-se de que todo o arroz, todo o milho, toda a soja, todo o trigo, enfim, todos os cereais do mundo são de monocultura. E ninguém reclama. E o vinho. Tudo bem viver sem arroz, sem milho, mas sem Borgonha, sem Bordeaux… E sem o uísque escocês, que, como a boa cerveja européia, vem da cevada (a brasileira é feita de milho, eufemisticamente chamado de cereal maltado). Todos de monoculturas.

Nem sequer se fez necessário argumentar. A acusação era tão ridícula que o Lobo logo passou a acusar o Etanol de invadir a Amazônia. Ora, dentre as 300 usinas já em operação e outras cento e poucas em diferentes fases de implantação, só uma lá se arriscou, e foi iniciativa de uma indústria americana de refrigerantes, a Coca-Cola (será que o Lobo vai boicotar a Coca-Cola?).

E a principal razão pela qual ninguém lá se aventura é que seria pura burrice. O clima é adverso, o solo é inapropriado, a infra-estrutura é péssima. Favoráveis à cultura canavieira na Amazônia só são certos gananciosos e irresponsáveis governadores e prefeitos da região, mas nenhum arriscaria um só tostão do próprio bolso em tão inepta aventura.

Pois bem, desmascarado esse argumento, lá vem o mal-intencionado Lobo com outra desabusada acusação. Os biocombustíveis seriam a razão do aumento dos preços dos alimentos e provocarão a fome no planeta Terra inexoravelmente, cedo ou tarde.

Ora, o Lobo sabe muito bem que a China, por exemplo, aumentou por um fator de dez sua importação de soja (de cerca de 3 milhões de toneladas para 30 milhões de toneladas) entre 1994 e 2004. Que essa mesma nação, que exportou 15 milhões de toneladas de milho em 2001, passou a importá-lo cinco anos depois.

E o mesmo acontece com os demais países emergentes. No Brasil, 30 milhões de brasileiros sobrepujaram a linha da pobreza e devem, portanto, estar comendo mais, senão melhor.

E será que o Lobo não percebeu que, no último ano, o petróleo dobrou de preço? E que, com isso, os preços do transporte de cereais aumentaram, os defensivos agrícolas dobraram seus preços e o frete marítimo entre 2002 e 2007 teve seus preços triplicados?

Mas até o consultor da ONU, principal aliada do Lobo, já se desdisse: ‘Eu não estava falando do Etanol brasileiro, mas do americano’.

A fome da África, o Lobo bem que está sabendo, é culpa dos subsídios que ele mesmo dá às suas agriculturas. Torna-se um bom negócio produzir excedentes que são despejados na África a preços com os quais a agricultura local não consegue competir e perece. E então esses excedentes agrícolas são abruptamente reduzidos. O Lobo tem que engolir essa também.

E agora vem a última do furibundo animal, tirada do bolso do colete. Um argumento já surrado, caduco mesmo. A produção de álcool no Brasil seria anti-social, escravizante. Vamos ‘levar ao absurdo’ esse argumento, técnica sistematizada por lógicos e matemáticos no século 19.

Vamos supor que o Brasil tivesse uma ditadura totalitária, feudal, com um regime sem representação popular, sem sistema judicial igualitário, enfim tudo o que a democracia tradicional condena. Então, certamente haveria razões humanitárias para boicotar o álcool brasileiro.

Mas como o senhor Lobo explica o fato de que continua, docilmente, aconchegantemente, adquirindo petróleo de certos países do Oriente Médio, onde imperam os mais perversos sistemas políticos e sociais? Será que o petróleo seria um bálsamo saneador, purificador, devido às suas inequívocas conseqüências para o meio ambiente?

É claro que todo esse esforço do Lobo não pode ser hipocrisia gratuita. Que há interesses inconfessos uivando na escuridão da ignorância popular. E quem são os beneficiários de eventual derrocada dos biocombustíveis? A quem o Etanol ameaça?

Ameaça as nações exportadoras de petróleo, as empresas que o produzem ou que o comercializam, certamente. Mas há outros, aqueles especuladores que precisam de um bode expiatório para os ganhos exagerados com o aumento de preços dos alimentos. E aquelas organizações, como Nações Unidas, FMI, Banco Mundial etc., que tinham como obrigação prever e prevenir o escasseamento e o insuportável aumento de preços de alimentos e conseqüentes ameaças de fome e nada fizeram e, agora, precisam de um bode expiatório.

Eis aí as motivações do Lobo.’

Todos os comentários

  1. Comentou em 11/06/2008 Renato Fellini

    Prezado Senhor,

    Parabéns pelo ótimo artigo, escrito de forma direta, comparando todas as variáveis, sem viés político ideológico. Simplesmente escrevendo sobre a reaalidade do mundo econômico.

    Um abraço.
    Renato

  2. Comentou em 09/06/2008 Alecsander Portilio

    Acho que deve existir um equilíbrio. Alguns dizem que os EUA é um país em decadência, mas se esta é realmente a verdade, por que estimula tanto a ira de tantas pessoas (ainda)? Muita coisa me parece ‘fora isso, fora aquilo’. Se o Brasil não foi capaz de defender a Amazônia e nunca foi, a responsabilidade é só nossa, do nosso governo. Para os mexicanos não entrarem, os americanos construíram muros. A questão é se podemos fazer o mesmo com os americanos? Acho que ‘muros’ não vão segurá-los, por mais que fique bonito para o presidente no jornal das oito defender as calças com unhas e dentes. Se eles realmente quiserem tomar a amazônia, digo que já é deles à muito tempo, nós é que não sabemos ainda. Quem sabe eles, de quebra, façam da Transamazônica uma belíssima Interstate. Por essas e outras idéias acho que nunca vou ser anti-americano, por mais que ache os americanos uns idiotas, com presidentes dementes, mas o nosso tem metáforas mais idiotas e risiveis. O estilo de vida americano está realmente com os dias contados, mas espero que o Brasil não seja o último inimigo, afinal sou da reserva: imagine só.

  3. Comentou em 07/06/2008 marina chaves

    nao sei…. os estados unidos invadiram o iraque e ninguem me convence de que a causa nao tenha sido outra do que o petroleo…. e o barack obama já avisou: a amazonia é internacional….. é para preocupar….

  4. Comentou em 07/06/2008 Paulo de almeida

    Mentira! Ora, quando este cara escreve que ‘todo’ alimento vem da monocultura, mente. Tem uns porcentinhos que vêm da Agricultura (assim, com maiúscula).
    E, no mais, um erro nao justifica o outro: Por pior que sejam os lobos, a monocultura do etanol ameaca a natureza sim, apesar dos motores a etanol poluir menos o ar, o que é verdade. Mas no fundo, no fundo é um projeto insustentável a longo prazo. A natureza nao aceita suborno.

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