Domingo, 26 de Março de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº937

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‘É isto um país? É isto um povo?’

Por Luiz Weis em 29/03/2007 | comentários

O título desta nota é o fecho do artigo do jornalista Alcino Leite Neto, na página 2 da Folha de hoje. Intitulado ‘A barbárie brasileira’, é o texto que, infelizmente, eu gostaria de ter escrito, em especial o último parágrafo:

Aqui e agora, todo ideal soa hipócrita ou ridículo. Todo discurso parece inócuo ou oportunista. Ninguém confia em mais ninguém. As instituições públicas estão desacreditadas. As elites políticas, econômicas e sociais servem mais como contra-exemplos do que como modelos. A vulgaridade se dissemina por todas as classes. O arrivismo virou regra social. A inteligência mergulha na desrazão. O trabalho perdeu a dignidade. As ruas são perigosas. As casas estão ameaçadas.
A vida foi rebaixada ao seu estado mais rudimentar: o medo permanente
.’

O artigo inteiro:

‘Um dos constrangimentos a que o brasileiro é submetido atualmente no exterior consiste em tentar explicar o estado da violência no país. Você entra no táxi e, conversa vai, conversa vem, o motorista indaga: ‘O Brasil é muito perigoso, não é?’. Você está em um jantar, cercado de executivos, e, de repente, um deles lhe pergunta: ‘Como fazem os brasileiros para viverem em meio a tanta violência?’

As TVs e a imprensa também adoram as notícias da barbárie brasileira. A prestigiosa revista ‘Vanity Fair’, em seu número de abril, que já está nas bancas nos EUA, publica uma reportagem de 11 páginas sobre o PCC e o crime em São Paulo. A matéria mereceu até mesmo uma chamada de capa, que diz: ‘Como uma gangue de prisioneiros tomou conta de uma cidade de 20 milhões de habitantes’.

Dentro, o título da reportagem é ‘Cidade do Medo’, e o texto descreve meticulosamente os ataques do PCC em São Paulo no ano passado, explica como surgiu a organização criminosa, descreve como a pobreza é vasta e alienante no país e como o Estado se revela fraco diante do crime.

Durante décadas, o Brasil representou, aos olhos estrangeiros, um país alegre, musical e até utópico. Esse Brasil já não existe mais. A fantasia do país idílico e feliz deu lugar à imagem de uma terra violenta, criminal, corrupta e à beira do desgoverno. A nova imagem que os estrangeiros fazem do Brasil está obviamente mais próxima de nossa realidade social. É também mais condizente com o modo como os próprios brasileiros agora representam o país para si mesmos, entre o cinismo e a má consciência.

Desde tempos coloniais, o Brasil foi marcado por uma multidão de utopias – e políticas a antropológicas, de culturais a religiosas. Todas elas foram contrariadas, uma a uma, demonstrando que nossa imaginação era muito mais fértil do que nossa vontade política.

Hoje, esvaziados de utopias, decepcionados com a realidade adversa, desconfiados dos ideais políticos, os brasileiros também já não se interessam por nada que possa levá-los coletivamente a construir uma civilização forte e respeitável.

Aqui e agora, todo ideal soa hipócrita ou ridículo. Todo discurso parece inócuo ou oportunista. Ninguém confia em mais ninguém. As instituições públicas estão desacreditadas. As elites políticas, econômicas e sociais servem mais como contra-exemplos do que como modelos. A vulgaridade se dissemina por todas as classes. O arrivismo virou regra social. A inteligência mergulha na desrazão. O trabalho perdeu a dignidade. As ruas são perigosas. As casas estão ameaçadas.
A vida foi rebaixada ao seu estado mais rudimentar: o medo permanente.

É isto um país? É isto um povo?’

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 11/07/2007 marina chaves

    a proposito: a reportagem da bbc mostrava o casal numero um do brasil numa animada festa junina, vestidos a carater e dançando uma animada quadrilha……..

  2. Comentou em 10/07/2007 marina chaves

    mas o que me envergonhou mesmo foi ver uma reportagem na bbc que mostrava o casal numero um do brasil numa alegre festa junina…. o problema nao foi a reportagem em si, mas foi o de ver a reaçao da apresentadora do jornal: um belo sorriso!

  3. Comentou em 29/03/2007 ubirajara sousa

    Quem são os estadunidenses para falar de segurança? Vivem amedrontados, sob o controle de faróis de luzes de cores diferentes. Berço da corrupção, que tem como exemplo a triste história de que, para prender Al Capone, houve que servir-se de um descuido contábil relativo ao imposto de renda daquele malfeitor. Nós, brasileiros, em lugar de apenas críticas e mais críticas, deveríamos estar aptos a apresentar e sugerir soluções para os problemas que enfrentamos. Os problemas são nossos, de todos nós e não podemos esconder-nos atrás do voto que demos. É papel da mídia informar e, se possível, formar. Por isso, é hora de a mídia, que tudo sabe e tudo vê, encontrar e sugerir soluções práticas. Não vejo isso na mídia. Mostrar-se indignado é fácil. Reclamar? Apenas reclamar? É preciso ação e a ação não se faz apenas no sentido de derrubar, de massacrar aquele a quem confrontamos. O confronto pode ser positivo, desde que imbuído de propósitos construtivos. A utopia que alimento é a de ver, um dia, a nossa mídia ajudando a construir um país melhor para todos os brasileiros.

  4. Comentou em 29/03/2007 levisclei omar CASAGRANDE

    Quando,o povo fica na não de um governante cujo o maiore atributo denominado pela revista mais importante do pais é de que se trata do […] o que se pode esperar.
    È evidente que os acordos com ás mais diversas ideologias, ondo o mencionado goverante, busca apóio para se manter,só pode levar a um saco de gatos, onde o gato mestre não podendo arrumar para sí attuma para os seus.
    Isto nos remete ao refreão da musica, ‘que país é este’ é o país onde o honesto passa atestado de trouxa, onde o trabalhador vira traficante porque o salário pago não dá para comer e quando chagamos a esta inversão de valores,por certo a que se começar de novo.

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