Terça-feira, 22 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
Menu

CÓDIGO ABERTO > Desativado

E daí? Cadê a matéria?

Por Luiz Weis em 02/07/2006 | comentários

Aposto que se não fosse a Copa do Mundo, a manchete da Folha de hoje seria “Previdência reduz mais a pobreza que o Bolsa-Família” – título de uma das únicas três chamadas que se espremem no que sobrou da primeira página, dedicada, naturalmente, ao vexame da seleção.


Diz a chamada:


Estudo do Ipea, órgão do Planejamento, mostra que as aposentadorias e pensões vinculadas ao mínimo contribuíram mais que o Bolsa-Família para reduzir a pobreza no Brasil. Baseado em dados de 2004, o estudo revela que que os benefícios do INSS ligados aos mínimo reduziram os pobres em cinco pontos percentuais. Já o Bolsa-Família contribuiu, junto com os benefícios pagos a idosos e deficientes, com dois pontos.’


Uau, superinteressante, decerto pensaria o leitor que passasse batido pela pegadinha da história – e que a converte numa falsa notícia: a frase “Baseado em dados de 2004…”.


Indo à matéria, que ocupa 2/3 da página de abertura da seção Brasil, só no quarto parágrafo o nesse caso literalmente incauto leitor veria a verdade sobre o caráter acadêmico, no mau sentido figurado, da reportagem:


É preciso ressalvar contudo que os dados do Ipea são baseados na Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2004, quando o Bolsa-Família ainda estava sendo estruturado, ao unificar vários programas sociais, e atingia 6,5 milhões de famílias – 59% da população considerada pobre no país. Hoje o programa atinge 11,1 milhões de famílias.’


O que significa obviamente que o Bolsa-Família, atendendo hoje a um contingente 70% maior do que há dois anos, tem também muito mais peso como fator de redução da pobreza.


Ou seja, só com a Pnad de 2006 será possível saber qual a participação do programa enormemente ampliado nesse período no combate à pobreza, em comparação com os benefícios vinculados à variação do salário-mínimo, bancados pela Previdência.


Nisso não vão nem críticas nem elogios à política social do governo. A crítica vai para a idéia de fazer um cavalo de batalha jornalístico a partir de números superados.


Faltou na Folha alguém com poder de decisão que, ao receber o texto, reagisse com a clássica pergunta que antecede a derrubada de reportagens que prometem ouro e entregam pirita:


”E daí? Cadê a matéria?”


A resposta, no quinto parágrafo do texto, é que o estudo do Ipea, ‘de todo modo‘ faz uma análise inédita do tema.


Muito bem, palmas para o instituto. Mas dar a essa análise inédita – e defasada – estatura de materião é dar uma pseudonotícia. O que não é propriamente inédito na mídia.


P.S. Da série “Meno male”


De vez em quando o New York Times publica, sob o chapéu “Editorial observer”, uma mistura de reportagem, análise e editorial assinado. O de hoje, de autoria de Tina Rosenberg, fala do “longo, duro caminho do jornalismo investigativo na América Latina”, como diz o título.


O texto trata da coleção de desgraças que caem sobre a cabeça de repórteres, editores e publishers que ousam garimpar verdades que não interessam aos podres poderes.


Cita casos da Colômbia, Paraguai, Argentina, México, Venezuela, Peru…


Então o que é que leva jeito de ser menos mal?


O fato de o Brasil não constar da lista negra de países latino-americanos onde, conforme o texto, “jornalistas que investigam corrupção, tráfico de drogas e outros crimes de grande calado são rotineiramente assassinados”.


Para ler o artigo do Times, clique aqui.


***


Os comentários serão selecionados para publicação. Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas, que contenham termos de baixo calão, incitem à violência e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 03/07/2006 Eduardo Guimarães

    Weis, vejo que pensamos juntos a mesma coisa e provavelmente ao mesmo tempo (o tempo em que cada um leu a matéria da Folha). Foi um escândalo, entre outros muitos que foi possível ver nos jornalões nos últimos dias. E o pior é que, como escrevi a você aqui em seu blog há pouco tempo, não vejo esse tipo de coisa ocorrendo contra Alckmin. Mas você diz que não há um trabalho da mídia contra Lula. Não dá pra entender.

  2. Comentou em 03/07/2006 Vivian Stipp

    Por essas e por outras que há muito eu me recuso a ler os ‘jornalões’ e revistas semanais. Ao invés de informação de qualidade eles vendem fofocas, intrigas, distorções, calúnias e mentiras, e eu dou muito valor ao meu dinheirinho. Eles também protegem seus apaniguados, mas dizem que são independentes… Eu lamento muito que não exista o Conselho de Jornalismo, para que esse tipo de gente, que se diz jornalista, fosse banida das redações e fosse fazer política nos partidos, ou então fosse para o judiciário julgar e condenar as pessoas, se é isso que lhes interessa. Li um artigo interessante, não me recordo o nome do autor, que dizia que no tempo da ditadura, se você xingasse um soldado na esquina, era acusado de ofender o exército inteiro. Hoje isso ocorre com a imprensa: se criticar um jornalista, você é acusado de atentar contra a liberdade de imprensa! Se depender de mim, morrerão todos de fome…

  3. Comentou em 03/07/2006 Wilson Oda

    A Folha não produz informação e, sim, ideologia. Ela quer vender o seu produto neo-liberal que condena qualquer programa social consistente. Não que o programa bolsa-família seja ótimo. Não é.
    É um programa tímido demais. Deveria ser mais abrangente e com valores maiores. Não temos verbas? Não. O País pagou cento e oitenta bilhões de reais de juros só para ficar de bem com a banca e alguma agência internacional não der nota D para o risco-Brasil.
    A Folha e a maioria da imprensa, como já foi dito aqui mesmo, nunca fizeram uma cobertura sobre a miséria e a pobreza deste País. Ao contrário, combatem qualquer política – mesmo que tênue – que a enfrente.

Código Aberto

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem