Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

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Doações ocultas, ou intenções ocultas?

Por Luiz Weis em 30/11/2006 | comentários

O leitor Oswaldo Alencar comentou oportunamente o contraste entre o título da Folha de ontem, ‘Setor bancário deu maior doação à campanha de Lula’, deixando em segundo plano a informação de que a banca doou para Lula o mesmo que doou para Alckmin (R$ 10,5 milhões).

Dirá um defensor desse título viesado que, em jornalismo, ‘cachorro que morde homem’ não é notícia, mas ‘homem que morde cachorro’ é.

Ou seja, as doações da banca ao candidato do PSDB/PFL seriam previsíveis, portanto jornalisticamente ‘menos notícia’ que as doações do setor ao candidato do PT. Um argumento a considerar se os banqueiros não tivessem lucrado o que lucraram nos últimos quatro anos, o que, à parte quaisquer outros fatores, torna igualmente previsíveis as suas doações ao petista.

Não se trata de um título isolado. A Folha deu de espremer até a última gota os informes de entradas e saídas de recursos de campanha, que os candidatos são obrigados a enviar à Justiça Eleitoral. Mas, do modo como os números se espalham por sucessivas páginas, acabam não fazendo muito sentido para o leitor, além de reafirmar a sua convicção de que os doadores de ontem serão recompensados amanhã pelos donatários e que o nível geral da gastança é acintoso – pura verdade.

Ocorre que o tom das chamadas e títulos é sibilinamente acusatório, quando se referem ao presidente. Exemplo, na primeira página da edição de hoje:

‘Lula teve R$ 18,5 mi em doação oculta’.

Por doações ocultas – segundo a expressão adotada pelo jornal – entendam-se aquelas destinadas aos partidos para que façam com elas o que o doador deseja.

É uma espécie de contrato de gaveta: eu quero fazer uma doação para o candidato xis, mas não quero que o meu nome apareça na lista dos seus doadores; faço a doação ao partido, identificando-me como manda a lei, e o partido se compromete comigo a transferir o dinheiro ao candidato cuja campanha quero ajudar por baixo dos panos.

Os nomes dos doadores aos partidos serão conhecidos em abril, prazo final para a entrega de suas prestações de contas.

A prática não é lá muita católica. Não apenas por impedir que se ligue ‘o nome à pessoa’, mas porque permite aos doadores furar o teto legal das contribuições a candidatos. A mesma burla é comum nas eleições americanas. Nos Estados Unidos, esse tipo de contribuição se chama ‘soft money’. Mas, tecnicamente, é legal.

Pois bem. Lendo a matéria da Folha se verifica que as ‘doações ocultas’ não foram uma exclusividade da campanha lulista. Também Alckmin as recebeu. No caso do presidente, elas corresponderam a 19,6% do total. No caso do tucano, a 11,9% (ou R$ 7,4 mi).

Não seria coisa do outro mundo dar um título mais ou menos como ‘Partidos repassaram R$ 25,9 mi a Lula e Alckmin’.

Não tem, é claro, o frisson do termo ‘doação oculta’, muito menos a sugestão de que Lula e o PT cometeram alguma transgressão. Mas tem a gritante vantagem de não deixar no leitor a suspeita de que o jornal está com intenções ocultas.

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 01/12/2006 Eduardo Guimaraes

    Ahá!!, mais um ¨erro¨contra o PT e nenhum, ainda, contra a oposicao. Tá parecendo complô, Luiz. Que você acha?

  2. Comentou em 01/12/2006 Ruy Acquaviva

    A Folha está perdendo sua credibilidade por sua própria culpa. Ao dissociar as manchetes do corpo da matéria, torna aquilo que deveria ser uma chamada para a notícia, em uma mentira alardeada de forma leviana. O leitor do jornal que ser informado, não enganado…
    A toda ação corresponde uma reação de igual força, no sentido oposto. A reação do público, em minha opinião, será simplesmente parar de ler o jornal, devido a essa perda de credibilidade.
    Depois não venham dizer que alguém está fazendo ‘complô contra a imprensa’. Quem mais está prejudicando a liberdade de imprensa neste País são justamente os reponsáveis por manchetes como essas, que representam um verdadeiro desrespeito ao leitor.
    Parabéns ao Sr. Weis por abordar o tema. Está prestando assim um grande serviço À imprensa brasileira e ao próprio jornal, pois lhe dá chance de refletir sobre seus erros.

  3. Comentou em 01/12/2006 Marnei Fernando

    Desculpe Sr. Luiz Weis… no meu comentário anterior eu creditei seu post ao Sr. Malin…

  4. Comentou em 01/12/2006 Marnei Fernando

    Parabéns Sr. Malin… Para mim já é extremamente gratificante ver alguém aqui no OI… postado em primeira página… testemunhar o óbvio em relação a este tipo de manchetes que viraram padrão jornalístico dos jornalões – incluen-se aí também os jornalões televisivos…

  5. Comentou em 30/11/2006 Maria do Carmo

    Manchete da Folha de São Paulo mente mais uma vez: “SETOR BANCÁRIO DEU MAIOR DOAÇÃO AO GOVERNO LULA”, enquanto que lá dentro, bem escondidinho, dizia que Alckmin recebeu o mesmo valor dos bancos. O jornal O Globo mancheteou a mentira do Jornalão metido à Veja: “BANCOS FORAM OS MAIORES DOADORES DE ALCKMIN”. Que situação!!!

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