Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Destino de Renan depende da mídia

Por Luiz Weis em 29/05/2007 | comentários

Se o Senado fosse um teatro, e a sessão de ontem [28/5], um espetáculo, seria o caso de dizer que o primeiro ato consistiu na tentativa do protagonista Renan Calheiros de transformar, por um passe de mágica, a história de uma ligação suspeita com um lobista de empreiteira numa história de exploração malévola de sua ligação extra-conjugal com uma jornalista.


O segundo ato foi a troca de cartas marcadas entre o presidente da casa, o próprio Renan, e o líder da bancada do partido de ambos, o PMDB, Romero Jucá. Assim que o “amigo de 20 anos” do lobista terminou de falar, o correligionário se apressou a lhe pedir que suspendesse a sessão, no que foi prontamente atendido. Assim, se evitou que alguma excelência, mesmo no afã de se solidarizar com o suspeito, dissesse da tribuna ou do microfone de apartes alguma inconveniência que pudesse perturbar o show em curso.


E assim se abriu o caminho para o terceiro ato – e o fecho glorioso do dia: pressurosos senadores fazendo fila para cumprimentar o político alagoano que armara o jogo de cena de se apresentar como um Clinton brasileiro, confessando o seu affair com outra Mônica – a Veloso, não a Lewinsky – mas continuava a ser o Calheiros amigo também “há 20 anos” do empreiteiro Zuleido, navalhado pela Polícia Federal na condição de chefe de uma sofisticada organização criminosa, como diria o procurador-geral da República em outro contexto.


Nos jornais de hoje, vários críticos da matinê senatorial a ela se referiram em termos parecidos a esses para advertir o distinto público que, do jeito que as coisas ficaram, é mais fácil um político brasileiro entrar no reino dos céus do que os senadores resolverem infernizar a vida do colega exposto na edição desta semana da revista Veja.


Mesmo porque, como oportunamente lembrou a colunista Tereza Cruvinel, do Globo, não foi por distração que Renan terminou o seu monólogo com as seguintes palavras:


“Reafirmo, como presidente do Senado, meu compromisso de apoio integral a qualquer investigação dentro da lei, especialmente pelo Congresso Nacional, sobre todas as denúncias que envolvam as relações de empresas e empresários com o Poder Legislativo e com o Poder Executivo.”


Nas palavras de Tereza, “a carapuça tem medida e endereços certos”. Ou, podia ser, “Mexeu comigo, ligo o ventilador, amigo.”


O resumo da ópera, portanto, é o seguinte: ou a mídia consegue ir além do que foi em destrinchar as ligações perigosas do collorido senador – e não me refiro obviamente às suas eventuais ligações sentimentais – ou ele assumirá de novo, sem ter o que recear, a atitude zen que costuma exibir, como se fosse um iluminado discípulo do Gautama Buda.


Ir além do que foi não é apenas a mídia ir atrás da origem do dinheiro desembolsado pelo senador para a ex-namorada e a filha que tiveram – por mais importante que isso seja para a eventual caracterização da promiscuidade que todos farejam no caso.


É ir mais fundo no papel do lobista Cláudio Gontijo e da big empreiteira para a qual trabalha, a Mendes Júnior. Ontem mesmo, por intermédio do seu advogado, Mônica Veloso tirou o gás da versão de Renan, segundo a qual ele recorreu a seu amigo Cláudio para intermediar a entrega do dinheiro porque ele também é (ou era) amigo de Mônica.


Como se lê no editorial “O que a transparência exibe”, do Estado de hoje:


“Apenas para raciocinar, admita-se – na contramão de todos os indícios plausíveis – que Calheiros tenha dito a verdade quando assegurou que “meus compromissos sempre foram honrados com meus próprios recursos”. Admita-se ainda que, apenas por discrição num caso circunscrito à sua “mais íntima privacidade”, ele tenha recorrido durante três anos a um intermediário para fazer os pagamentos mencionados na reportagem da Veja. O senso comum elementar impõe a pergunta: mas por que exatamente um lobista, ainda mais de uma grande empreiteira?”


***


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Todos os comentários

  1. Comentou em 30/05/2007 Luiz Carlos Bernardo

    Luiz Weis, não somente a mídia precisa ir mais além, como também a sociedade brasileira. Até quando vamos aguentar essas mazelas. Faço minha as seguintes palavras: O que me preocupa não é o grito dos maus, mas sim o silêncio dos bons. O senador Renan Calheiros e os seus comparsas não enganam ninguém. Eles são assim e ponto final. Cabe a nós, os simples mortais, darmos um sonoro basta com nossa atitude firme e inabalável. O nosso desdém e o nosso desprezo, por esses delinquentes, não resolvem. Eles riem e debocham de nós aos montes.

  2. Comentou em 30/05/2007 José Carlos da Silva

    Alguem poderia informar para quem a jornalista trabalhava? Em tese, pode ter sido uma relação lucrativa para ambos, para ela informações privilegiadas, para ele informações a favor. Com este exemplo vimos que a relação entre a midia e os poderes, publico e privado, é promiscua, depois de um tempo tornam-se amigos ou até mais e confunde-se tudo…

  3. Comentou em 30/05/2007 Ana Claudia Pereira Gonçalves

    É preciso urgentemente, por um ponto final na farra dos nossos congressistas. A maneira como agem, expressa muito bem o respeito que devotam aos seus eleitores. É triste ficar assistindo às aberrações desses congressistas, sem ter como interferir. É axiomático que os dententores do poder, entendam de vez, que o brasileiro já não está indiferente e apático com o que está acontecendo à sua volta. Deixar esse senhor sem a punição cabível, é no mínimo , afrontar o povo brasileiro. É obrigação da mída e das autoridades competentes tomar uma atitude quanto a esse episódio imoral.

  4. Comentou em 30/05/2007 Nelson Santos

    Resta saber como um indivíduo cujo salário corresponde a cerca de 13 mil reais paga uma pensao de 16 mil.
    Aliás eu nao conheço nenhum amigo que pague pensao alimentícia para a filha de outrem.
    ainda dizem que Salvador Dali é o mago do surreal.
    Era, o presidente do senado ‘botou ele no bolso’.

  5. Comentou em 29/05/2007 Severino Goes

    A mídia brasiliense, caro colunista, não está a fim de ir atrás das ligações espúrias deste caso. A mídia brasiliense cobre o Salão Verde da Câmara, por onde passam os que dão notinhas para colunas sociais, ditas políticas, basta ver um grande jornal do Rio de Janeiro que mantém uma coluna social em página nobre como se fosse uma coluna política. A Tereza Cruvinel poderia dar mais informação e ser menos condescente com estes políticos ‘merdalhões’ que frequentam a coluna dela. Assim como vários e vários colunistas brasilienses. Aliás, o que não falta é a espécime ‘colunista brasiliense’ nos jornalões, não é mesmo?

  6. Comentou em 29/05/2007 Ana Maria Taborda

    O discurso ‘sentimental’ do senador implica, pelo seu rumo e repercussão, na certeza de inculpabilidade dos que ocupam o poder institucional, construindo uma nova ‘classe’ no Brasil. É terrível ver a tentativa do senador de deslocar o foco da denúncia e se colocar como vítima, dentro de uma situação em que el é, no mínimo, suspeito. Preocupa a atitude dos senadores, zelosos de suas próprias biografias, se apressando, a grande maioria, a prestar apoio
    ao ‘colega’ atingido. Quando o Senado Federal, representação maior do povo no Legislativo, age como corporaç~çao patronal, é preocupante.

  7. Comentou em 29/05/2007 Jonatan Fernandes

    Para alguns Renan Calheiros foi protagonista, como criticou Luiz Weis, mas percebe que o lobo vestido de cordeiro está presente numa política que muda de cenários e de façanhas. Acredito que a interpretação foi de um antagonista.
    Os eleitores são simplesmente figurantes, que só passam pela cena como pessoas sem importância, sem história. Os atores que ganham destaque dependem delas de alguma forma. Certo?
    Weis aponta personagem para cada político criticado neste artigo. Os figurantes que lutam para ganhar papel importante, ou até mesmo, atenção, estão em último plano.
    O articulista foi feliz em dizer que a mídia precisa ir mais além, ir além do dinheiro. Sendo desta forma, COM VOZ, os figurantes têm a oportunidade de entrar no cenário da dita democracia.

  8. Comentou em 29/05/2007 Tatiana Freire

    Basta o presidente do Senado abrir a boca para que a imprensa “caia de pau”, ou melhor, de palavras (bastante críticas) em cima das suas declarações. É assim com todas as personalidades públicas, com ele não seria, e nem poderia ser, diferente. Agora é só nos preparar para os próximos episódios e agüentar a guerra da mídia pelas aspas de Calheiros. Engraçado, porém triste, é ver que a intenção da mídia não é a de investigar, mas apenas a de informar – e porcamente, diga-se de passagem.

  9. Comentou em 29/05/2007 Juliana Maciel

    ‘Nosso papel é informar’, mas na verdade a função de jornalista vai muito além de informar. Mostrar a verdade, farejar, ir atrás de…Em casos como este, do Renan, a mídia tem o poder de intervir e mostrar real situação. Luiz, mostra no seu texto, que a situação do Renan é um espetáculo, e ele não poderia exemplicar de maneira melhor do que essa, mas essa situação infelizmente é constante no nosso dia-a-dia. Mas esse não é um argumento para desanimar a população, e sim para mostrar que a mídia se faz sempre presente e está tentando e quase sempre consegue derrubar as barreiras encontradas.

  10. Comentou em 29/05/2007 valquíria justino de azevedo

    O caso Renan Calheiros e Monica Veloso, de fato, virou um teatro no senado. Mas o que importa é o que está por tras do suposto caso amoroso mal resolvido. O envolvimento de políticos em falcatruas cresce cada vez mais no Brasil e em muito deles terminam com explicações fúteis como o da vez. Acredito que não só a mídia é responsável em provar os fotos como são ou como aconteceram, mas que a própria justiça é a maior delas. O papel da mídia é importantissimo nesses cosos, mas o da justiça é ainda mais. Podemos dizer a mídia é a voz do público que só acompanha os fatos.

  11. Comentou em 29/05/2007 Márcio Siqueira

    Acredito eu que sempre foi o papel da mídia buscar a fundo qualquer informação que esclareça aos leitores todos os pontos dos fatos em evidência e, como o senhor articulista Weis apresenta em seu texto, as questões que envolvem a suspeita das ligações perigosas de Renan Calheiros. Infelizmente e, como o próprio senador deixou claro em seu pronunciamento, sabemos que mais essa podridão política não será destrinchada pelo próprio senado, morado de outros possíveis desprovidos de caráter. Volto afirmar que, através das palavras do articulista, a mídia precisa assumir, mais uma vez, seu papel investigador e desmascarar de vez o “iluminado discípulo do Gautama Buda”.

  12. Comentou em 29/05/2007 Marcos Abraão

    A mídia, neste caso específico o jornalismo, tem como função social primordial a busca pela representação dos interesses dos cidadãos. Este caso envolvendo o senador Calheiros mostra-se bastante nebuloso, como num jogo de ‘cumpadres’ no Senado para minorar as ligações ilegais do senador. Portanto, se não houver subserviência da mídia aos interesses privados, certamente conseguiremos elucidar este caso, demonstrando as ligações nada transparentes de Renan Calheiros com Gontijo, nos ajudando a retirar este collorido político que há anos instalou-se no poder, advindo de uma elite nada preocupada com o interesse público

  13. Comentou em 29/05/2007 Adelmo Ricardo Filho Ricardo

    Ora, ora, ora… será que todos são débeis mentais ou burros o suficiente pra não saber que tudo isso pode dar em nada? Realmente, se a mídia e a sociedade civil organizada cruzarem os braços pra tanta corrupção com o dinheiro público (nosso mesmo).
    Atire a primeira pedra aquele político que nunca botou no bolso uma graninha extra de empresários ou coisa que o valha? Qual o político que tira do bolso (dos seus próprios recursos) tanta grana e ‘investem’ nas campanhas eleitorais caríssimas? E sabem o por quê que eles investem tanto para permanecerem nos seus postos né? Pela certeza de continuar roubando e a garatia da impunidade.
    E a defesa entre eles? Vocês viram ontem após a defesa fajuta do Renan… a fila de cumprimentos e apoios. Claro, quem é que não tem rabo preso naquela Casa…
    Infelizmente sinto nojo dessa raça que dirige o nosso sofrido Brasil. São todos os Poderes corrompidos, podres… páro aqui porque me dá náuseas quando falo desses bandidos todos. Cadeia pra todos… aí é que vai faltar presídios.

  14. Comentou em 29/05/2007 cesar fonseca

    É isso aí, Weis. O bom jornalismo tem que dar conta do recado. Nada como a história para mostrar o personagem por inteiro. Até parece que stamos vivendo o cenário em que Talleyrand, o diplomata da burguesia em ascensão, com Napoleão, atuou, levando comissões de todos os príncipes e reis europeus corruptos que pagavam caro ao grande talento da diplomacia francesa para firmar tratados com o Imperador, que sufocava a monarquia frente à burguesia triunfante. A diferença, hoje, é de grau. Telleyrand acertava diretamente os repasses do dinheiro. Hoje, os líderes políticos utilizam seus capachos, postados, estratégicamene, nos ministérios, enquanto posam de vestais no Legislativo. As aparências…

    césar fonseca

  15. Comentou em 29/05/2007 Marco Costa Costa

    O artista da nobre arte de prometer e não cumprir, fez do Congresso um grande teatro de ilusionismo da peça a carochinha. O artista fez cara de inocente, choro, melancolia, espanto e congêneres. Fez boca também, lábios trêmulos, as vezes semi-aberto, só não usou um leve batom. Ele não vive somente de teatro, vive também do zoológico, é um grande adestrador de lobismo, o qual ficou tão manso que leva a papinha na boca da família no varejo. Mas, como estamos no Brasil, mais esta história vai acabar em lagrimas de alegria e tapinhas nas costas, para os mais chegados um jantar no melhor restaurante de cidade regado a uma champi e um bom vinho estrangeiro, advinham, pago pelo lobinho de plantão.

  16. Comentou em 29/05/2007 Paulo Campos

    Prezado sr. Weis,
    A relação promiscua e desavergonhada entre a política e o poder economico no Brasil é organica. Troca-se entre elas nada menos que a nojenta seiva vital ( que me perdoe o vegetal ). Gostaria no entanto que alguem me explicasse por que só agora, neste dado momento , resolve a veja tensionar o arco patriótico e lançar sem dó um petardo contra o senador Calheiros, uma vez que o mesmo já se encontra no poder há tanto tempo? Por que meu caro Weis? ( por que a boa notícia política no Brasil espera sempre a sua boa hora? )
    é certíssimo que o destino do senador depende da mídia; alíás os destinos hoje parecem depender todos da mídia, não é verdade? mas ela também não teria um senhor dos seus destinos ? ( não venha me dizer que é o leitor-telespectador ) Que tal então aproveitar o momento, reafiar a navalha e ir fundo numa outra semelhante questão histórica brasileira, qual seja a da relação promíscua e dasavergonhada entre a mídia e os poders, político e economico. Lhe garanto que vai ser ¨seiva ¨jorrando pra tudo que é lado.

  17. Comentou em 29/05/2007 jose bonato Bonato

    Luiz Weis, tenho notado, não tem muito apreço pela grafia correta de nomes próprios. Monica Lewinsky, no texto de hoje, virou Monica Lewitsky. Outro dia, em outro artigo, o bravo jornalista Isidore F. Stone virou Isadore Stone…

  18. Comentou em 29/05/2007 ubirajara sousa

    Não houve engano quanto à sua afirmação de que o Renan seria amigo há 20 anos do Zuleido? Que eu saiba (por declaração pública do própria Renan) essa amizade diz respeito ao Gontijo. Estou errado?

  19. Comentou em 29/05/2007 Dante Caleffi

    Renan, deve ter desafetos declarados ou ocultos, espalhados por redações e pelos legislativos do país, e até no congresso.Razões ,não faltam.Contudo, a soma do veículo que divulgou,mais o denunciante, e suas frágeis e insossas provas(?),obtém ,quê resultado?Amizades ‘suspeitas’? Quem faz política há trinta anos em qualquer recanto do Brasil,ainda mais se esse for Brasília, deve tê-los em quantidade. O que não faz de nenhum,cúmplice.Quando ,o país, entrou na sua adolescência,lá pelos idos do ´50, as empreiteiras fizeram sua estréia,se acomodaram, e como parentes indesejáveis tornaram-se parte da rotina da casa.Pior, é que são indispensáveis.Como controlá-las?Bem, aí é com os senhores congressistas. São bons de solidariedade,com seus pares. Julgar,é tarefa penosa-em qualquer corporação. Provas nesse caso,do senador,devem ser apresentadas pela ‘acusação’.A propósito, qual foi o crime ,mesmo?

  20. Comentou em 29/05/2007 Carlos Sá

    O advogado da jornalista Mônica Veloso disse que tudo que a Veja publicou está certo. E agora, articulista, o que o sr. tem a dizer?

  21. Comentou em 29/05/2007 Silvia Rejane Águeda

    Weis, seu artigo foi o mais preciso, contundente e insofismável de todos os que estão nos jornais de hoje. Jornalista até de renome, ao exemplo da figura de proa da Tribuna da Imprensa está quase a pedir a canonização do acusado de receber propinas. Um absurdo.
    Se o cidadão foi capaz de trair sua própria esposa, assim como a confiança de seus filhos, imagine o que ele não é capaz de fazer com os pobres dos eletiroes, os quais ele nem conhece ?
    Outra coisa. É possível uma mulher permanecer gestante 01 ano e 05 meses após o parto? Foi isso que depreendi dos argumentos do Senador.
    Se não houver punição, nesta recheado caso, o Severino Cavalcante deverá entrar com pedido de indenização por perdas financeiras e danos morais.

  22. Comentou em 29/05/2007 Ivan Moraes

    Se eh que depende da media o futuro de Renan, da pra voltar aas evidencias de laranjada intra-familia que sumiram embora datem de 2005?

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