Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CÓDIGO ABERTO > Desativado

E o hipopótamo que a mídia não mostra?

Por Luiz Weis em 28/08/2007 | comentários

Voltada, como não poderia deixar de ser, para o julgamento preliminar do mensalão, que ocupa a parte do leão dos cadernos nacionais, a imprensa tem informado muito menos do que conviria ao interesse público quem é o juiz que o presidente Lula vai indicar para o Supremo Tribunal Federal, na vaga aberta com a aposentadoria antecipada do ministro Sepúlveda Pertence.

Pelos jornais fica-se sabendo principalmente que o juiz se chama Direito – Carlos Alberto Menezes Direito -, que é membro do Superior Tribunal de Justiça e que foi apadrinhado por uma penca de poderosos.

A começar do ministro da Defesa Nelson Jobim e do ex-presidente do Senado José Sarney. Além de outros políticos do PMDB, ao qual Direito é ligado, e do ex-PFL.

No governo, o principal foco de resistência a Direito é capitaneado peloministro da Justiça, Tarso Genro.

Fica-se sabendo também pelos diários que a nomeação envolve uma corrida contra o relógio. Magistrados não podem chegar ao Supremo depois dos 65 anos. Direito fará 65 no próximo dia 8.

A sua indicação precisa ser aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça e pelo plenário do Senado. O que deixa o exíguo prazo de nove dias corridos ou sete úteis – há um fim de semana no caminho e depois o 7 de Setembro.

Dará tempo? Não dará tempo? A Folha, ouvindo suas fontes, parece achar que sim. O Valor, ouvindo as dele, parece achar que não – com a vantagem, para o leitor, de identificar os céticos. “Votação relâmpago não acontecerá”, prevê o senador tucano Sérgio Guerra.

Mas, como dizem as crianças circulando pelo zoológico, “e o hipopótamo?”

O “hipopótamo”, com todo o respeito, é o ideário do doutor Direito, a que a mídia tem dedicado escasso espaço.

A matéria do Valor de hoje, por exemplo, é rica em informações sobre o minueto político – ou será o rally político? – em torno da nomeação. Mas nada sobre as convicções pessoais do togado, nem sobre a influência delas nos seus veredictos.

O Globo se limita a dizer que, indicando o seu nome, “Lula agradaria à Igreja Católica. Direito é contra o aborto e se alinha ao clero conservador em temas sobre comportamento da sociedade.’

A Folha vai um pouco adiante, ao informar: “Ele é ligado à area mais tradicional da Igreja Católica, contra a interrupção da gravidez mesmo em caso de anencefalia do feto e pesquisas com células-tronco.

Só isso deixa claro que, se chegar lá, Direito estará para o nosso Supremo Tribunal Federal como estão para a Suprema Corte americana os baluartes da direita religiosa, nomeados, de caso pensadíssimo, pelo presidente Bush.

Mas a opinião pública e o Senado da República precisam saber mais sobre a conduta do doutor – os votos que ele proferiu em matérias controversas ao longo da carreira.

Assim como já acontece na América, também no Brasil a mais alta corte de Justiça tenderá com frequência cada vez maior a se pronunciar sobre a constitucionalidade de atos legislativos sobre aspectos da chamada “agenda pós-materialista” – assuntos que mexem com liberdades individuais e a possibilidade de fazer ciência sem as restrições que lhes querem impôr as religiões.

De intolerantes religiosos na área do direito, no Brasil, basta o ex-procurador-geral da República, Claudio Fonteles.

Católico fervoroso, ele recorreu ao Supremo contra os dispositivos da Lei de Biossegurança que autorizam, sob estritas condições, pesquisas com células-tronco embrionárias descartadas em clínicas de reprodução assistida – talvez a mais ambiciosa aposta das ciências biomédicas, para o bem da humanidade, neste começo de século 21.

Perto das indispensáveis informações para prognosticar qual possa ser o papel de um eventual ministro Direito em relação a esse e outros temas aparentados, chegam a ser descartáveis os bastidores políticos da sua anunciada indicação, de que a imprensa se ocupa.

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 31/08/2007 Antonio Duval

    Há outro hipopótamo na história e, como sempre, a imprensa passou batida. O indicado pode assumir até às vésperas de completar 66 anos, pois nesse dia ainda terá, legalmente, 65 anos. Não há pressa nenhuma. Podem marcar a sabatina e a posse para o início do próximo ano, em março, por exemplo, que o Dr. Direito ainda estará no prazo para vestir a capa do Batman. Outro coisa: homens honrados como Fernando Gabeira e Jefferson Peres têm cacife para indicar alguém para o STF? Claro que não!! Qual a admiração de o Dr. Direito ser indicado por […] do quilate de um José Sarney, por exemplo? O Parlamento, hoje, é uma corja, o que, infelizmente, faz com que liguemos os indicados, a maioria também composta de homens honrados, aos […]citados.

  2. Comentou em 31/08/2007 José Frid

    PERFEITO!
    A IMPRENSA BRASILEIRA PRECISA APRENDER A VERIFICAR O PASSADO JURÍDICO DOS INDICADOS AO STJ E STF.

  3. Comentou em 29/08/2007 Ivan Moraes

    ‘não se pode fazer pré-julgamento do ministro Carlos Alberto Menezes Direito, que terá cinco anos para mostrar se vai ou não contribuir para melhorar o Supremo’: aas custas do povo brasileiro? Pois porque nao informamos os brasileiros entao que infiltracao de extrema-direita nos judiciarios eh ordem internacional e desacatar la eh impensavel?

  4. Comentou em 29/08/2007 Luiz Ribeiro

    Muito cuidado em generalizar,destilando essa intolerância por quem pensa diferente. Uma coisa são católicos que tem o poder do mando,e os outros. Vejo materialistas/não-teístas fazendo as piores coisas nesse Brasil,e até bem pouco eram os próceres da justiça,do socialismo,do progresso,da esquerda ‘iluminada’.
    E aí,como é que ficamos? Posso julgar na mesma medida?

  5. Comentou em 29/08/2007 José de Souza Castro

    Não gostei também da indicação do novo ministro do Supremo, por causa do apoio que dizem que ele tem de José Sarney, Renan Calheiros, Romero Jucá e outros ilustres políticos, mas acho que não se pode fazer pré-julgamento do ministro Carlos Alberto Menezes Direito, que terá cinco anos para mostrar se vai ou não contribuir para melhorar o Supremo. Este, por sinal, deu ontem uma demonstração animadora, ao decidir que todos os 40 denunciados pelo Ministério Público por envolvimento no esquema do mensalão deverão responder a processo por um ou mais crimes. Entre eles, três ex-ministros de Estado. Um deles, o ex-ministro dos Transportes Anderson Adauto, agora prefeito de Uberaba, eleito no ano passado com mais de 67% dos votos válidos, o que mostra que o eleitor ainda não sabe que ele, eleitor, é quem no fim paga pela corrupção no serviço público. O ex-ministro José Dirceu e outros dois importantes dirigentes do PT e 12 parlamentares de quatro partidos (PP, PR, PTB e PMDB), banqueiros e empresários também serão julgados. O que se espera é que o julgamento seja rápido, para quebrar o paradigma de impunidade que se observa até agora no Supremo, por decurso de prazos.

  6. Comentou em 29/08/2007 Sandra Sabella

    Luiz, acabo de ler na Tribuna da Imprensa on-line por acesso gratuito um pequeno perfil do candidato Carlos Direito ao STF. Então, não podemos dizer que NINGUÉM viu o hipopótamo.

  7. Comentou em 28/08/2007 Fabio Passos

    Penso que esta indicação é mesmo péssima. O sujeito representa atraso e obscurantismo. Presumo que terá apoio incondicional da grande mídia.

  8. Comentou em 28/08/2007 Ivan Moraes

    Em outras palavras, Lula, o ex-esquerdista, esta apontando um ‘apadrinhado por uma penca de poderosos’ de ultra-direita para o cargo. Porque eh que eu nem estou surpreso?

  9. Comentou em 28/08/2007 MAURO SCARPINATTI

    Não gostei da nomeação, a começar pelo nome do meretíssimo ‘Direito’….por razões de princípio, prefiro um esquerdo.
    Pelo que se disse até o momento, o hipopótamo que estamos enxergando é mais do mesmo: conservadorismo legalista, ou seja, aplicação estrita da letra morta da lei, por um judiciário corporativista, atrasado e injusto, que há muito não sabe o que é o que é o povo e o Brasil, pois vive em outra galáxia !
    Uma pena…..pois é mais uma oportunidade de avanço que se perde

  10. Comentou em 28/08/2007 Fernanda Estima

    Que nojo, Luiz. Seu texto me fez chorar de desgosto, de desconsolo com um governo que ajudei a eleger e que não é capaz de aceitar bandeiras históricas do movimento de mulheres. Sinto nojo de governos e Estados que não aceitam que nem todos tem ou querem religião. Por mim, só podia entrar na vida pública, em qualquer área, se comprovar que não tem ligação com religião alguma. Aliás, os catoĺicos que não são reacionários são expulsos por sua santa madre igreja.

  11. Comentou em 28/08/2007 Marco Valle

    Parece que colocaram um boi na linha do Direito. Mas tudo que li na imprensa ate agora
    parece muito fluido e meio no chute (fulano acha isso, o ministro tal acha aquilo).

    De minha parte, como advogado militante (embora em licenca) posso dizer que o Direito tem
    sido um dos grandes ministros do STJ, quer pela parte tecnica (embora um tanto formalista,
    eh verdade) quanto pela honestidade pessoal (coisa que nem sempre eh regra, como vimos
    num dos ultimos escandalos).

    Acho que essa discussao sobre conservadorismo deve ser posta na devida pespectiva
    (primeiro, se existe de fato; segundo, se eh necessariamente um mal ou apenas dara uma
    certa representatividade de um setor existente na sociedade). Minha humilde sugestao eh
    pedir para alguem perder um dia ou dois olhando como o Direito tem votado em questoes
    importantes no STJ (ate agora, nao vi nada disso). Se tiverem muita preguica, ha uma
    revista que publica um raio X dos tribunais superiores e que faz um pouco desse trabalho.

  12. Comentou em 28/08/2007 Oliveira Elenice

    Esta indicação (QI) é ‘COTA’ da Igreja Católica e/ou da penca de poderosos entre eles SARNEY e NELSON JOBIM? A burguesia não aposenta o hábito de nomear parentes, afilhados e amigos.

  13. Comentou em 28/08/2007 sandro sicuto

    É estranho a preocupação com a nomeação de um ministro conservador para o STF. A reação da impresa seria diferente caso o nomeado fosse um ex-guerrilheiro ou criminoso político? É preocupante este enviesamento ideológico do debate. Afinal de contas, o STF deve refletir a pluralidade ideológica, de um lado, e, concomitantemente, reproduzir a orientação ideológica predominante no País. É bom lembrar que, segundo pesquisa amplamente ventilada pelo canais de comunicação, o brasileiro é preponderantemente um homem pragmaticamente conservador!

  14. Comentou em 28/08/2007 José Paulo Badaro

    Há quem diga, embora a imensa maioria negue, especialmente os adversários políticos, que o Lula é um sujeito muito inteligente. Atento a isso, e ao fato de que o Min. Temporão, da Saúde, adota posições inversas àquelas atribuídas ao Dr. Direito, em relação ao aborto e às pesquisas com células tronco, entendo que a indicação do presidente de um lado contenta a Igreja, parte da oposição e os conservadores de modo geral, mas ao que tudo indica irá nadar, nadar e morrer na praia… O direito do Dr. Direito vai se extinguir direitinho até o próximo dia 8 de setembro.

  15. Comentou em 28/08/2007 Felipe Faria

    ‘A Folha vai um pouco adiante, ao informar: “Ele é ligado à area mais tradicional da Igreja Católica, contra a interrupção da gravidez mesmo em caso de anencefalia do feto e pesquisas com células-tronco. ‘ Sugere o autor que a Folha é favorável ao aborto para pesquisas de células-tronco? Kumékié?

  16. Comentou em 28/08/2007 Marco Antônio Leite

    Não só o Católico, bem como o de outras religiões são retrogados, conservadores e alienados, na medida que são contra isso, aquilo e aquilo outro. Portanto, o senhor Direito como sendo um homem de direita fará tudo que venha trazer dissabores ao povo em geral, agindo de acordo com os interesses da direita. As religiões é um cancro no desenvolvimento cultural do povo simples, as quais pregam o medo, a calmaria e o conformismo. Os direitistas, e o senhor Direito é quem fazem parte dessa exploração da fé alheia.

  17. Comentou em 28/08/2007 Claudio Barbosa

    Devagar com o andor que o santo é de barro. O texto faz uma ilação entre católicos e conservadores retrógrados que em nada contribui para acharmos o tal hipopótamo do título.

  18. Comentou em 28/08/2007 Mauricio Araujo

    Quem recorreu contra a lei de Biosegurança foi o procurador geral anterior o Fonteneles.

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