Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

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Democratizar a mídia? ‘Não a partir do Estado’

Por Luiz Weis em 16/03/2007 | comentários

O repórter e colunista Fernando Rodrigues, da Folha, certa vez escreveu que o novo ministro da Justiça, Tarso Genro, era um ‘Rolando Lero’, por suas elucubrações sobre o papel dos partidos num segundo governo Lula, que incluíam uma complexa pensata sobre os pontos de contato entre o PT e o PSDB.

As idéias de Genro, principalmente quando expressas em artigos na imprensa, nem sempre são de fácil digestão. Mas não porque o seu autor esteja a fim de embromar.

Ele é um político intelectualmente ambicioso e não raro ousado – como ao pregar a refundação do PT, no sequência das denúncias do mensalão, e muito mais ao denunciar, no começo do ano, que o partido ‘viveu uma crise de corrupção programática e ética, não apenas conjuntural e não apenas decorrente de desvios comportamentais ou de pequenos abusos de poder e de confiança’.

Genro também é um observador bissexto da mídia. O problema com as suas manifestações a respeito é que sugerem algo no gênero ‘morde-e-assopra’. Antes a contradição, porém, do que o raciocínio em bloco, que praticamente reduziu a uma caricatura, durante a campanha presidencial, o imprescindível debate público sobre a conduta política da grande imprensa.

Hoje, ele aparece de novo falando do assunto numa rica entrevista aos bons perguntadores Valdo Cruz e Kennedy Alencar, da Folha. Além de dizer coisa com coisa, exibe uma visão matizada das relações entre mídia, política e sociedade – que só não há de agradar às turmas da pesada e aos portadores de viseiras ideológicas.

A seguir, as passagens da entrevista que tratam da imprensa. Em negrito, os trechos que podem ter surpreendido a mais de um leitor. São pautas para a reflexão.

‘FOLHA – Na campanha de 2006, o sr. sustentou que a imprensa agiu contra a candidatura de Lula em aliança com a elite paulista. Mantém a avaliação?

TARSO – No país não existe problema de liberdade de imprensa, nem de mau exercício da liberdade de imprensa. Existe um debate político importante sobre o futuro da democracia brasileira, em que a questão dos meios de comunicação é um elemento importante. Não acho que existe qualquer campanha conspiratória contra o governo Lula nem contra a democracia. O que falei foi que nitidamente a maior parte da imprensa estava contra o governo. Apenas o óbvio.

FOLHA – Na tese Mensagem ao Partido, documento para o 3º Congresso do PT assinado pelo sr., prega-se a democratização dos meios de comunicação. O que seria isso?

TARSO – Não será a partir do Estado. É uma questão de consciência da sociedade de como se organiza a circulação da opinião. No Brasil, existe liberdade de imprensa. Ela tem de ser preservada e está preservada na Constituição. Agora, qualquer país sério tem de discutir a liberdade de circulação de opinião, principalmente da opinião política, o que muitos países estão fazendo, mas não se trata de problema de liberdade de opinião ou de imprensa, e sim de circulação de opinião de forma mais plural.

FOLHA – Falta pluralidade à imprensa brasileira?

TARSO – Não falta pluralidade, porque os meios de comunicação têm várias posições políticas. Falta possibilidade da cidadania mais deslocada do debate político, afastada de assuntos de informação, poder exprimir de forma tão abrangente como os demais sua posição.

FOLHA – Como isso poderia ser feito, por meio de TV pública?

TARSO – Uma TV pública é importante. E o aumento do número de jornais, revistas, TVs privadas e públicas regionais.

FOLHA – O sr. acha necessário alguma regulação da imprensa, como se tentou no primeiro mandato com o Conselho Federal de Jornalismo?

TARSO – Não, eu acho que a liberdade de imprensa está bem regulada, há meios legais para que os cidadãos exerçam seus reparos à imprensa quando se sintam ofendidos.

FOLHA – O sr. interpelou judicialmente um colunista (Demétrio Magnoli) que o chamou de ministro da classificação racial, numa referência à política de cotas pelo sr. defendida. Não é um atitude contra o direito de opinião?

TARSO – Em primeiro lugar, não fui eu que fiz. Foi o advogado-geral da União. Em segundo lugar, para um filho de mãe judia, ser qualificado como integrante do ministério da ‘classificação racial’ é extremamente ofensivo. Se o advogado-geral não o tivesse interpelado, eu o teria feito. É um direito individual de um cidadão de esclarecer no plano jurídico o que a pessoa quis dizer com uma classificação desse tipo. Soube que a interpelação foi respondida e ela satisfez o advogado-geral. Respondeu que não teve a intenção de ofender.’

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 17/03/2007 Paulo Bandarra

    Infelizmente os que defenderam usaram como exemplo a ditadura ou ministros do FHC para provar que Tarso também pode ocupar o lugar. Não pela vida passada, a experiência trazida, a vivência na matéria! Assim como Marta, que nada sabe ou militou na área que ocupará com prêmio de consolação! Não existirá nenhum aprimoramento democrático mantendo os atos viciados do passado como forma de compensação em mensalões e aloprados. Muito menos indicar alguém muito chegado a cúpula do partido que responde um monte de processos e investigações dentro da própria polícia federal! Repetir erros não é progredir. Mas como se descobriu nestes quatro anos, o PT era igual a todos os partido até então e seus métodos de moralidade duvidosa! Pena que existe pessoas que aprecie isto!

  2. Comentou em 17/03/2007 Fabio Passos

    Tarso será impiedosamente criticado porque defende a ampliação e aprimoramento da democracia brasileira. As oligarquias atrasadas do Brasil abominam democracia e justiça. Querem deixar tudo como está. O novo ministro terá a solidariedade e o apoio de todos aqueles que desejam um Brasil mais democrático e justo.

  3. Comentou em 17/03/2007 Ely de Souza

    Mesmo sabendo que há falhas (e algumas bem cabeludas) dentro do PT não dá pra dizer que nossa mídia esteja uma maravilha. Já pararam pra pensar que todas, todas mesmo, as instituições têm um órgão reguilatório (mesmo que não funcione), só a imprensa se nega terminantemente a tê-lo ? Por quê? os jornais e jornalistas são perfeitos, iluminados ? É só fazer uma leitura mais detalhada dos fatos vindos da mídia e verificaremos que os textos não resistem a uma leitura superficial que seja. Na verdade a mídia está em mãos da classe dominante, não admite ser contestada, nega espaço para participações que não lhes interessam e não noticiam o que não convém. Já repararam que quando um político do PT comete um deslize a imprensa faz conexão direta responsabilizando o Lula? Mas uando um político de outro partido comete a mesma ou maior besteira nem mesmo o nome do partido é citado. Dá pra dizer que a mídia não tem lado, é imparcial ? O Tarso não é o melhor nome? Que tal os do tempo da ditadura? Nunca foi problema ter uma ideologia até FHC, por que isso será agora? Ora, senhor médico, vê se dá um tempo….

  4. Comentou em 17/03/2007 Hélcio Lunes

    De democrata o Ministro Tarso Genro só tem o gogó! É desses lôbos em pele de cordeiro. Interessante Luiz Weis considera-lo ‘observador’ da mídia, tendo ele dito o que já disse da imprensa brasileira.
    Sua facção dentro do próprio PT pro pugna o que há de mais atrasado e luta para implantar no país um modelo estatista que não deu certo em lugar nenhum do mundo.
    Um político que não convence nem o próprio partido, nem a própria família, deveria abster-se de comentários públicos.
    Poderia quando muito ser um burocrata cinzento do partido, encarregado de produzir ‘teses’ para congressos!

  5. Comentou em 16/03/2007 Haroldo M. Cunha

    ‘…pois o seu partido esteve nos últimos anos envolvido em comportamento não republicano! Como será comandado por um membro do comando do mesmo?’. Dr. Bandarra, até consigo entendê-lo,mas neste trecho eu discordo peremptóriamente: então quem colocar? Os partidos da oposição(hoje), quando foram situação tiveram diversos nomes enfiados em falcatruas denunciadas pela imprensa e mesmo assim foram empossados. Lembra do Abi Ackel ?(é assim?). Bom,o sr.poderá alegar que eram outros tempos, mas pense bem, os anteriores não ertenciam aos partidos de coalizão dos governos? ACM foi ministro! Genro, por ser um petista de carteirinha, pai da Luciana, é um perigo para o quê ou quem? E por não ser criminalista, qual o problema? Serra é o quê mesmo? Médico?
    Um abraço.

  6. Comentou em 16/03/2007 virgilio tamberlini

    Bandarra:
    O Cesar Maia só está preparando o terreno para a prestação de contas das obras do Pan Americano, que dos R$ 700 milhôes iniciais já esta em R$ 3,4 bi., portanto, legislando em causa própria.

  7. Comentou em 16/03/2007 JOSE VALMIR DANTAS DE ANDRADE

    Por que quando se fala em democratização dos meios de comunicaçoes, discarta-se, logo de imediato o Estado? Será que o Estado perdeu de vez a sua identidade liberal de ser um contrato social, cujos cidadãos associados fariam um contrato social, onde todos teriam como dever relacionar-se entre si e obecer a normas estabelecidas coletivamente? Hoje, quando se fala em democracia, se pensa unica e exclusivamente controle dos meios de produção pela iniciativa privada. Será que quando falamos de Estado, estamos nos referindo á noção de Estado totalitário? Será que um oligopólio que concentra boa parcela de um setor produtivo, explora, escraviza os trabalhadores de varios paises, nao é tao despota quanto um Estado totalitario? Vamos refletir sobre a relação entre sociedade civil se socidade politica.

  8. Comentou em 16/03/2007 virgilio tamberlini

    Bandarra:
    Você diz que o Tarso não pode ser Ministro da Justiça por não ser advogado criminalista e, por isso, não entende nada sobre violência? Você como médico entende? Qual a tua área Medicina Legal? Outra pergunta: na sua opinião justiça é apenas a criminal?

  9. Comentou em 16/03/2007 virgilio tamberlini

    Bandarra:
    O Tarso não pode ser ministro da justiça por não ser um advogado criminalista, portanto, não entende nada sobre a violência! Você como médico entende do assunto para dar este tipo de palpite? Para você a Justiça se resuma apenas à área criminal?

  10. Comentou em 16/03/2007 virgilio tamberlini

    Bandarra:
    Ministro em qualquer país do mundo é cargo de confiança! A tucanada nunca nomeou um membro do partido para um ministério ou secretaria da justiça?

  11. Comentou em 16/03/2007 Ivan Moraes

    ‘Em primeiro lugar, não fui eu que fiz. Foi o advogado-geral da União’: nao eh que o Sarney diz quase a mesma coisa? Faca me o favor de comecar honesto, homem.

  12. Comentou em 16/03/2007 Kleber Carvalho

    Acredito que o Alexandre Garcia, jornalista da TV globo seria um excelente nome para o cargo, e ainda indicaria o deputado Raul jungman para a chefia de gabinete.

  13. Comentou em 16/03/2007 Paulo Bandarra

    Ex-Blog do Cesar Maia_

    A entrega por Lula da Polícia Federal a um militante partidário como Tarso Genro é fato de extrema gravidade. Será entregar os arquivos, as investigações e a ação da Polícia Federal a um militante político-ideológico que não terá limites para levar as informações para o setor de inteligência do PT, que ficou a descoberto nas eleições de 2006. Que não terá limites em direcionar as operações da Polícia Federal no sentido de seus adversários políticos. Que assombrará as empresas com essa possibilidade tornando os pedidos de financiamento do Partido como ordens implícitas. Que entrará inevitavelmente na vida privada de seus adversários através dos grampos -ditos autorizados. Que trará os meios de comunicação sob o risco de suas operações… É o Filinto Müller do Lula!

  14. Comentou em 16/03/2007 Paulo Bandarra

    Acho que é o homem errado para o lugar errado. Não possui formação na área criminal e de segurança pública para enfrentar a violência que a população reclama! Por ser um petista da gema, que o não desclassifica de modo algum como pessoa, o torna entretanto inconveniente para o cargo que irá ocupar, pois o seu partido esteve nos últimos anos envolvido em comportamento não republicano! Como será comandado por um membro do comando do mesmo? Além do que, nem o seu partido aceita as suas teses, porque o país deve? Interessante que o mesmo tenha se sentido impelido a agredir o jornalista por se “um filho de mãe judia, ser qualificado como integrante do ministério da ‘classificação racial’ é ofensivo.” Afinal, o que tem de errado a classificação racial? Implica necessariamente em algo maligno? Mostra um viés de autoritarismo sem autocrítica! Mas parece que este tipo de pressão para fazer os jornalistas e intelectuais pagarem advogado a cada interpelação tem proliferado nos últimos tempos! Parece que a “liberdade de opinião ou de imprensa, e de circulação de opinião de forma mais plural” é apenas para alguns amigos! Mudou o rei, mudou o conceito do que é permitido ou ofensivo agora!

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