Terça-feira, 22 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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Desabafo futebolístico

Por Carlos Castilho em 02/07/2006 | comentários


Normalmente não escrevo sobre futebol porque há gente muito mais qualificada do que eu nesta área. Mas hoje não dá para resistir ao desabafo depois do que aconteceu ontem (sábado, primeiro de julho) em Frankfurt.


Está bem, ninguém mais quer falar de futebol depois da derrota contra a França. Mas a ressaca não pode nos impedir de ver uma coisa fundamental: o futebol já não é mais apenas um esporte. É um grande negócio, onde os jogadores viraram commodities e os interesses estão absolutamente globalizados.


Nós deixamos de ser torcedores para virarmos consumidores dos produtos e serviços estampados nas camisetas, uniformes e bonês de jogadores. Nossa emoção foi transformada em combustível para estímulos consumistas.


Nada disto é novidade, mas acho que nesta Copa de 2006, a coisa foi longe demais e nos permitiu ver com mais clareza como fomos manipulados


Os jornais, revistas, emissoras de TV e de rádio foram os encarregados de criar as fórmulas através da quais nossas emoções foram combinadas com interesses comerciais de forma que, torcendo pelo verde amarelo, nós acabassemos valorizando a Nike, Coca Cola, Guaraná Antártica e um monte de outras marcas.
Os jogos desta Copa deixaram de ter os ingredientes básicos do esporte, ou seja, a busca da superação individual e coletiva. Não passaram de exercícios de marketing, cuja pior consequência foi a de inocular na maioria dos torcedores o vírus da dúvida. Será que fomos realmenrte derrotados, ou tudo não passou de um acerto entre patrocinadores
? Fomos apáticos na partida contra a França porque fazia parte do script publicitário, ou porque, mais uma vez fomos realmente inferiores aos franceses?
A imprensa tratou de criar um estado de excitação nacional capaz de aplainar o terreno para o consumismo das marcas patrocinadoras. Nunca se viu um fenômeno como este, de exaltação frenética do verde-amarelo, transformado numa marca ou moda mais do que num símbolo de nacionalidade. Nem no regime militar.


A mídia foi coadjuvante na mega operação criada pelos patrocinadores para vender refrigerantes, bancos, automóveis e produtos lácteos, às custas do patriotismo. Agora, ela corre o risco de virar o saco de pancadas de uma opinião publica irritada, frustrada e desiludida, como mostram fartamente os comentários colocados em blogs sobre a Copa.
A imprensa acabou cativa da armadilha montada pelos grandes patrocinadores. Para fazer jus às grandes quotas publicitárias, jornais, revistas e emissoras de TV montaram sistemas bilionários de cobertura, para tentar atrair as maiores audiências possíveis.


Neste esforço acabaram trivializando a cobertura esportiva ao forçar o leitor a se preocupar mais com a bolhas nos pés do Fenômeno do que com a questão dos aumentos salariais de funcionários públicos. Faltou assunto. O público sentiu isto e começou a se mostrar apático e indiferente, diante de uma avalancha publicitária sem precedentes na história da mídia brasileira.


Os torcedores estão cada vez mais convencidos de que foram iludidos, como mostram os comentários da maioria dos blogs que acompanharam o noticiário esportivo. Falta agora agora a imprensa fazer também seu mea culpa.

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/07/2006 Sergio Rosa

    O espetáculo não funcionou, ao menos para grande parte da platéia brasileira. O gosto cultural pelo futebol continua, é daí que ele não pode sair, e não irá, pois é patrimônio do povo indevidamente explorado por grupos de interesses diversificados e contraditórios entre si.
    A ameaça está em caminho, surgem jogadores-mercadoria pouco identificados com a população, que vivem a maior parte de sua juventude fora do país. E conter isto é muito difícil. Fenômenos de quê? Focas malabaristas! Reis, Imperadores, enfim tudo isto é questionado nas ruas.
    Acusações de negociatas daqui e delá apenas desvendam e atualizam no futebol o que é historicamente corriqueiro e renovado com as devidas sofisticações de cada época. As organizações de futebol tornaram-se poderosas e blindadas, tiram o boleiro que o brasileiro facilmente reconhece do seu convívio. Surgem estranhamentos,e é claro o descontentamento.
    A irracionalidade é a mesma, mas nesta versão da copa fica por conta de não se conseguir dar conta do volume de informações pouco úteis e que retratam uma realidade que é vista por todos, mas que aparece cheia de contrariedades e diferente nas narrações e interpretações dos jornalistas especialmente os da TV aberta, monopolizadora.

  2. Comentou em 04/07/2006 Fabio de Oliveira Ribeiro

    Caro jornalista

    Mesmo que os interesses comerciais e o marketing tenham se apossado do futebol (o que não seria nenhuma novidade, pois os comerciantes, industrais e seus ventrílocos já se apossaram da política, da cultura e de quase todos os aspectos da vida contemporânea) ainda há espaço para os amantes do esporte. Basta não dar a menor importância para o que os anunciantes pretendem, ignorar os produtos que eles anunciam e deixá-los acreditando que estão nos convencendo. No caso específico do Brasil, em que metade da população consome apenas imagens televisivas, esta técnica de enfraquecimento do inimigo funciona muito bem. Ela é até usada constantemente pela maioria das pessoas numa boa.

  3. Comentou em 03/07/2006 otavio ribeiro

    Nao é justo dizer que a mídia foi coadjuvante e cativa da armadilha montada pelos patrocinadores… Boa parte da mídia exerceu sim papel principal nessa copa, refiro-me principalmente a Globo, que estava praticamente `acoplada` ´a seleção brasileira. Isso sem falar nas torturas infligidas ao telespectador…. narraçao esquizofrenica recheada de comentários óbvios em transmissao exclusiva dos jogos. Nao foi possivel nem sequer escolher outros especialistas em berros patrioteiros….

  4. Comentou em 03/07/2006 Maria Luiza Franco

    Prezado Carlos Castilho, faço minhas as suas palavras. Penso da mesma forma, cadê a mídia brasileira fazendo sua mea culpa? A Tv então parecia esquisofrênica – um dia elogiava, outro batia. Será que ninguém viu que o fracasso era questão de tempo (a vitória seria a comprovação que ‘Deus é brasileiro’)? Outro ponto que devo acrescentar à sua excelente análise é a forma como foi conduzido o processo de endeusamento dos ‘idolos’, estes jogadores foram tratados com desrespeito pela própria emissora que os endeusou. Estão sendo neste momento cruéis com jogadores e treinador, e os cartolas sumiram … Fiquei arrasada qdo vi um paulista queimando a bandeira do Brasil no Anhangabaú. A manipulação irresponsável ainda irá provocar tragédias, os emissores de opinião têm que ser responsáveis e responsabilizados por esta loucura artificialmente gerada – agora mais do que numca eu entendo o Nelson Piquet e seu comportamento com relação a rede globo, que jogadores e treinadores aprendam com a lição e parem de ser instrumento de manipulação.

  5. Comentou em 03/07/2006 Edson Lemos

    Precisa, a opinião de Carlos Castilho.
    Pena que somente agora sejamos ouvidos,só discordo de algumas observações tais como:
    – A imprensa será responsabilizada pelo fracasso,infelizmente não atingimos a este nível de entendimento por parte dos’ torcedores’ de copas do mundo,e o que acontecerá certamente será a execração pública dos jogadores,comissão técnica.
    Principalmente por parte da maior culpada pela farsa as ORGANIZAÇÕES GLOBO,que com sua mania de criar ufanismos criou expectativas exageradamente maiores que a realidade de nosso futebol,pois quem o acompanha verifica que desde 1990 o futebol deixou de ser uma arte e reforçado pelo falso êxito da seleção de 1994 vem sendo utilizado para tudo menos para melhoria do mesmo.Entretanto os que até sábado às 16:00,não criticavam a falta de treinos,variações de jogo,a barração de jogadores que tinham vaga pelo nome e não pela condição atual, o absurdo de não termos um time BRASILEIRO que estivesse treinado à exaustão aqui no Brasil formando uma base estável à qual se juntariam alguns do exterior,falta de jogos sérios para adquirir entrosamento.
    Estes agora não têm direito de condenar e execrar a quem quer que seja.
    E aqueles que se venderam à Rede Globo ficando á disposição a qualquer hora do dia ou da noite ,que sintam que a ‘Mão que afaga é a mesma que apedreja’.
    Parreira ‘Quem se abaixa demais,aparece…’

  6. Comentou em 03/07/2006 Ricardo Pinheiro

    Ah tá, então quer dizer que a Nike ‘se vendeu’ para Adidas! Que grande golpe de marketins e alavancada nas vendas.
    Vamos combinar de perder o jogo, desvalorizar os ‘nossos’ jogadores (Ronaldo, Ronaldinho, Robinho, etc), e esta tudo ótimo.
    Pessima, analise

  7. Comentou em 03/07/2006 Ivan Moraes

    Poxa, senhor Castilho, esta facil para o OI saber o quanto o *proprio* publico estava interessado na copa, eh so contar o numero de acessos aa edicao 387 comparado aas previas. Valeu a pena?

    Pode ser que o proprio OI tenha dados importantes nesse assunto e nao esta sabendo. Obrigado e um abracao.

  8. Comentou em 03/07/2006 Érre Gonçalves

    Oi Carlos,

    Não irei perturbar a sua cabeça com suposições acerca do oculto, de letras miúdas em contratos e negociatas. E muito menos com escalações e soluções táticas. O marketing é tudo num evento comercial. Essa máxima ficou muito evidente no sábado. Pena que o toque da varinha mágica não consegue trazer espontaneidade aos seus eleitos.

    Antes de cobrar empenho dos atletas devemos mostrar para eles que ‘respeito é pra quem tem’: que não os expulsamos do país por falta de oportunidades, que não fechamos olhos e ouvidos para a corrupção generalizada da nação, que somos tão patriotas ao ponto de não permirtimos que o material esportivo de nossa seleção seja fornecido por uma empresa estrangeira, que a Coca-Cola, Vivo, Santander torcem pela marca Brasil, que a Copa é um evento esportivo realmente importante para nós e não apenas um ‘feriado’, que não somos tão otários, ou ‘Homer’, quanto pensam Galvão, Globo e cia.

    Ou seja, pagamos pela falta de coerência, passividade e pelo excesso de festa antecipada.

  9. Comentou em 02/07/2006 Ricardo Ranieri

    O que mais deveria preocupar a imprensa sãso as verdadeiras causas que estão por trás das causas visíveis do fracasso do Brasil (ou seja, o que está atrás do pseudocomando de Parreira e da falta de comprometimento profissional dos jogadores). Jorge Kajuru, no programa de hoje, deu boas dicas, ao dizer que atrás do técnico há pessoas que querem fazer dele um simples fantoche. E o téncico que não aceitar esse proceder, simplesemente não será aceito a para a posião de ténico do Brasil (como no caso do Filipão, citado por Kajuru, ele foi demitido porque não queria levar o Romário para a Copa de 2002 – apesar de ter sido readmitido – e porque não queria aceitar imposição dos componentes da comissão técnica pós 2002, não qual queriam impor o nome de Zagalo, como acabou ocorrendo). Acho lastinável uma omissão crítica da imprensa quanto a esse aspecto.

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