Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Deputado do PT diz que mídia não forjou crise

Por Mauro Malin em 07/11/2005 | comentários

O deputado José Eduardo Martins Cardozo, do PT paulista, sub-relator da CPI dos Correios, reconhece que a crise do “mensalão” é determinada por fatos produzidos pelo próprio PT e pelo governo, não por uma inexistente conspiração da mídia com setores políticos. Ele deu entrevista ao Observatório da Imprensa na sexta-feira (4/11). Cardozo critica a maneira enviesada como alguns veículos tratam o noticiário, detecta alta dose de passionalismo e não aceita que o PT seja apresentado como pior do que os outros partidos.


Eis as principais trechos da entrevista.


Existe uma teoria, várias vezes manifestada, de que na cobertura desta crise a mídia tem má vontade, está toda alinhada. Em que medida é justa ou injusta, é correta a avaliação de que há a deliberação de espremer o governo?


José Eduardo Cardozo – Evidentemente, existem fatos que infelizmente aconteceram, fatos, alguns, comprovados, alguns até confessados, que entram em linha de colisão com o que historicamente nós sempre defendemos. Querer dizer que esta crise é fruto exclusivamente de um ataque ao governo, que nós não temos responsabilidade, que nós não tivemos nada a ver com isso é tapar o sol com a peneira. Quando se está num processo de disputa, quando alguém pega fatos contundentes contra você, especialmente fatos graves que rompem com seu discurso histórico, isso, óbvio, é apropriado pelo seu adversário. Bobo seria o oposicionista que não pegasse uma brecha dessa para nos atacar de frente. O PT sempre foi conhecido como partido ético, essa foi a questão que nos levou ao nosso sucesso através dos tempos. A partir do momento em que alguém nos pega numa situação como essa, aproveita, claro, e ataca numa linha natural…. E cai na tentação, não justifico, ataco, também, de generalização. Nós vimos recentemente autoridades da oposição dizendo que o PT é formado por quadrilheiros, que no PT só tem bandido, “Temos que acabar com essa raça”. Aí tem a extrapolação da disputa política. Mas é natural que a oposição se aproveite e faça uma ofensiva contra nós.


A preocupação do Observatório da Imprensa é com a mídia.


J.E.M.C. – A mídia é regida por diversos componentes. Imaginar que um órgão de imprensa age só de acordo com um componente é muito pobre. Isso varia de órgão para órgão, num mesmo órgão há vários fatores incidindo. Não existe neutralidade na comunicação. Tem-se órgãos de imprensa que têm projeto de atendimento do seu público, precisam mostrar permanentemente um ataque aos governos para provar que não têm nenhum rabo preso com ninguém. É uma estratégia de mercado. Outros têm interesses econômicos por trás.


O órgão que pesa mais, o mais importante, é governista. É a TV Globo. Ela não é pró-PT, mas governista. Por isso, durante toda a crise ela tenta botar panos quentes. Primeiro, porque isso está no seu DNA. Segundo, porque a TV Globo é uma instância de governo. Se a mídia mais pesada do país fosse hostil, Lula teria caído.


J.E.M.C. – Sem dúvida. Agora, sem citar nomes, há segmentos da mídia que publicam matéria sem lastro, sem fundamento algum. Em alguns casos, pode até ser que exista o problema, mas falta consistência.


Existe também a ingenuidade dos repórteres, a pressa, a plantação…


J.E.M.C. – … Tem mais ainda. Quando se pega um corrupto que tem imagem de corrupto, isso não é notícia. Quando se pega uma vestal, é escândalo. E se cria um clima emocional, passional, no jornalista, no leitor, no meio político, que influencia.


O PT tinha uma grande cumplicidade nas redações e a direita reclamava disso.


J.E.M.C. – E isso deu uma reação passional nas redações, sentimos isso, o jornalista bravo conosco. Por exemplo: outro dia eu estava falando com um jornalista sobre o caso de José Dirceu. Eu disse: “Independentemente das convicções que se tenha, das suposições que se possa fazer, do ponto de vista jurídico, estritamente, não há prova. Posso achar que é impossível ele não saber, posso achar que ele é o mentor, porque os homens foram indicados por ele. São suposições. Agora, prova, do ponto de vista jurídico, não tem”. O jornalista desligou o gravador, ficou bravo: “Mas você, que é um cara sério, fala uma coisa assim!” E eu: “Como advogado, estou falando com absoluta consciência do que estou dizendo. Não tenho omitido nada, tenho colocado minhas posições com absoluta clareza. Certas coisas que eu coloco me dão até problema político”. Vê-se um clima passional. Um repórter, numa entrevista normal, ele até discorda de mim, mas não vai querer bater em mim depois. No atual momento a pessoa fica irritada. Ou então há aquele jornalista mais ligado ao PT [que pergunta]: “Você não vai pegar nada para estourar os tucanos? Vocês são uns incompetentes!” Tem-se um clima de passionalismo nesse episódio até porque boa parte dos jornalistas tinha simpatia pelo PT e se sentiram frustrados, traídos, ou acham que nós somos incompetentes para gerenciar a crise, não atacamos nossos adversários.


Isso foi decisivo para que o noticiário tivesse dedicado tanto espaço, ou foram simplesmente os fatos que surgiram?


J.E.M.C. – Os fatos, não dá para dizer que não tem. É por isso que eu fiz a minha primeira ressalva. Nada se sustenta tanto tempo sem fatos. Se se tem um fato hoje e se fica repercutindo amanhã, depois, depois… isso nenhum órgão de imprensa consegue. O problema é que semanalmente essa crise é alimentada por fatos novos, muitos dos quais têm verossimilhança. Há algumas notícias forçadas, mas se têm algumas situação conexas, que dão base material para isso. Essa base material existe, é inconteste, mas em cima se tem um conjunto de situações, de interesses políticos, econômicos, projetos específicos de certos veículos.


Marilena Chauí, numa carta a alunos da USP publicada pela Folha de S. Paulo – até de uma maneira descortês, porque ela não mandou a carta para a Folha e não autorizou previamente a publicação – parte da premissa inaceitável de que no capitalismo não pode haver mídia correta, isenta.


J.E.M.C. – Com isso eu também não concordo. Eu posso até questionar se existe isenção possível, é até uma discussão filosófica. Se em qualquer sociedade, em qualquer tempo, vai existir.


Mas pode existir uma busca de isenção.


J.E.M.C. – Uma busca de isenção, sim, parâmetros objetivos com os quais a pessoa tenta se governar no seu subjetivismo em face da notícia. Acho que isso existe na sociedade capitalista, perfeitamente. Ou, também, que em certas sociedades socialistas não vai existir e em outras, sim. Depende do grau de convivência democrática que se tenha com a manifestação da opinião. Isso também não descarta que existem interesses econômicos, existem projetos de marketing ou de consumo por parte de certos veículos…


Consumo?


J.E.M.C. – A notícia é um produto na sociedade capitalista. Então, quando se fala: “Eu vou atender meu leitor, meu público-alvo”, isso não deixa de ser um projeto de consumo e de marketing.


Aqui poderíamos voltar a tentar estabelecer um divisor de águas. O noticiário tem sido feito com essa preocupação ou tem sido guiado pelos fatos?


J.E.M.C. – Não é o noticiário que é feito com essa preocupação. É que alguns veículos têm essa preocupação. Quando surge o fato, ele segue aquela linha que ele sempre seguiu.


O senhor fez parte da comissão do PT que investigou as denúncias do economista Paulo de Tarso Venceslau irregularidades envolvendo a empresa CPEM, de um amigo do então presidente de honra do partido, Lula, e prefeituras petistas. Em texto para a revista Teoria e Debate, do PT, publicada em julho/agosto/setembro de 1997, o senhor escreveu:


“Evidentemente, alguns órgãos de imprensa buscaram de forma leviana desqualificar o resultado obtido, afirmando que as nossas investigações acabaram em ´pizza´, ou dizendo que agimos em nossa investigação ´à Stálin´absolvendo culpados e punindo os justos. Não examinaram em profundidade o relatório, não o confrontaram com as provas obtidas. (….) Limitaram-se a firmar uma sentença depreciativa irrecorrível. (….) É noção comum que em política a versão prevalece sobre o fato. E a versão que alguns setores da grande imprensa queriam impingir à sociedade é a de que o PT é ´igual aos outros´”. É sua crítica ao trabalho da mídia naquele momento.


J.E.M.C. – Isso foi real. Quando nós começamos a investigação, ninguém acreditava que fôssemos investigar a sério. Via-se o descrédito em entrevistas. Em alguns casos até ofensivo. Era uma comissão que tinha sido montada para colocar a sujeira debaixo do tapete. Quando se avança no processo de investigação, começa a haver o reconhecimento de que o trabalho era sério. Mas o resultado final passou a ter uma densidade muito menor do que a denúncia original. Não houve o mesmo espaço para divulgação da nossa conclusão. Houve mais espaço depois, quando a Executiva fez a revisão da nossa conclusão, e a Comissão de Ética decidiu outra coisa, do que quando apresentamos nossa conclusão.


Isso levaria o senhor a dizer que agora a imprensa também está enviesada? O presidente, o José Dirceu e outras pessoas fizeram um discurso muito categórico: Está enviesada, é contra nós!


J.E.M.C. – Eu acho que alguns órgãos estão enviesados. Mas dizer que a imprensa cobre esse caso de modo enviesado é injusto com a imprensa. A maior parte tem a ver com os fatos que nós mesmo produzimos. Alguns órgãos estão enviesados? Estão. Alguns órgãos exageram. Por exemplo: essa crise atinge o PT e o PSDB. Há órgãos que têm uma dificuldade imensa de ir para o PSDB, quando o modus operandi é o mesmo. Aliás, é pior: o cidadão é o mesmo. Não é nem semelhante, é igual. O Caixa Dois é o mesmo. Ganhou maior gigantismo no nosso governo. Mas é o mesmo modus operandi, os empréstimos.


Se compreende um pouco que haja mais estupefação com isso por ser o PT. Se fosse o PMDB…


J.E.M.C. – Nós somos a surpresa. Porém, quando se começa a colocar que nós somos piores do que os outros… aí não dá. E alguns órgãos de imprensa fazem isso.


O que se pode fazer para melhorar os padrões da mídia brasileira?


J.E.M.C. – A democracia é assim: não há como você estabelecer outro tipo de controle que não seja o controle social pela crítica. A mídia em si não gosta de ser observada. Geralmente, quando se faz uma crítica é como se você tivesse infringido um dogma da liberdade de expressão. Como se o criticado não tivesse também o direito de fazer a crítica que ele faz. Os órgãos de imprensa agem muito mal relativamente a isso. Seria correto que iniciativas como o Observatório da Imprensa tivessem um espaço social assegurado. Isso demanda uma evolução da sociedade. E nós temos uma cultura muito autoritária no Brasil, o leitor é muito pouco crítico, em geral. Começa a ser mais agora. Eu vi algumas coisas que eu nunca tinha visto antes. Matérias que forçam muito a barra, as pessoas reclamam. Há dez anos atrás não era assim. Matéria era lei. O desenvolvimento democrático lento e gradual vai criando essas condições. Não sei se existem mecanismos capazes de incentivar isso, fazer com que a sociedade estabeleça mecanismos de controle. Uma iniciativa como o Observatório é totalmente válida nesse sentido, mas não sei se existe algum mecanismo capaz de dar mais densidade pública ao Observatório. Seria o ideal.

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