Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Déficit de conhecimento ameaça exercício do jornalismo

Por Carlos Castilho em 23/10/2013 | comentários

A maioria dos jornalistas contemporâneos apresenta um déficit pessoal de conhecimentos capazes de assegurar condições mínimas para informar sobre a complexidade e diversidade dos fatos, dados e eventos deste início da era digital.

Esta é a conclusão, preocupante, do livro Informing the News: The Need for Knowledge-Based Journalism, do professor Thomas Patterson, da Escola Kennedy de Governança, na Universidade Harvard, e que foi lançado em meados de outubro nos Estados Unidos (versão eletrônica disponível na livraria virtual Amazon). 

A ideia central de Patterson é a de que a observação, entrevistas e checagem já não conseguem mais dar conta da necessidade de lidar com fatos, dados e eventos cada vez mais complexos, para os quais a exigência de contextualização se tornou mais importante do que a descrição factual ou reprodução de opiniões e percepções de entrevistados.

O livro discute as abordagens tradicionais tanto da natureza como do exercício do jornalismo e mostra como os manuais de redação e estudos teóricos sobre a atividade estão defasados em relação à realidade surgida após a avalancha informativa e a generalização do uso das novas tecnologias de informação e comunicação (TICs).

A maioria dos repórteres atuais já se deu conta que cobrir notícias econômicas, políticas e relacionadas à ciência ou tecnologia exige um conhecimento maior sobre os temas em pauta porque não só as questões se tornaram mais complexas, como também aumentou a sofisticação dos entrevistados no uso de técnicas de construção de imagem e marketing de ideias.

As ferramentas tradicionais de observação, entrevista e checagem já não conseguem mais uma rápida e eficiente identificação de vieses informativos nas declarações de um político ou de um consultor financeiro. Transmitir a informação bruta equivale muitas vezes a disseminar uma mentira deslavada, com o consequente descrédito do profissional e do veículo após a identificação do equívoco.

Quando o ritmo informativo era menos frenético do que o existente hoje, era possível corrigir e reduzir os efeitos negativos, especialmente em matéria de danos a reputações. Mas depois da avalancha informativa na web, a disseminação das notícias e boatos é tão rápida e ampla que o recurso ao “erramos” tornou-se meramente protocolar.

A contextualização da informação permite condições mínimas para identificar quando e como alguém está distorcendo um fato, dado ou descrição de um evento. Só que contextualizar exige duas condições muito escassas no ambiente jornalístico contemporâneo: conhecimento e tempo.

O conhecimento requer estudo, pesquisa, investigação e especialização. A complexidade da vida atual mostrou aos jornalistas como quase tudo está hoje interligado e, principalmente, como os valores tradicionais como verdade, objetividade, imparcialidade e exatidão tornaram-se relativos. As certezas estão se evaporando enquanto as dúvidas se multiplicam, tornando a tarefa de informar extremamente fluida e sujeita a um elevado grau de incerteza.

Como desvendar o jogo embutido no marketing político adotado pela maioria esmagadora dos nossos parlamentares ou ocupantes de cargos públicos? Como perceber que dados revelados por um empresário ou economista são menos importantes do que os não divulgados? Como identificar interesses associativos em iniciativas de organizações sociais? Todas estas são preocupações capazes de minar a segurança profissional de repórteres quando confrontados com a pauta diária de coberturas.

Na falta de condições para contextualizar o material colhido, os jornalistas recorrem ao cinismo como forma de se distanciar do viés embutido em cada entrevista ou informação. O professor Patterson critica duramente o recurso ao cinismo ao afirmar que ele funciona apenas como uma cortina de fumaça, porque não consegue passar ao leitor a informação que ele realmente procura e que está na contextualização do fato, dado ou evento.

O livro destaca que a preocupação com o déficit de conhecimento apresentado pela maioria dos jornalistas é fruto do ritmo industrial imposto pelas empresas de comunicação na produção de material para publicação e divulgação. Mostra também como o menosprezo das empresas pela necessidade de reduzir o déficit de conhecimento nas redações é anterior às TICs. Patterson reproduz as reações dos principais executivos da imprensa norte-americana após a divulgação do famoso Relatório Hutchins sobre Liberdade de Imprensa, no qual os seus autores criticavam duramente a superficialidade do noticiário jornalístico da época.

Quase todos os jornais, com exceção do New York Times, criticaram as conclusões do informe afirmando que ele era uma divagação teórica de um grupo de professores. Vinte anos mais tarde, o ex-repórter Phillip Meyer, que abandonou a profissão para se tornar professor universitário, desenvolveu um estudo sobre o que ele chamou de jornalismo de precisão, no qual destacava a necessidade de usar métodos das ciências sociais para informar sobre fenômenos urbanos. A proposta foi elogiada, mas sua aplicação nunca chegou à dimensão proposta por Meyer.

O que o professor Patterson propõe é o fim do mito do jornalismo mais preocupado com a ação, e em gastar sola de sapato, e a valorização do conhecimento como ferramenta fundamental da profissão. Ele sugere que repórteres e editores explorem duas vertentes do conhecimento jornalístico: o conhecimento dos conteúdos e o conhecimento do processo de comunicação. O primeiro visa conhecer o contexto dos fatos, dados e eventos para evitar distorções na notícia; e o segundo para entender melhor os interesses do público e buscar formas mais eficientes de transmitir notícias e informações pela web. 

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