Domingo, 21 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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De quem são os ´dedos sujos´

Por Luiz Weis em 06/06/2008 | comentários

Forte, claro e focalizado, o artigo abaixo do professor Rogério Cezar de Cerqueira Leite, da Unicamp, publicado na Folha de hoje, liga todos os pontos que precisam ser ligados para que apareçam os motivos da conspiração – aqui não hesito em usar a palavra – liderada em surdina pelos Estados Unidos, ‘com os dedos sujos de óleo’, diria o presidente Lula, contra o biocombustível brasileiro extraído da cana-de-açúcar.

O título é ‘O Lobo e o Etanol’ [assim, com maiúsculas].

‘O Lobo começou acusando o Etanol de ser proveniente de monocultura. Ora, esqueceu-se de que todo o arroz, todo o milho, toda a soja, todo o trigo, enfim, todos os cereais do mundo são de monocultura. E ninguém reclama. E o vinho. Tudo bem viver sem arroz, sem milho, mas sem Borgonha, sem Bordeaux… E sem o uísque escocês, que, como a boa cerveja européia, vem da cevada (a brasileira é feita de milho, eufemisticamente chamado de cereal maltado). Todos de monoculturas.

Nem sequer se fez necessário argumentar. A acusação era tão ridícula que o Lobo logo passou a acusar o Etanol de invadir a Amazônia. Ora, dentre as 300 usinas já em operação e outras cento e poucas em diferentes fases de implantação, só uma lá se arriscou, e foi iniciativa de uma indústria americana de refrigerantes, a Coca-Cola (será que o Lobo vai boicotar a Coca-Cola?).

E a principal razão pela qual ninguém lá se aventura é que seria pura burrice. O clima é adverso, o solo é inapropriado, a infra-estrutura é péssima. Favoráveis à cultura canavieira na Amazônia só são certos gananciosos e irresponsáveis governadores e prefeitos da região, mas nenhum arriscaria um só tostão do próprio bolso em tão inepta aventura.

Pois bem, desmascarado esse argumento, lá vem o mal-intencionado Lobo com outra desabusada acusação. Os biocombustíveis seriam a razão do aumento dos preços dos alimentos e provocarão a fome no planeta Terra inexoravelmente, cedo ou tarde.

Ora, o Lobo sabe muito bem que a China, por exemplo, aumentou por um fator de dez sua importação de soja (de cerca de 3 milhões de toneladas para 30 milhões de toneladas) entre 1994 e 2004. Que essa mesma nação, que exportou 15 milhões de toneladas de milho em 2001, passou a importá-lo cinco anos depois.

E o mesmo acontece com os demais países emergentes. No Brasil, 30 milhões de brasileiros sobrepujaram a linha da pobreza e devem, portanto, estar comendo mais, senão melhor.

E será que o Lobo não percebeu que, no último ano, o petróleo dobrou de preço? E que, com isso, os preços do transporte de cereais aumentaram, os defensivos agrícolas dobraram seus preços e o frete marítimo entre 2002 e 2007 teve seus preços triplicados?

Mas até o consultor da ONU, principal aliada do Lobo, já se desdisse: ‘Eu não estava falando do Etanol brasileiro, mas do americano’.

A fome da África, o Lobo bem que está sabendo, é culpa dos subsídios que ele mesmo dá às suas agriculturas. Torna-se um bom negócio produzir excedentes que são despejados na África a preços com os quais a agricultura local não consegue competir e perece. E então esses excedentes agrícolas são abruptamente reduzidos. O Lobo tem que engolir essa também.

E agora vem a última do furibundo animal, tirada do bolso do colete. Um argumento já surrado, caduco mesmo. A produção de álcool no Brasil seria anti-social, escravizante. Vamos ‘levar ao absurdo’ esse argumento, técnica sistematizada por lógicos e matemáticos no século 19.

Vamos supor que o Brasil tivesse uma ditadura totalitária, feudal, com um regime sem representação popular, sem sistema judicial igualitário, enfim tudo o que a democracia tradicional condena. Então, certamente haveria razões humanitárias para boicotar o álcool brasileiro.

Mas como o senhor Lobo explica o fato de que continua, docilmente, aconchegantemente, adquirindo petróleo de certos países do Oriente Médio, onde imperam os mais perversos sistemas políticos e sociais? Será que o petróleo seria um bálsamo saneador, purificador, devido às suas inequívocas conseqüências para o meio ambiente?

É claro que todo esse esforço do Lobo não pode ser hipocrisia gratuita. Que há interesses inconfessos uivando na escuridão da ignorância popular. E quem são os beneficiários de eventual derrocada dos biocombustíveis? A quem o Etanol ameaça?

Ameaça as nações exportadoras de petróleo, as empresas que o produzem ou que o comercializam, certamente. Mas há outros, aqueles especuladores que precisam de um bode expiatório para os ganhos exagerados com o aumento de preços dos alimentos. E aquelas organizações, como Nações Unidas, FMI, Banco Mundial etc., que tinham como obrigação prever e prevenir o escasseamento e o insuportável aumento de preços de alimentos e conseqüentes ameaças de fome e nada fizeram e, agora, precisam de um bode expiatório.

Eis aí as motivações do Lobo.’

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