Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Desafio ao leitor – e ao jornalista

Por Luiz Weis em 15/12/2008 | comentários

”A função do jornal é dar ao leitor apenas o que ele pensa que quer?”, pergunta o ombudsman da Folha de S.Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, na sua coluna de domingo, 14, a propósito da teoria segundo a qual, pelo menos na área da cultura, o leitor cidadão virou o leitor consumista – desinteressado, portanto, do jornalismo de grandes vôos.


”Creio que não”, responde o próprio Lins da Silva. “Claro que [a imprensa] precisa satisfazê-lo, mas também deve desafiá-lo.”


Eis aí, em poucas palavras, o troco para a complacência, o nivelamento por baixo e o espírito de rendição com que um número de colegas – muito maior, talvez, do que seria aceitável – adentra todos os dias a redação de um periódico.


Como se dessem de ombros diante de qualquer sugestão de pauta que ouse confrontar o leitor com uma abordagem provocativa – desconfortável, eventualmente – dos fatos do noticiário.


Se o jornalismo é uma batalha inglória, como dizem os mais céticos, o jornalismo de idéias seria uma batalha perdida.


Não é, mas a tantos convém pensar assim. Pela simples razão de que o desafio ao leitor que o ombudsman da Folha defende é antes de tudo um desafio ao jornalista. Ele precisa dominar o assunto, pelo menos para o gasto jornalístico; ter imaginação para construir ao redor do tema uma pauta à altura da pretensão; apurar e articular os fatos e os conceitos; e saber escrever – mais ainda do que se deve cobrar de costume – com clareza, elegância e simplicidade.


Dá um trabalho de cão e nunca se sabe de antemão se o resultado compensará.


Mais fácil dar de ombros e entregar os pontos com um “ahhh, quem é que vai querer ler isso?”.


A saída pelo facilitário se apóia no argumento de que o leitor não está a fim de ser perturbado com matérias que rompam com as suas expectativas e o obriguem a ser menos “consumidor” e mais “pensador”.


Não que o argumento seja falso de cabo a rabo. Mas é o caso de invocar o direito das minorias: a parcela, vá lá a palavra, diferenciada do leitorado da chamada imprensa de qualidade faz jus a mais do que o trivial variado que recebe por seu dinheiro e que pode até ser bom o bastante para a maioria.


Essa parcela forma uma elite – a elite dos curiosos. Eles não são necessariamente nem os leitores mais instruídos nem os mais cultivados. São aqueles que por algum razão ou combinação de razões são receptivos a idéias novas – se não sobre qualquer assunto, sobre assuntos pelos quais já se interessavam.


Esse leitor não se sente amedrontado por matérias que saiam de convencional – desde que elas sejam capazes de conversar com ele (é onde entra, para o jornalista, o trabalho de cão de que se falou acima), o que implica não olhá-lo de cima para baixo.


É o que os jornais poderiam ter feito aproveitando o gancho da passagem dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Foi o que ocorreu a este blogueiro ao ler o editorial – quem diria! – da Folha de domingo (14) sobre o assunto.


Indo além do óbvio sobre a atualidade do documento e o desrespeito continuado aos direitos humanos pelo mundo afora, o editorialista provocou o leitor com a lembrança de que nem todos consideram “realmente universais” os valores implícitos na Declaração.


Segundo um certo raciocínio com o qual o texto vai às vias de fato, “o que é válido para uma cultura não é necessariamente válido para qualquer outra, e a Declaração de 1948 resulta de uma circunstância histórica e de uma herança filosófica particular: a do Iluminismo ocidental”.


Ou seja, práticas hediondas como a excisão ritual do clitóris não deveriam merecer o repúdio universal porque seriam expressões culturais não menos determinadas pelos costumes e a história do que a própria noção da universalidade dos direitos.


Numa reportagem, essa discussão alcançaria muito mais leitores e os desafiaria a percorrer o terreno acidentado do relativismo cultural. Jornalismo de idéias é isso aí.

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/12/2008 Luciano Prado

    Sobre jornais e jornalistas, imprensa em geral só mesmo uma nova geração. A que está aí é como relógio que atrasa, não adianta.

  2. Comentou em 17/12/2008 Jorge Granja de Oliveira

    Caro Luiz Weis. Partindo da assertiva do internauta Célio Lima, devo admitir que sou um catador de lixo. E, supondo que eu considerasse esse blog um lixo, ao invés de criticá-lo pura e simplesmente, eu decidiria entre as 2 opções mais racionais: ser prático e ignorá-lo ou participar com um comentário pertinente, à altura do meu intelecto.
    Isto posto, hoje, certamente, é meu dia de sorte. Ao revirar esse lixão, encontrei essa “peça” de valor inestimável. Um tema absolutamente atual e oportuno; uma abordagem correta e muito bem desenvolvida; um texto inteligente. Irretocável! Impressionante é a sutileza com que você sugere ao leitor mais “antenado” que, intrinsecamente, o artigo já é parte do desafio objeto da epígrafe.
    A propósito, em uma sociedade há décadas massacrada por um processo de massificação perpetrado principalmente pela televisão, caberá à maioria juntar-se à “elite dos curiosos” e, libertando-se do estigma de “maria-vai-com-as-outras”, exigir através da participação efetiva, a melhoria na qualidade do que lhe é oferecido pelos diversos veículos de comunicação. Quanto aos verdadeiros jornalistas (você é um exemplo), compete continuar fazendo um “trabalho de cão”, alheio à compensação ou não do resultado, de forma a montar trincheiras para enfrentar a grande mídia que, por conveniência, insiste em manter o povo alienado.
    Sds. Jorge Granja.

  3. Comentou em 17/12/2008 ibsen marques

    Às vezes fico estarrecido com a pequenês do alcance de alguns leitores. Em primeiro lugar o Weiss não propõe como prática aceitável sob algum aspecto a excisão do clitóris em certas culturas. O que ele propõe é a discussão sobre a validade da universalidade dos conceitos como por exemplo os que envolvem democracia, direitos humanos, aborto etc etc. Portanto, o correto seria ‘colocar em debate’ se tal ou qual conceito pode ser considerado universal. Os argumentos, a partir de uma exposição jornalística dos fatos deveriam ser postos e avaliados por cada leitor, mas, ao que vejo, mesmo leitores cultos e instruídos torcem e distorcem o que se escreve. Isso explicita um pré-conceito e uma indisposição para o novo ou para uma nova visão dos fatos e é exatamente isso que o Weiss critica e expõe. Seu texto apenas incita-nos a uma mudança tanto na forma/conteúdo do que o jornalista escreve quanto na forma como a notícia é lida por nós. Nada a ver com a defesa desse ou daquele comportamento cultural em específico. Vamos colocar as questões em discussão e não criticar o Weiss por opiniões que ele nem emitiu.

  4. Comentou em 17/12/2008 ibsen marques

    O jornalismo hoje prima pelos chavões. Não se discute de verdade o que é democracia e se por acaso o melhor tipo de governo dependeria da tradição cultural de um povo. Aliás, o termo democracia já exigiria um compêndio para sua explicitação. O exemplo vem dos próprios gregos já que lá haviam escravos e trabalhadores braçais e esses passavam longe dos ireitos políticos. Mesmo questões como liberdade de imprensa (hoje um tabu dos maiores) adquiriria outra significação e o solicitado controle externo da mídia receberia outros contornos, mas tudo hoje cabe no leque da censura e não se fala mais nisso. Prá resumir a imprensa hoje está a altura de um povo consumista ao extremo e de poucas, muito poucas idéias, i. e. , burra mesmo!!!!

  5. Comentou em 17/12/2008 Lotar Kaestner

    Um físico chinês, professor aqui em Curitiba, mestrado nos USA, diz que democracia…direitos humanos…eleições…de nada servem. Na China é feito o que é melhor para a sociedade e hoje a China é uma potência mundial. Claro que penso diferente, mas pensando…no Brasil o que entende a maioria do povo de economia, de política? Elege quem senão inúteis…que nada entendem do país e ganham um salário gordo? Pagamos 27% de imposto para ter acesso a Internet, ou vamos pagar 29%? Jornalistas…que escrevem para um país de analfabetos e ignorantes…que não entendem os textos…? Informação no III Mundo é exclusivo para a elite. Deve ser assim para que o povo continue sendo escravizado e ignorante….? Jornalistas vendidos aos sistema…são apenas operários de chão de fábrica que tem que obedecer…

  6. Comentou em 17/12/2008 Carlos N Mendes

    Se eu fosse uma menina berbere de 6 anos, jamais acharia a infibulação um ritual. Dói pra ca-ce-te! Sem falar das consequências, irreversíveis. Não acredito que algo assim possa ser passível de ser considerado patrimônio cultural, como o Kuarup ou totens canadenses, mesmo porque a prática é fruto de uma violência que vem de cima para baixo e visa anular tais meninas como seres sexuais. A humanidade ficaria bem melhor sem ela, e as meninas berberes seriam eternamente gratas.

  7. Comentou em 17/12/2008 DANIEL BARBOZA DE NOVAIS NOVAIS

    Olá moçada, esse texto alerta-nos sobre a nescessidade de DESPERTAR o conhecimento e o interesse das pessoas para a VIDA, e isso deve valer em todos os seguimentos da sociedade. Penso que essa éra digital e a atual tecnologia aplicada nas comunicações devem ser melhor explorada nesse sentido, portanto, ao escrever seja lá num jornal, num blog ou qualquer outro meio de comunicação, temos que procurar ser o mais objetivo possivel, esclarecendo fatos e principalmente dando margem a que o leitor avalie e crie sua concepção a respeito, o desafio é mutuo, tanto para quem escreve como para quem lê, e é esse o caminho, é bom que sejamos INTERATIVOS e que saibamos dizer o que precisar ser dito, ouvir e reavalir conceitos, e só assim, ter a esperança num SOCIEDADE mais justa.
    Nessa missão, que principios como: Etica/Lealdade/Honestidade/Amor/Perdão/Humildade/Gratidão e … estejam sempre presentes compondo uma verdadeira CESTA DE NATAL PARA TODOS, e que 2009 seja mais um desafiador a ser cumprido em nossas vidas.

  8. Comentou em 17/12/2008 yasmin alves

    ‘Se isto serve de consolo’: no meu aniversário (que coincide com a edição do AI-5 e Declaração Universal dos Direitos Humanos), escrevi algo muito semelhenate a este seu artigo no meu blog. Mas… constatar um fato é uma coisa, buscar soluções possíveis para o problema é outra, bem diferente. Pessoalmente, não vejo como podemos batalhar no sentido de diminuir as desigualdades e melhorar o cultivo do verdadeiro respeito pelas diversas culturas e liberdade dos povos de fazer a sua escolha, e ao mesmo tempo compartilhar o que sabemos com aquelees que ‘não querem saber’… Estamos no mato sem cachorro ou somos cães perdidos na mata sem saída?

  9. Comentou em 17/12/2008 Célio Lima

    Desafio mesmo será evitar a palhaçada que o Roda Vida fez ao entrevistar Gilmar Mendes sob as ‘perguntas’ filtradas pelo enfoque da covardia e panos quentes da imprensa vendida. Este observatório é outro exemplo péssimo para a população que navega pela internet. Viés político atrelado à alienação só podia dar nisso: um Observatório da Classe Média e Empresariado. Um lixo!

  10. Comentou em 16/12/2008 Mariana Cecília

    Concordo com meu companheiro estudante quando ele diz que o assunto é muito amplo. Contudo, não creio que seja certo dizer que a população brasileira não quer esse tipo de matéria porque é ignorante, eles não querem porque simplismente numca viram algo assim no país. Há um jogo de interesses medonho por tráz disso tudo e a desmotivação jornalística é só a ponta da montanha. ‘viva a revolução!’ Abraços

  11. Comentou em 16/12/2008 Vinícius Barros(16anos)

    Sugestão: Se fizessem uma pesquisa e pedissem que os entrevistados listassem os 10 assuntos que mais dominam, certamente grande parte da população iria colocar a novela em primeiro. Daí fica difícil o jornal impresso escrever sobre assuntos importantes e com qualidade se a população é tão ignorante. A TV e o ensino tem muita culpa nisso. O povo não está preparado(ou não quer) assistir alguma coisa que lhes desafiem. É só ver que o Brasil tem um dos povos que menos lê livros no mundo inteiro.

    O assunto é muito amplo!

    Abraços!

  12. Comentou em 16/12/2008 Ivan Moraes

    ‘Ou seja, práticas hediondas como a excisão ritual do clitóris não deveriam merecer o repúdio universal porque seriam expressões culturais não menos determinadas pelos costumes e a história do que a própria noção da universalidade dos direitos’ Weis, nao entendi de onde saiu isso! Do texto da falha? A ‘pratica hedionda’ eh praticada em criancas –somente criancas– sem anestesia, por curandeiras, e uma parte indocumentada dessas criancas morre em consequencia de infeccoes.

  13. Comentou em 15/12/2008 Tania Lenina Mendes

    Weis, lembra do ” isso o Hommer não vai entender’ … magistral frase do leitor de telepromter global? É isso, como vc diz, é isso. Los perros olvidados (será que alguém entendeu sua doce ironia?) são muitos e estão por toda parte, na maior. Nós é que sofremos.

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